Há nomes que resistem ao tempo, talvez porque falem diretamente dele. Thomas Mann é um desses casos: escreveu sobre decadência, beleza, poder e colapso moral numa Europa que ainda não sabia bem o que se aproximava, e a sua obra continua a ser um espelho fascinante do que significa ser-se humano, numa sociedade à beira do abismo.
Nascido em Lübeck em 1875, publicou o seu primeiro romance em 1901 e nunca mais parou. A Morte em Veneza, A Montanha Mágica, Doutor Fausto: uma obra vasta que lhe valeu, entre outros, o Prémio Nobel da Literatura em 1929. Quando Hitler subiu ao poder, não ficou em silêncio: já se havia posicionado publicamente contra o nazismo, pagando com o exílio, a perda da cidadania alemã e a apreensão de parte do seu património. Morreu em Zurique em 1955, aos oitenta anos.
É precisamente pela data do seu falecimento ser em 1955 que a obra de Thomas Mann entra agora em domínio público: na Europa, a proteção dos direitos de autor caduca 70 anos após a morte do autor, o que significa que, desde 1 de janeiro de 2026, qualquer editora pode publicar os seus títulos sem autorização ou pagamento de royalties. O resultado são novas edições, novas traduções e novos leitores.
Hoje, no mês do seu aniversário, destacamos algumas das recentes reedições da obra deste autor essencial.
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Bertrand Editora
Abril 2026
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Um escritor consagrado viaja a Veneza em busca de descanso e fica preso numa obsessão. Tadzio, um jovem de beleza perturbadora, torna-se o centro de um fascínio que vai consumindo o protagonista, enquanto uma epidemia de cólera se alastra pela cidade e ele se recusa a partir. Publicada em 1912, esta novela é uma das obras mais perfeitas de Mann: densa, elegante e implacável.
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Livros do Brasil
Março 2026
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O romance de estreia de Thomas Mann, publicado em 1901, narra a ascensão e o declínio de quatro gerações de uma família de comerciantes do norte da Alemanha, num retrato da burguesia que bebeu muito da própria história familiar do autor. Foi este livro que lhe valeu o Nobel, e continua a ser uma porta de entrada perfeita para o universo "manniano".
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Dom Quixote
Abril 2026
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Escrito no exílio americano, Doutor Fausto é uma alegoria da Alemanha hitlerista: um compositor faz um pacto com o diabo, e Mann usa essa premissa para fazer um acerto de contas com um país que renunciou à própria humanidade. O mais sombrio e ambicioso dos romances do autor, e talvez o mais urgente.
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Dom Quixote
Janeiro 2026
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Uma família alemã em férias num balneário italiano dos anos 1920 assiste, impotente, ao espetáculo de Cavaliere Cipolla, um hipnotizador capaz de manipular e humilhar o público apenas com a força da sua vontade, num poder sobre as massas comparável ao dos ditadores. Uma novela curta, intensa e perturbadoramente atual.
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Livros do Brasil
Janeiro 2026
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Esta edição coincide com o centenário da primeira publicação da obra e é a primeira vez que esta novela de Mann é publicada isoladamente em Portugal. Um retrato íntimo do caos doméstico e sentimental numa Alemanha ainda a recuperar da guerra, com toda a ironia e precisão psicológica que caracterizam o melhor de Mann.
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Relógio D'Água
Maio 2026
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O último romance de Mann é também o mais descontraído: Felix Krull é um impostor e aventureiro que escapa ao serviço militar e sobe na vida através do charme e da fraude, numa autobiografia ficcional que Mann trabalhou durante décadas. Mais leve, mas não menos brilhante.
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Relógio D'Água
Março 2026
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Reunindo textos escritos entre 1922 e 1951, este volume percorre o pensamento de Mann sobre a relação entre arte e sociedade, o legado de Goethe, Schopenhauer, Wagner e Nietzsche, a crise da cultura europeia e a responsabilidade do escritor perante a história. Para quem quer perceber o homem por detrás dos romances.
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Curiosidade:
Mann escreveu A Morte em Veneza inspirado numa viagem real a Veneza, em 1911, durante a qual ficou obcecado com um rapaz polaco que viu na praia. O rapaz existiu de verdade, chamava-se Wladyslaw Moes, viveu até 1986 e sabia que tinha inspirado o personagem.