A 8 de março celebra-se em todo o mundo o Dia Internacional das Mulheres, um dia histórico de reivindicação pela igualdade de género em todos os campos da vida pública e privada.
Este dia foi comemorada pela primeira vez em Nova Iorque em 1909, por iniciativa do Partido Socialista da América, no contexto da luta pelo voto feminino, e o seu estabelecimento como uma data regular foi proposto no ano seguinte por Clara Zetkin, durante as conferências da Internacional Socialista em Copenhaga. Foi na Rússia ainda imperial, que ganhou a sua data definitiva a 8 de março: uma grande marcha de mulheres foi organizada em protesto contra as deterioradas condições de vida enfrentadas, e com a adesão de operários metalúrgicos foi um dos eventos que precipitou a Revolução de 1917.
Este dia foi finalmente instituído como Dia Internacional das Mulheres pelas Nações Unidas em 1975, e é celebrado atualmente em mais de cem países. Em Portugal, a Rede 8 de Março coordena anualmente a participação na Greve Internacional Feminista em vários pontos do país e é uma das 52 organizações que se juntam à Plataforma Feminista em convocação da marcha que parte amanhã às 15h do Marquês de Pombal, em Lisboa, com o mote “Enfrentamos o fascismo, exigimos avançar!”
É um dia de luta travada nas ruas, no espaço doméstico, nas instituições, nas mentes de todas e todos nós… e seguramente também nas páginas dos livros que escolhemos para as nossas estantes. Neste dia lembramos o legado da escrita feminista, a expressão literária e crítica que dá voz à experiência de todas as mulheres, e que exige — sem reservas — um mundo diferente.
Este livro recentemente re-editado na coleção Little Black Classics da Penguin, consiste no texto redigido em 1791 por Olympe de Gouges, dramaturga e abolicionista francesa, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É um dos mais antigos exemplos de escrita feminista reivindicativa: repleto de ironia, toma como ponto de partida a crítica à utilização da palavra “Homens” para representar a humanidade, denunciando o encobrimento da posição subalterna das mulheres que sucede a adoção deste termo.
Com o subtítulo “Repensar, refazer e reinventar o corpo no capitalismo contemporâneo”, esta obra da teorista italiana Silvia Federici alicerça-se na tradição crítica do feminismo marxista militado pela autora, uma das fundadoras da campanha pioneira Wages for Housework (campanha pelo salário para o trabalho doméstico) em 1972. Traz o corpo para o primeiro plano, revelando a sua exploração e redução enquanto máquina de trabalho, no qual inclui, de forma central, o trabalho reprodutivo. Aprofunda os conceitos apresentados na sua obra-prima Calibã e a Bruxa, um tratado histórico sobre a subjugação da mulheres – e de todos nós – face às forças de acumulação e opressão patriarcal.
Este livro de Sophie Gilbert, redatora do jornal norte-americano The Atlantic, analisa de forma mordaz um momento histórico muito próximo, vivido por muitos de nós: a década de 90 e o início dos anos 2000. A autora tenta fazer sentido dos retrocessos vividos atualmente no campo dos direitos das mulheres, arduamente conseguidos na segunda metade do século XX, identificando a reação ao movimento feminista na viragem do milénio como motor central. Girl on girl expõe como esta reação se expressou numa produção cultural profundamente misógina, assente na sexualização, objetificação e infantilização da mulher.
Simone de Beauvoir é uma das mais incontornáveis vozes da teoria feminista e da filosofia existencialista, com o seu livro pioneiro O Segundo Sexo a figurar quase obrigatoriamente em qualquer lista de livros feministas. Hoje, a nossa recomendação vai para este volume de memórias, em que retrata a sua infância com a irmã no seio de uma família burguesa, e a amizade com Zaza, figura determinante no seu desenvolvimento. Podemos nestas páginas conhecer a menina de quem o pai dizia, com orgulho, "A Simone pensa como um homem!", e identificar as raízes da sua natureza anticonformista, e do brilhantismo que mais tarde a tornou num ícone.
Um livro que dispensa apresentações, central no cânone feminista da literatura portuguesa, esta é uma audaciosa coletânea de textos que denunciam a ditadura do Estado Novo, publicada ainda sob o seu jugo, em 1972. Escrita a três mãos, com o compromisso de os textos individuais permanecerem de autoria anónima, esta obra valeu às autoras sujeição a julgamento legal pela ‘ousadia’ de a publicar. Editada pela Estúdios Cor, de Natália Correia, contesta frontalmente a realidade do poder patriarcal, a condição das mulheres, assim como a colonização, a guerra e a violência sustentadas pelo regime ditatorial.
O trabalho da teorista e ativista americana bell hooks é construído sobre a estrutura crítica da interseccionalidade, enquadrando a raça, a classe social e o género como categorias chave na perpetuação de sistemas de opressão. Este livro de 2002 incide em particular sobre a vivência de relações amorosas, desenvolvendo os conceitos introduzidos na sua obra seminal Tudo do Amor. A sua abordagem ao conceito de amor, expandindo-o para além do amor romântico normativo heteronormativo, é central, sendo que as relações heterossexuais – e a difícil busca por um parceiro masculino adequado num panorama de socialização masculina que promove a violência e a repressão emocional – são também retratadas neste livro.
Este livro da filósofa francesa Manon Garcia exige do leitor coragem e estômago: a filósofa escreveu este ensaio após assistir ao julgamento de Dominique Pelicot, o homem que drogou a sua esposa Gisèle durante décadas, convidando mais de cem homens de fórums online a visitar a sua casa para a violar. Viver com homens segue a tradição de Hannah Arendt, que escreveu Eichmann em Jerusalém - Uma reportagem sobre a banalidade do Mal depois de presenciar o julgamento de um dos principais responsáveis pelo holocausto nazi. É precisamente a banalidade destes homens, que cometeram atos aparentemente inconcebíveis com uma frequência, facilidade e um sentido de inocência profundamente alarmantes, que Garcia utiliza como base para este incisivo ensaio sobre género e violência. Estes homens não são, afinal, assim tão diferentes daqueles com que nos cruzamos todos os dias, e é esse o terror derradeiro da condição feminina. A não perder também o livro autobiográfico da Gisèle Pelicot, A Hymn to Life, lançado este ano.
A filósofa brasileira Djamila Ribeiro, uma das 100 mulheres mais influentes segundo a BBC e coordenadora do projeto Feminismos Plurais — no âmbito do qual editou também Lugar de Fala — oferece-nos nesta obra um registo autobiográfico, uma coleção de cartas escritas à sua avó Antónia. Através deste diálogo, leva o leitor a uma reflexão sobre o racismo, em especial a condição da mulher negra, e aborda a sua própria infância e educação moldada pelas forças de opressão a que a sua identidade a sujeitou, mas também pela coragem e feminismo nascente das mulheres que a criaram. Um essencial por umas das mais importantes autoras feministas da lusofonia.
Camila Sosa Vilada relata a condição feminina na sua abrangência total, com este livro autobiográfico sobre uma comunidade de mulheres travestis e trans, e a sua experiência face a um mundo hostil e desumanizador. Numa escrita profundamente bela mesmo na sua crueza e visceralidade, reivindica as palavras e as identidades usadas pelo mundo normativo como insultos e base de exclusão, para formarem antes o eixo de um amor vivido no seio da família escolhida, entre irmãs. O autor argentino Juan Forn diz sobre o livro: “No seu ADN convergem as duas facetas do mundo trans que mais repelem e assustam a boa sociedade: a fu´ria travesti e a festa de ser travesti.”
E porque o feminismo também é para os mais pequenos (e pequenas), a ativista e autora Lúcia Vicente traz-nos um livro sobre as mulheres da história portuguesa que se destacaram pela vontade e coragem de mudar o mundo. Um livro que celebra a rebeldia e a ambição política de mulheres como Beatriz Ângelo, Beatriz Costa, Paula Rego e muitas mais, de uma forma divertida e educativa. Para um público adulto, não perder Feminismo de A a Ser, da mesma autora, que aborda a história deste movimento com um foco no contexto português.
Se ficou inspirado e com vontade de saber mais sobre mulheres que marcaram o mundo, espreite a nossa página especial a elas dedicada.