Hoje, pelas 8 horas e meia da manhã, ocorreu o solstício de verão, o momento da sua viagem anual em que o planeta Terra se encontra mais próximo do Sol. Este dia, o mais longo do ano, inaugura oficialmente esta estação, uma das épocas em que mais espaço abrimos para a leitura — seja numa espreguiçadeira à sombra, numa viagem de comboio ou no conforto de casa.
Mas o que leem aqueles que passam grande parte do ano a escrever? Para descobrir, convidámos alguns escritores portugueses a partilharem connosco os livros que mal podem esperar por ler neste verão: que livros levam consigo, que autores querem finalmente descobrir, ou que reencontros literários não querem perder.
Desde explorações de cemitérios, viagens pela selva, e reflexões sobre o mundo contemporâneo, conheça as escolhas de Anabela Mota Ribeiro, Afonso Reis Cabral, Rafael Gallo, Filipa Fonseca e Silva, Maria Inês Almeida e Filipa Leal para o verão.
Vou começar o Verão com Portugal de Morte a Sul, de Rafaela Ferraz, criminologista de formação e "entusiasta de parafernálias funerárias". Eu visito cemitérios, interesso-me pela relação com a morte, e ritualização, em diferentes culturas. Três fascínios: Pompeia em Itália, Recoleta em Buenos Aires, Consolação em São Paulo, Prazeres em Lisboa (cemitérios que se chamam Consolação e Prazeres...), quero conhecer a Cidade dos Mortos no Egipto. Com o livro da Rafaela Ferraz, vou fazer um passeio em Portugal, olhar para relicários, ver "museus com esqueletos no armário".
Na Tua Mão, de Hélder Teixeira Aguiar. Além de a premissa da obra ser excelente, o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís tem um belo historial. Aguardo as férias para descobrir, com muito entusiasmo literário, o que acontece aos dois irmãos na sua odisseia pela selva.
Pretendo ler A Louca da Casa, de Rosa Montero. É um livro que se relaciona com o seu O perigo de estar no meu perfeito juízo, que já li e adorei. Ambos misturam autobiografia, ensaio e ficção, para falar sobre criatividade e loucura. Tudo com a sagacidade e o humor fino da autora. Imagino que eu vá adorar também.
Um dos livros que já está na minha lista para ler este verão é O Sétimo Juramento da Paulina Chiziane. Uma alegoria que aborda os choques entre o desejo de modernidade e as tradições ancestrais da magia e feitiçaria, tendo como pano de fundo as feridas sociais e a crise económica deixadas pela Guerra Civil de Moçambique.
Um dos livros que levo comigo nestas férias é Magnifica Humanitas, a encíclica com que o Papa Leão XIV inicia o seu pontificado. Interessa-me a reflexão que parece propor sobre o tempo em que vivemos, um mundo cada vez mais guiado por algoritmos, velocidade e eficiência. Parece-me uma leitura muito atual e estou curiosa para descobrir como o Papa propõe colocar a dignidade humana no centro deste debate.
Um dos livros que seguramente vou ler este verão é de Eduardo Halfon: Tarântula. Nem sempre me atrevo a ler vários livros seguidos do mesmo autor, julgo que evitando “a angústia da influência”, mas Halfon é irresistível e, apesar de não nos conhecermos, e de Eduardo ter nascido na Guatemala em 1971, sinto que temos uma enorme empatia. Comecei por ler Canción e fascinou-me absolutamente a sua ironia e a forma como consegue brincar com as questões da identidade e, ao mesmo tempo, sensibilizar-nos para o que pode ser uma “pessoa bombardeada”.
A seguir, li Luto, que é um livro mágico (no sentido literal, se isso for possível). Não esquecerei a imagem de um avô que, depois de estar sequestrado por guerrilheiros durante cerca de trinta dias, regressa a casa a voar. Tarântula, que comprei nesta Feira do Livro de Lisboa, é a leitura que se segue. Estou a guardá-lo, para não se gastar depressa (os livros de Eduardo Halfon são muito breves), mas já vi que começa com uma epígrafe de Alejandra Pizarnik, a poeta que irá também abrir o meu próximo livro: "Herdei dos meus antepassados a ânsia de fugir."