Virginia Woolf e Judith Teixeira: vozes queer na sociedade oitocentista

Por: Beatriz Sertório a 2024-01-25

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Mrs Dalloway
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Rumo ao Farol
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Orlando
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The Well Of Loneliness
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Um Quarto Só Seu
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No mesmo domingo em que se decide o rumo que o nosso país irá seguir nos próximos quatro anos (10 de março), as estrelas de Hollywood reúnem-se no Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia, para conhecer os favoritos de 2023 da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Se, tal como nós, acredita que o livro é sempre melhor que o filme, não pode perder estas dez leituras que inspiraram alguns dos mais especiais nomeados para os Óscares 2024.

Eleições legislativas: tudo o que precisa de saber e 9 livros essenciais

Depois da demissão do primeiro-ministro, António Costa, no dia 7 de novembro, e da consequente dissolução do parlamento, os portugueses vão a votos para decidir o futuro do país. As eleições legislativas antecipadas estão marcadas para dia 10 de março, e está nas mãos de mais 10,8 milhões de eleitores residentes em território nacional e no estrangeiro escolher o partido que irá formar o próximo Governo e representá-los durante os próximos quatro anos. Os nove livros que sugerimos são essenciais para conhecer melhor os candidatos que vão a votos e entender aquilo que está em jogo.

Um golpe de estado em 248 páginas

Há livros que são armas, tijolos que quebram muros, machados que quebram o mar gelado em nós (Franz Kafka), um “tiro de pistola entre a multidão” (André Breton). Portugal e o Futuro de António de Spínola foi um desses livros. Publicado dois meses antes da Revolução sem sangue que mudou para sempre o nosso país, o livro do então militar acabou por ser a arma, a “pedrada no charco”, o “rastilho” (António Valdemar) que colocou em movimento as engrenagens da mudança. Agora, no 50º aniversário da Revolução e da publicação do livro que lhe deu início, João Céu e Silva traça aquilo que descreve como “a biografia de um livro” com O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses antes dos Capitães (Contraponto).

Nascidas no mesmo dia, separadas por dois anos e um oceano, Virginia Woolf e Judith Teixeira foram duas mulheres e escritoras à frente do seu tempo. Nascida Adeline Virginia Stephen em Londres no ano de 1882, Woolf ficou para a História como uma das figuras literárias mais importantes do século XX. Dois anos antes, em Viseu, nascia Judite dos Reis Ramos Teixeira, também conhecida por Lena de Valois ou Judith Teixeira, um nome cuja memória a História tentou apagar. 

No dia do seu 144º e 146º aniversário, respetivamente, recordamo-las por tudo aquilo que as unia, embora as suas trajetórias nunca se tenham cruzado. No caso de Woolf, para continuar um legado que trilhou caminho para inúmeras mulheres e escritoras que se seguiram, no de Teixeira, para recuperar do esquecimento uma voz que urge redescobrir.


Alteridade e representação queer 


Se ainda hoje a comunidade LGBTQIA+ tem que lutar para assegurar os seus direitos um pouco por todo o mundo, é seguro dizer que a sociedade oitocentista de Portugal e Inglaterra não estava pronta para duas mulheres como Virginia e Judith. Depois de escrever os seus romances de maior sucesso, Mrs. Dalloway (1925) e Rumo ao Farol (1927), Woolf publicou Orlando (1928), hoje uma obra-prima da literatura queer, que explora temas como a não-binariedade, a identidade de género e a homossexualidade.

De alguma forma, escapou à censura na altura mas sabemos hoje que, para além de uma história sobre um protagonista que muda de sexo, Orlando é também uma carta de amor a Vita Sackville-West, amiga, musa e amante da autora. As duas viveram uma história de amor que durou uma década, ao mesmo tempo que mantinham casamentos abertos com os respetivos parceiros.

Na obra de Judith Teixeira, por sua vez, as referências homoeróticas são mas dúbias, ainda assim suficientemente claras para a autora ter sido violentamente atacada pela imprensa moralista da altura pelas "vergonhas sexuais" e "versalhadas ignóbeis" que escrevia. Também na revista Ordem Nova, em 1926, Marcello Caetano referiu-se ao seu livro Decadência como sendo da autoria "duma desavergonhada”.

Ao mesmo tempo, a não conformidade de Teixeira ao papel social de género altamente conservador da época, levou a que alguns académicos teorizassem sobre a fluidez de género desta persona literária que incendiou opiniões com os seus versos.


Escândalo e censura


Se hoje em dia Judith Teixeira é ainda um nome desconhecido de muitos, é em grande parte devido à censura a que a sua obra foi sujeita. Em 1923, o Governo Civil de Lisboa ordenou que se queimassem, em praça pública, três obras literárias consideradas imorais segundo os valores do regime do Estado Novo  Canções, de António Botto, Sodoma Divinizada, de Raul Leal, e Decadência, de Judith Teixeira. 

Como se a violência do biblioclasmo não fosse suficiente, Judith Teixeira foi apagada da História mais uma vez quando nesse mesmo ano, Fernando Pessoa, cuja editora Olisipo publicara Botto e Leal, escreveu dois manifestos a insurgir-se contra este ato escandaloso de censura que ficou conhecido como “Literatura de Sodoma”. Contudo, o nome de Judith bem como o título da obra visada não foram mencionados uma única vez.

Virginia Woolf, por sua vez, não viu nenhuma das suas obras queimadas ou banidas mas foi igualmente alvo de censura em obras como Rumo ao Farol, por fazer alusão a temas como o suicídio, ou Mrs. Dalloway, pelo seu conteúdo presumidamente homossexual. Foi também uma acérrima crítica da censura e repressão gerada pela publicação do livro The Well of Loneliness (1928) de autoria de Radclyffe Hall, sua conterrânea e contemporânea, cujo conteúdo lésbico levou a autora a ter que prestar declarações em tribunal. Numa carta redigida em conjunto com o autor E.M. Forster, Woolf escreveu sobre o caso: "Os escritores produzem literatura, e não podem produzir grande literatura enquanto não tiverem mentes livres. A mente livre tem acesso a todo o conhecimento e especulação da sua época, e nada a limita como um tabu."


Duas feministas “avant la lettre”


Embora as origens do movimento Feminista apontem para finais do século XIX, as ideias e modo de estar na arte e na vida de Woolf e Teixeira, colocam-nas, sem dúvida, em linha com os princípios fundamentais deste movimento. Numa altura em que Portugal ainda relegava a mulher ao papel de mãe e dona de casa, poucas eram as mulheres que ousavam escrever, sobretudo obras de conteúdo tão polémico quanto as de Judith Teixeira. Como se isso não fosse ousadia suficiente, também na sua vida pessoal a autora causou polémica ao divorciar-se em 1913, por alegado adultério e abandono do lar da sua parte, e voltar a casar-se no ano seguinte com um advogado oito anos mais novo.

Apontada pela autora brasileira Maria Lúcia dal Farra como o único nome feminino da vanguarda portuguesa, Teixeira, o espírito progressista e anticonvencional que um dia escreveu “na escultura, na música, na pintura, na literatura, estou sempre com as inovações”, está lenta mas seguramente a emergir do esquecimento a que foi devotada como uma das percursoras do pensamento feminista e queer em Portugal. Prova disso mesmo é a criação, em 2016, do Prémio de Poesia Judith Teixeira que distingue obras de poesia escritas em português, pelo município de Viseu.

Já Virginia Woolf foi a autora daquele que é hoje um dos mais influentes ensaios feministas do século XX. Um Quarto Só Seu, publicado em 1929, expõe e examina as desigualdades sentidas pelas escritoras e intelectuais do seu tempo comparativamente aos homens, ao mesmo tempo que reflete sobre o futuro das mulheres na educação e na sociedade; um feito que, para Simone de Beauvoir, escritora e feminista assumida, a colocava par a par com Emily Brontë e Katherine Mansfield.

Ensaio curto mas valiosíssimo, aborda ainda tópicos como a saúde mental feminina na sociedade patriarcal, algo com que a autora se debatia e que acabou por determinar o seu fim. Escreve Woolf: “qualquer mulher que nascesse com um grande talento no século XVI teria decerto enlouquecido, ter-se-ia matado com um tiro ou chegado ao fim da vida numa qualquer casinha isolada fora da aldeia, meio bruxa, meio feiticeira, temida e escarnecida (...) teria sido tão frustrada e tão impedida por outras pessoas, tão torturada e tão dilacerada pelos seus instintos contrários, que seguramente perderia a saúde e sanidade mental.” Ainda assim, recusou sempre que lhe fosse vedado alguma liberdade ou direito por causa do seu género, e inspirou milhares de mulheres que vieram depois de si a fazer o mesmo. 

Em jeito de conclusão desta reflexão sobre dois espíritos igualmente irreverentes e insubmissos, voltamos a Um Quarto Só Seu para relembrar as palavras desafiantes de Virginia: “Tranquem as vossas bibliotecas se quiserem; mas não há portão, não há cadeado, não há ferrolho com que possam prender a liberdade do meu espírito.” Se Judith Teixeira o tivesse lido, queremos acreditar que teria concordado.

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