Pedro Abrunhosa: "Eu vivo numa angústia de livros"

Por: Bertrand Livreiros a 2020-02-20 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

José Saramago

José Saramago

Prémio Nobel de Literatura, 1998

Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou postumamente, a 16 de novembro de 2021, José Saramago com o grande-colar da Ordem de Camões, pelos "serviços únicos prestados à cultura e à língua portuguesas", no arranque das comemorações do centenário do nascimento do escritor.

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Jorge Amado

Jorge Amado

Jorge Amado nasceu em Pirangi, Baía, em 1912 e faleceu a 6 de agosto de 2001. Viveu uma adolescência agitada, primeiro, na Baía, no início dos seus estudos, depois no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e começou a dedicar-se ao jornalismo. Em 1935 já se tinha estreado como romancista com O País do Carnaval (1931), Cacau (1933), Suor (1934), seguindo-se Terras do Sem Fim (1943) e S. Jorge dos Ilhéus (1944). Politicamente de esquerda, foi obrigado a emigrar, passando por Buenos Aires, onde escreveu O Cavaleiro da Esperança (1942), biografia de Carlos Prestes, depois pela França, pela União Soviética... regressando entretanto ao Brasil depois de ter estado na Ásia e no Médio Oriente. Em 1951 recebeu o Prémio Estaline, com a designação de "Prémio Internacional da Paz". Os problemas sociais orientam a sua obra, mas o seu talento de escritor afirma-se numa linguagem rica de elementos populares e folclóricos e de grande conteúdo humano, o que vai superar a vertente política. A sua obra tem toques de picaresco, sem perder a essência crítica e a poética. Além das já citadas, referimos, na sua vasta produção: Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), Seara Vermelha (1946), Os Subterrâneos da Liberdade (1952). Mas é com Gabriela, Cravo e Canela (1958), Os Velhos Marinheiros (1961), Os Pastores da Noite (1964) e Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966) em que o romancista põe de parte a faceta politizante inicial e se volta para temas como a infância, a música, o misticismo popular, a turbulência popular e a vagabundagem, numa linguagem de sabor poético, humorista, renovada com recursos da tradição clássica ligados aos processos da novela picaresca. O seu sentimento humano e o amor à terra natal inspiram textos onde é evidente a beleza da paisagem, a tradição cultural e popular, os problemas humanos e sociais - uma infância abandonada e culpada de delitos, o cais com as suas misérias, a vida difícil do negro da cidade, a seca, o cangaço, o trabalhador explorado da cidade e do campo, o "coronelismo" feudal latifundiário perpassam significativamente na obra deste romancista dos maiores do Brasil e dos mais conhecidos no mundo. Fecundo contador de histórias regionais, Jorge Amado definiu-se, um dia, "apenas um baiano romântico, contador de histórias". "Definição justa, pois resume o carácter do romancista voltado para exemplos de atitudes vitais: românticas e sensuais... a que, uma vez por outra, empresta matizes políticos...", como diz Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira. Foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1994.

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Peter Sloterdijk

Peter Sloterdijk

Peter Sloterdijk (Karlsruhe, 26 de junho de 1947) é um filósofo alemão. Estudou Filosofia, Germanística e História em Munique e Hamburgo.
Desde a publicação de Crítica da razão cínica (Kritik der zynischen Vernunft, 1983) é considerado um dos maiores renovadores da filosofia atual.
Em 2004 encerrou sua trilogia Esferas (Sphären), cujos primeiros volumes haviam sido publicados em 1998 e 1999.
Interessado nos media, dirigiu e apresentou com Rüdiger Safranski o Quarteto filosófico (Das philosophische Quartett), programa cultural da cadeia de televisão estatal alemã ZDF, isso até 13 de maio de 2012. O programa havia durado praticamente dez anos.

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Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

Escritor português natural da Ilha Terceira, nos Açores (1901-1978), foi professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Colaborou na revista Presença e dirigiu a Revista de Portugal. Poeta, ficcionista, ensaísta, cronista, crítico literário, recebeu o Prémio Nacional de Literatura em 1966. De entre as suas obras, são de destacar Festa Redonda (1950), Nem Toda a Noite a Vida (1952), O Pão e a Culpa (1955), O Verbo e a Morte (1959), O Cavalo Encantado (1963), Canto da Véspera (1966), Sapateia Açoriana (1976) e ainda o romance Mau Tempo no Canal (1944).

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António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu, durante vários anos, a profissão de médico psiquiatra. Em 1970 foi mobilizado para o serviço militar. Embarcou para Angola no ano seguinte, tendo regressado em 1973. Em 1979 publicou os seus primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, seguindo-se, em 1980, Conhecimento do Inferno. Estes primeiros livros transformaram-no imediatamente num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos no âmbito nacional e internacional. Todo o seu trabalho literário tem sido, ao longo dos anos, objeto dos mais diversos estudos, académicos ou não, e dos mais importantes prémios, nacionais e internacionais, entre os quais se contam o Prémio Juan Rulfo, 2008, Prémio Camões, 2007, Prémio Jerusalém, 2005, Prémio Ovidio, 2003 e Prémio Europeu de Literatura, 2001. A obra de António Lobo Antunes encontra-se traduzida em inúmeros países e recentemente foi anunciada a sua edição na prestigiosa coleção Pléiade.

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Luís de Camões

Luís de Camões

Poeta português (1524-1580) por excelência e um dos grandes nomes da literatura europeia do Renascimento. Pouco ou nada se sabe sobre a sua família, infância e juventude. Terá sido educado nas formas de cultura clássicas e também na literatura moderna, o que se depreende da sua posterior produção literária. Soldado, aventureiro, mulherengo apaixonado, Camões esteve em África e no Oriente português. Envolveu-se em polémicas e com mulheres casadas, esteve preso por diversas vezes e produziu uma das mais importantes obras literárias no quadro da literatura europeia da época. «Os Lusíadas» é uma das obras mais traduzidas da literatura portuguesa e reconhecida como uma das mais poderosas e brilhantes epopeias da literatura do renascimento europeu. A sua lírica e teatro são igualmente notáveis e invulgares, e as cartas um testemunho histórico valiosíssimo.

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Robert Louis Stevenson

Robert Louis Stevenson

Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo a 13 de novembro de 1850. Cursou Direito - sem que alguma vez tenha chegado a advogar - e, pouco depois, apaixona-se por Fanny Osbourne com quem, apesar das diversas atribulações por que passaram, se viria casar. Anos mais tarde contrai tuberculose e muda-se com a mulher e o enteado para a Suíça, onde vive durante um ano. Regressa à Escócia mas o clima só prejudica ainda mais a sua saúde, obrigando-o a mudar-se novamente, desta vez para o Sul de França. Os anos seguintes foram passados à procura de um clima que não agravasse a sua doença, até que finalmente, em 1892, se fixou com a família em Samoa. Foi aí que morreu no dia 3 de dezembro de 1894, vítima de uma hemorragia cerebral. Foi autor, entre outros, de O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, e de A Ilha do Tesouro, que o imortalizaram.

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Jorge de Sena

Jorge de Sena

Jorge de Sena nasceu em Lisboa a 2 de novembro de 1919 e morreu em Santa Bárbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978. Licenciado em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia do Porto, parte para o exílio no Brasil em 1959 e aí doutora-se em Letras e torna-se regente das cadeiras de Teoria da Literatura e de Literatura Portuguesa. Muda-se para os Estados Unidos da América em 1965, lecionando na Universidade de Wisconsin e, anos depois, na Universidade da Califórnia. Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e tradutor, é considerado um dos mais relevantes escritores de língua portuguesa do século XX, autor de títulos como Metamorfoses (1963), Os Grão-Capitães (1976), O Físico Prodigioso (1977) e Sinais de Fogo (1979), este último considerado a sua obra-prima.

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Recebemo-lo numa tarde chuvosa para uma conversa à volta dos livros*. A livraria, que apelida de "uma espécie de corrente sanguínea", já habituada às suas visitas, encheu para o ouvir falar. Leitor ávido, desde criança, estabelece logo no início o tom da paixão que lhe corre nas veias: "as livrarias representam para mim um certo pulsar de uma alma que não vai desaparecer." E foi essa paixão que nos prendeu, durante pouco mais de uma hora, às histórias partilhadas, ao amor confesso pelos livros, à avassaladora cultura geral que partilha connosco como se estivéssemos em família. Ouvi-lo falar de livros é também uma espécie de música.

 

* Pedro Abrunhosa foi o convidado da sessão Palavra de Escritor, que decorreu dia 30 de janeiro, na Livraria Bertrand da Rua da Fábrica, no Porto. A conversa foi conduzida pelo jornalista Sérgio Almeida.

 


 

Sérgio Almeida (SA): Em que sentido é que achas que, neste mundo cada vez mais desmaterializado, em que as compras online galgam terreno, as livrarias de rua continuam a ter um espaço insubstituível?

Pedro Abrunhosa (PA): Neste panorama cinzento, que se transforma num colorido de fachadas muito giro, as livrarias representam, para mim, um certo pulsar de uma alma que não vai desaparecer - ou que não se pretende que desapareça. Quando uma livraria fecha – e fecharam muitas livrarias de rua – quando uma livraria fecha… Há uns anos, havia a Bertrand da 31 de Janeiro, que se dividia em duas: era a Bertrand de cima e a Bertrand de baixo, e eram espaçadas por 20 metros. (…) A Bertrand era o sítio onde a minha família tinha conta. Quando queríamos um livro, tínhamos carta branca para ir comprar o que quiséssemos, à Bertrand de cima ou à de baixo. E, claro, eu comprava o que queria ler, e a senhora perguntava: “É para pôr na conta?”. “É para debitar?”, dizia ela. E eu não sabia o que é que era debitar, mas sabia que saía sem pagar e dizia sempre que sim. (risos) Claro que aquele debitar significava que a minha mãe depois passava lá e pagava, como é óbvio. Portanto, eu cresci com essa cumplicidade com os livros. Quando uma livraria fecha é assim uma espécie de dor que fica. Eu lembro-me, quando a Bertrand da 31 de Janeiro fechou, foi uma parte do meu passado que se perdeu. Eu vivo numa angústia de livros… estamos aqui rodeados de livros, e se vivêssemos dez vidas, não conseguíamos ler o que aqui está, e isto não é nada do que existe, não é? Portanto, a livraria é uma espécie de corrente sanguínea. 

 

SA: Mas achas que devia haver uma proteção especial para as livrarias de rua?

PA: Acho que a livraria cumpre um papel fundamental de pólo cultural – aliás, estamos aqui perante isso –, de identidade da cidade, de pulsar – da cultura, naturalmente –, de história. (…) Aliás, isso existe, na verdade, para as bocas-de-incêndio; não sei porque é que não há de existir para as livrarias: a cada X quarteirões, uma livraria. 

 

SA: Neste mundo concorrencial e, cada vez mais dado à desmaterialização, qual é que achas que deve ser a mais-valia das livrarias para convencer as pessoas a cá vir? É o atendimento, o lado humano?

PA: As pessoas que aqui estão, conhecem-me… Eu entro, dou uma volta e vou ali àquela estante naquela parede (aponta para a estante) que é de História e Filosofia e depois à de Ciências. E fico ali. Às vezes, é o atendimento; outras, é o espaço em que estás com os livros, podes pegar neles. É diferente de uma biblioteca. Quantas vezes sou seduzido pelo conteúdo só porque leio umas páginas… Não é preciso ler-se um livro todo para perceber se vale a pena. É como perguntarem-me se eu preciso de comer o bolo de chocolate todo para perceber se estava bom. Não é preciso; às vezes basta passar o dedo. E o livro é assim. A literatura, a grande ficção, a grande poesia – não é preciso ler-se tudo, para se perceber se é bom. Portanto, eu não perco muito tempo a decidir. 

 

Pedro Abrunhosa na sessão Palavra de Escritor Pedro Abrunhosa na sessão 'Palavra de Escritor

 

SA: Mas só para rematar…

PA: A arte não é para agradar, é para arrebatar, é para te levar para um outro sítio diferente. A arte é um ato profundo de “Eu quero estar noutro lugar”. E, de repente, quando voltas para esta dimensão apetece-te regressar àquela. E é por isso que ler é um ato cíclico e vicioso. 

 

SA: Ao lermos um livro estamos a recusar todos os outros, não é?

PA: Claro! Essa é que é a grande questão. Temos de fazer escolhas e as escolhas têm de ser aconselhadas, nalguns casos. A crítica ajuda a descobrir novos livros, novos caminhos, novos rumos. No caso dos ensaios, por exemplo, isso é fundamental. Nós temos alguns dos filósofos mais interessantes da contemporaneidade. Há um filósofo alemão, Peter Sloterdijk, cuja leitura aconselho: fala sobre antropotécnica e sobre o Homem no centro das coisas, substituído pela técnica… Esses livros são descobertos por aconselhamento. (…) 

O aparelho crítico que nós somos, apura-se com a leitura de muitas coisas, é verdade, mas sobretudo através do que lemos na infância e na adolescência… Se perguntares o que é que mais me marcou, dir-te-ei, sem dúvida, que foi o Walter Scott, foi o Daniel Defoe, com A Ilha do Tesouro, com o Robinson Crusoe… portanto, foi literatura infantojuvenil.

 

SA: Mas foram os teus pais que te conduziram até lá ou deram-te espaço de descoberta? Sempre tiveste muitos livros em casa, os teus pais eram grandes leitores… Mas a chegada até esses livros em concreto como é que se deu?

PA: Esses são óbvios, esses são livros lidos em casa… Os pais, esta coisa da repetição do padrão sociológico. Um filho que vê o pai bater na mulher tem mais probabilidades de ele próprio vir a infligir…porque aquilo é legitimado. A leitura também legitima! Esta repetição do padrão sociológico é difícil de interromper. A violência doméstica é difícil de interromper porque é um dado cultural que se apreende pelo exemplo paternal ou maternal. E, portanto, a leitura também. Para mim ler era um ato banal, normal, de curiosidade, mas o meu pai incentivava e a minha mãe também. E, portanto, os grandes clássicos, esses – As Mil e Uma Noites… Eu acho que ler As Mil e Uma Noites é uma experiência absolutamente fabulosa. Depois, comecei a ler Jorge Amado, muito cedo, com 12 anos. Capitães da Areia foi dos primeiros livros que eu li assim mais consistentes, da literatura mais séria. Fiquei fascinado com Jorge Amado, comecei a ler o Jorge Amado todo e depois passei para o Victor Hugo, que tem uma componente histórica que me fascina e eu tinha um bocado uma obsessão de ler a obra toda, então, li Victor Hugo todo, mas não me arrependo, não me arrependo. O Tolstoi, o Dostoievski, que é um processo… Estou a falar cronologicamente. É um processo muito difícil; Tolstoi assim, eventualmente, mais empático, Doistoievski mais hermético… Esse processo foi todo desenvolvido na adolescência (…) Eu acho que é, de facto, importante que se passe esse instinto, essa vontade, aos nossos filhos, por muito que toda a atmosfera à volta diga o contrário.

 

SA: Falando ainda dos teus livros da adolescência: algum deles era livro proibido? Foram leituras não vigiadas, escondias dos teus pais por serem livros considerados perniciosos?

PA: Não, na minha casa não havia livros proibidos para nós. E se calhar todos os livros em casa eram proibidos, percebes? Porque eu nasci ainda debaixo do regime salazarista, portanto havia muita coisa que era matéria proibida. A biblioteca estava aberta. Lembro-me uma vez em que o meu pai trouxe uns livros sobre Auschwitz - eu devia ter uns 12 anos - e deixou os livros em cima da mesa de propósito, uns livros super agressivos de fotografias. Aqueles livros eram uma espécie de…atração pelo abismo. E depois o meu pai explicou-nos o que é que tinha sido o Holocausto. Aos 12 anos, ver aquelas imagens de Auschwitz, das crianças a serem levadas para as câmaras de gás… Eu nunca mais esqueci isso, nunca mais esqueci, e depois fui a Auschwitz em 1987. Nunca mais esqueci esse papel de chicote que o livro como objeto pode ter.

 

"Eu vivo numa angústia de livros… estamos aqui rodeados de livros, e se vivêssemos dez vidas, não conseguíamos ler o que aqui está, e isto não é nada do que existe, não é? Portanto, a livraria é uma espécie de corrente sanguínea."

 

SA: E provavelmente leste depois também o Primo Levi, Se Isto é um Homem

PA: Do Primo Levi li, enfim, o que havia disponível na altura. E toda a literatura de guerra e pós-guerra, de alguma forma… Aliás, o próprio Thomas Mann, que é uma figura muito interessante do panorama europeu - se leres Os Budden Brook e a própria Montanha Mágica, percebes que há ali um percurso que tinha de desaguar na Segunda Guerra Mundial. Há uma perspetiva da Segunda Guerra Mundial que se consegue perceber – e da Primeira, claro – da leitura de um grande autor alemão, dali do centro de onde a grande cultura europeia emergiu. Um país de onde vem um Thomas Mann, um país de onde vem um Göethe, um Beethoven, é o país que comete aquela atrocidade. 

 

SA: Falaste agora de Thomas Mann. Achas que a grande literatura consegue não só captar o espírito dos tempos, mas também, talvez, anunciar ou perspetivar, ainda que nas entrelinhas, o que poderá vir? É esse um dos grandes poderes da literatura?

PA: Eu acho que a literatura não aponta caminhos. A arte não é conselheira, não está a dar conselhos…

 

SA: Toda ela é liberdade, não é?

PA: Mas é premonitória de alguma forma, porque é sempre visionária; a arte é sempre visionária. (…) Existe uma certa premonição na obra de arte, que pode, de alguma maneira, indiciar o lugar estético onde se estará (…) É um caminho de reencontro e de pacificação e de esperança; e se nós não encontramos esperança na arte não sei onde é que a poderemos encontrar.

 

SA: Voltemos à tua adolescência, Pedro. Já na altura eras grande leitor. Como é que o leitor livre que tu eras reagiu à obrigatoriedade de ler determinados livros, sob uma perspetiva não do encantamento mas de dissecar, quase, os livros? Isso foi custoso? Lembras-te desses tempos?

PA: Eu acho que a experiência será diferente para cada um de nós. Todos nós fomos obrigados a ler Os Lusíadas. Depende do professor que tivemos, essa é que é a grande questão. Não tive professores que tivessem propriamente ajudado muito a manter o mistério da coisa. Mas tive uma professora que me abriu as portas da grande literatura e me ensinou a ler de outra maneira, eu percebi não a contar os versos… Por acaso, ainda ontem, curiosamente, estive com uma edição fac-similada d’Os Lusíadas e abri… Abrir Os Lusíadas e tentar ler o que lá está impresso é uma experiência fantástica! A leitura d’Os Lusíadas tem um ritmo que não acaba de verso para verso, e é brutal toda a lírica do Camões, a estrutura, as sextinas… É lindíssimo, mas é preciso que os professores nos ensinem também a ver o lado misterioso da coisa, o lado artístico, o lado emocional, não o lado técnico. E o problema do ensino, creio eu, pelo menos de alguns professoras ou de algumas formas de ensino, é percebermos o romance. Por exemplo, no caso do Eça de Queiroz, Os Maias: Cria urticária nas pessoas. E eu pergunto-me porquê. Mas também todos sabemos a resposta: porque nas perguntas que são feitas, sobre o Eça, é preciso lê-lo de um ponto de vista quase técnico. 

 

SA: Mas há algum autor que tenhas dado na escola a que só tenhas voltado anos mais tarde, quiçá, traumatizado?

PA: O Camões é um exemplo. Eu vou ser muito sincero: eu descobri o Camões a sério depois de descobrir o Shakespeare. Porque existe uma lacuna na dramaturgia portuguesa, o teatro português tem uma lacuna. Nós temos uma dramaturgia pobre. O que também explica uma pobre dramaturgia no cinema: os diálogos são fracos porque não há uma prática da dramaturgia. Há uma dramaturgia seminal com o Gil Vicente, depois há assim uns epifenómenos, há o Almeida Garrett, com o famoso Frei Luís de Sousa, a que provavelmente nenhum de nós consegue voltar sem vencer o trauma…

 

SA: Mas achas que a dramaturgia está a mudar nas últimas décadas?

PA: Acho que sim. Esta ausência de dramaturgia leva a que grandes produções televisivas tenham revelado o Shakespeare. Uma coisa é uma encenação e outra coisa é uma transposição para o ecrã. Eu descobri Shakespeare via fonética. Porque ouvir Shakespeare, ouvir a declamação dos autores da Royal Shakesperean Company, pode ser Romeu e Julieta, pode ser A Tempestade, pode ser Ricardo III… A cacofonia, as aliterações, a melodia das palavras… "When to the sweet sessions of silent thought / I summon up remembrance of things past, / I sigh the lack of many things thought, / And with old woes new wail my dear time’s waste”. Ouves isto e pensas: isto é um soneto. Quem é que em Portugal escrevia assim nesta altura? Camões. E vais ler Camões e tens um deslumbramento. Portanto, descobri Camões aos 30 anos, deslumbrado com a fonética, com a aliteração… É a mesma coisa que Shakespeare fazia e, às vezes, até melhor. Melhor porque é português! Estás a perceber?

 

Pedro Abrunhosa na sessão 'Palavra de Escritor' Pedro Abrunhosa na sessão 'Palavra de Escritor'

 

SA: Ao contrário do teatro, a poesia tem fortíssimas tradições em Portugal, através de séculos. Acho que era o Eugénio que dizia que é na poesia que se manifesta a mais elevada expressão do génio literário português. Corroboras? 

PA: Absolutamente. Acho que a poesia e a ficção, também. O Memorial do Convento é um livro que põe Portugal no século XXI! Existe um antes e um depois d’O Memorial do Convento. O Memorial do Convento lança Portugal no século XXI, do ponto de vista estético. O século XX português acaba com O Memorial do Convento. Aliás, ele nem sequer começa em 1900, ele começa ali, grosso modo, a seguir, em 1916. O surrealismo é tardio e, depois, O Memorial do Convento, do ponto de vista estético, anuncia o novo ano, o novo milénio, até. Como é que existem miúdos do liceu com O Memorial do Convento em resumos? E é aquilo que eles estudam! Eu não sei o que é que se pergunta! Também nunca tive curiosidade de pegar num resumo e de perceber o que é que se pergunta d’O Memorial do Convento ou d’Os Maias. Quando os miúdos têm um resumo assim é porque se perguntam coisas muito específicas. Mas onde é que está a magia e a emocionalidade daquele abraço, daquela relação entre Baltazar e Blimunda, daquela passarola, que voa. Sinceramente, eu quando cheguei ao fim d’O Memorial, até a meio d’O Memorial do Convento, eu estava a dizer: será que a passarola voa mesmo? É a grande literatura fantástica, é a grande literatura sul-americana, é o Cortázar, o García Márquez, onde o tempo não é tempo, onde as pessoas têm 300 anos… E tu lês aquilo e achas que é legítimo! E é isto, a literatura é isto. A poesia, em Portugal, é uma das grandes tradições que vêm do grande trovadorismo, que é alicerçado na música e numa cultura clássica, digamos assim, porque a poesia, ela própria deriva de uma elasticidade, se quiseres, de uma grande tradição helénica, romano-helénica. E, portanto, sempre houve na zona Sul da Europa – Itália, Provença, França, Sul de Espanha e Portugal – uma grande tradição da poesia lírica trovadoresca muito popular. E com grande sucesso europeu. (…) 

 

SA: Mas achas que o século XX foi o século de ouro da poesia portuguesa?

PA: Aliás, há um livro que é O Século de Ouro da Poesia Portuguesa

 

Existe uma certa premonição na obra de arte, que pode, de alguma maneira, indiciar o lugar estético onde se estará (…) É um caminho de reencontro e de pacificação e de esperança; e se nós não encontramos esperança na arte não sei onde é que a poderemos encontrar.

 

SA: Mas também não é a proximidade que nos faz…?

PA: Claro! É um achatamento cultural. Há uma evolução histórica da poesia em Portugal que é alicerçada e fundamentada… Ela própria assenta no seu passado. Só se explica o poema que está presente nessa coletânea - que é Em Creta, com o Minotauro, sabes qual é? -, do Jorge de Sena, com a grande tradição. É isso que falta na dramaturgia portuguesa, é exatamente isso – e que a ficção também tem… os grandes romances axiomáticos, para mim, do século XX, são O Memorial do Convento, O Esplendor de Portugal, de Lobo Antunes, o Mau Tempo no Canal, do Nemésio e o Sinais de Fogo. Há muitos outros, há sempre uma injustiça em excluir… Mas na poesia é mais difícil… O Daniel Faria, a Maria do Rosário Pedreira, o Jorge de Sousa Braga. Há uma geração que exporta a palavra de uma forma absolutamente… Aquilo que eu encontro na poesia é, como dizia o Óscar Lopes sobre o Eugénio de Andrade, "uma espécie de música". Mas não há nada que seja mais volátil do que a poesia, porque a poesia é, como a música, uma coisa diferente para cada um de nós. É uma sensação! A poesia não se traduz.

 

SA: Mas tu gostas de descobrir autores? Tens essa febre da novidade, de descobrir autores? Na poesia e não só… 

PA: Estou numa fase de muito ensaio. Mas os autores, aqueles que a poesia me traz, são aqueles que eu vejo nas estantes e de que gosto e que levo; não preciso da sanção de ninguém. Por isso é que esta coisa de ter os livros aqui é fundamental para cada um de nós construir o seu próprio espólio interior. Quando se discute poesia ou ficção, ou seja o que for, já se está num nível tal de evolução humana que não estamos a discutir as questões do Instagram, estás a perceber? Quem me dera que o Instagram discutisse poesia, era maravilhoso! “Olha, eu li Ezra Pound!”, “Ah, eu prefiro Walt Whitman.” (risos).

 

SA: Mas curiosamente as redes sociais têm contribuído muito para a dinamização de excertos de poesia. 

PA: Têm. Eu estou a brincar, há fantásticos pequenos… Não sei como se chama, sites de Instagram…de poesia, que vale a pena seguir. E às vezes é através deles que eu descubro. Mas as redes sociais também podem fazer isso. 

 

SA: É curioso isso que disseste acerca dos ensaios, porque acho que é uma tendência. Há uma grande subida na venda dos ensaios, e curiosamente a ficção tem decaído, não só em Portugal mas no mundo. E uma das teorias, dos editores com quem eu falei, é que as pessoas têm vindo a substituir a necessidade de ficção pelas séries, pela Netflix. Achas que o nosso gosto pelas histórias estará em risco?

PA: Pode ser uma resposta, digamos, sociológica, que pode ser plausível e pertinente. No meu caso, eu procuro alguma explicação para o momento conturbado… Nós estamos no olho do furacão de um grande movimento que é forçosamente um movimento político; é uma revolução industrial; porque ela mexe com mobilidade, mexe com os meios energéticos, mexe com os produtos culturais. É isso que define uma revolução industrial. Estas transformações tecnológicas implicam sempre transformações humanas, políticas, sociais, etc. Nós estamos no olho do furacão dessa mudança. 

 

SA: Mas achas que nunca houve tantas transformações num tão curto espaço de tempo…?

PA: Mais uma vez, é uma forma achatada de ver o tempo. Porque a história tem essa tendência, de desatarmos a exacerbar e dizermos que nunca aconteceu. O que nunca aconteceu foi uma transformação, ao nível da passagem da informação, tão rápida. No caso, por exemplo, dos Descobrimentos … quem somos nós para dizer que estamos a mudar o mundo de uma forma mais avassaladora do que mudou todo o período quinhentista, e depois seiscentista, etc.? Não sei se nós podemos dizer e simplificar as coisas assim. Mas o que é certo é que esta revolução digital, que transporta tudo para o imediato, tem pelo menos essa característica nefasta, da recompensa do imediato. As pessoas procuram a recompensa do imediato!

 

SA: E está a mudar a nossa perceção das coisas. Em que sentido é que achas que essa sensação de emergência, cheia de alertas noticiosos e notificações, está a invadir o espaço que também é o do recolhimento, da leitura?

PA: A questão é que nas redes sociais nós estamos vivemos a frivolidade do momento, a recompensa do momento. Nós somos turistas nas vidas dos outros. (…) Essa ausência de empatia com a experiência leva a que também a tragédia dos outros não seja uma coisa empática. Porque é uma coisa imediata e até sou capaz de pôr lá um like por empatia. É a não vivência das coisas. Isso que estás a dizer do tempo interior é o tempo interior para tudo! Para a família, para estar a ver um quadro, para si, para parar, para ler, para contemplar. 

Opinião dos leitores

Ler é como respirar
Susana Morais | 01-03-2020
Entrevista muito elucidativa sobre os livros e as livrarias. Por muito que o mundo evolua, espero que nunca as livrarias, nem os livros passem só a digital/online. O Mundo perderá um tesouro enorme. E como percebo o Pedro Abrunhosa na sua "angústia de livros". Assusta-me, incomoda-me saber que não vou conseguir ler tudo o que gostaria!
MUITO OBRIGADA PELA EXCELENTE MENSAGEM!
Manuela Dias | 01-03-2020
Artigo extraordinário. Só conhecia o Pedro Abrunhosa como cantor. Mesmo assim, já compreendia que as letras das suas melodias eram fruto de alguém com uma enorme bagagem cultural. Não me enganei. Dá gosto perceber a relação visceral que o liga à Literatura portuguesa e internacional. Dá gosto, em plena Era das tecnologias, ver a apologia que faz às livrarias físicas, ao aroma do contacto com os livros, essa experiência que só entende quem os ama de verdade! Por último, o subtil mas importantíssimo alerta que aqui deixa: os alunos não têm qualquer prazer na leitura talvez porque não lhe encontram Magia, não lhe encontram Beleza! Só regras a fixar (como numa aula de Matemática), só tecnicismo. A palavra vai tão, mas tão para além dessa pobre e triste interpretação. Não admira que haja, cada vez menos, " livrolicos". Adorei as suas respostas. A minha admiração pelo Pedro é ainda maior! Brinde-nos com mais entrevistas como estas! Por favor! Manuela Dias.
opinião
Vânia Claudia Spoti Caran | 23-02-2020
Bela entrevista !
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O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?


O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.