Para Filipa Leal, mais do que uma forma de dizer, a poesia é “a melhor forma de ouvir alguma coisa” — por isso, a Humanidade tem muito a aprender com os poetas. Nasceu no Porto, em 1979, e desde que aprendeu a escrever, a escrita tem sido a sua única certeza absoluta. Escreve poesia, contos, argumentos para cinema e teatro, e está editada em Espanha, em França, na Polónia, no Luxemburgo, na Colômbia e no Brasil. Das suas obras mais recentes, fazem parte o conto O Vestido de Noiva (Relógio d’Água, 2024), e o livro de poesia Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano (Assírio & Alvim, 2019), obra finalista do Prémio Correntes d’Escritas e semifinalista do Prémio Oceanos, juntamente com Vem à Quinta-Feira (Assírio & Alvim, 2016).
À data desta entrevista, prepara-se para lançar um novo livro de poesia com a editora Assírio & Alvim, em setembro de 2024. Afinal, como escreve o argentino Jorge Luis Borges: “Quem é poeta, é-o sempre, e vê-se assaltado pela poesia continuamente.” É sobre esse assalto permanente, da poesia, da beleza, da amizade e do amor, de que nos fala.
Em criança, sonhou ser cientista, palhaço e escritora. Se a Filipa criança a visse hoje, sentir-se-ia realizada?
Ser escritora foi o que mais desejei sempre, era a minha única certeza. Tudo o resto talvez fossem extras da imaginação. Mesmo se tivesse sido cientista, ou humorista, nunca teria deixado de ser escritora. Mas a criança que fui deve ter confundido o campo das ciências (ou do humor) com o da intriga humana. Eu e os meus primos brincávamos aos detetives. Fazíamos mapas e andávamos pelo campo de bicicleta à procura de pistas, com as mochilas cheias de brinquedos inúteis: cordas de saltar, por exemplo. Mesmo se tivesse sido cientista, ou humorista, ou detetive, nunca teria deixado de ser escritora. Afinal, bastou-me ser escritora. A ideia de descobrir coisas, ou de desvendar mistérios, não é muito distante da experiência da escrita. Descobre-se muita coisa só com uma caneta e um papel. Mesmo quando o mistério somos nós.
Nesse tempo propício à poesia e à liberdade que é a infância, que livros a marcaram?
Foram muitos, mas nunca esquecerei A Beatriz e o Plátano, da Ilse Losa. Foi o primeiro livro que tive com uma dedicatória para mim. Talvez a autora tivesse ido à escola onde a minha mãe dava aulas, não me lembro. Eu devia ter 11 anos e acho que nunca tinha pensado que os escritores podiam estar vivos. E que aquela “Filipa” na dedicatória podia mesmo ser eu. Foi uma grande surpresa. Além disso, a história de coragem daquela menina que salva uma árvore é muito inspiradora para uma criança. Já perdi alguns livros em várias mudanças de casa, e de vida, mas não esse.
Embora escreva que “o ideal para um poeta é estar desempregado”, acabou por se formar em Jornalismo, porventura, por viver num país onde viver apenas do ofício de poeta não é um objetivo realista. Na sociedade em que vivemos atualmente, em que o valor de um indivíduo se mede pela sua capacidade de produzir, chegará o dia, anunciado por Manuel António Pina, em que “a poesia vai acabar” e “os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis"?
A poesia nunca vai acabar. Muito menos a do Manuel António Pina... Quando escrevi um manifesto a defender que os poetas não servem para nada [Pelos leitores de Poesia, ed. Abysmo, 2015], estava a brincar. Eu sou, assumidamente, uma leitora de poesia. E posso garantir que os poetas só não serão úteis a alguém que nunca tenha amado, perdido, desejado, ou partido o coração.
Perante o atual estado do mundo, fazer poesia é um ato de resistência. No poema "Europa — segunda carta" [Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano, 2019], estende um convite ao continente europeu para que se sente consigo e façam terapia de casal. Como está atualmente o seu relacionamento com a Europa e, em particular, com Portugal? A poesia é para si uma forma de reconciliação ou de protesto?
Para mim, a poesia é, mais do que uma forma de dizer alguma coisa (boa ou má), a melhor forma de ouvir alguma coisa. Mesmo quando sou eu a escrever. É como se pensasse melhor escrevendo, desde que aprendi a escrever. Como diria a grande Adélia Prado: “escrevo, cumpro a sina”. Em relação ao contexto em que nasci e cresci: apesar das discussões, ainda me dou bem com Portugal e com a Europa ao ponto de nunca ter batido com a porta e sair.
Além da poesia e dos contos, escreve para teatro e cinema. Em relação à escrita de poesia, partilha a visão de Sophia de que “é apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor”. E a escrita para o cinema e para o teatro, são exercícios distintos?
Escrever para teatro ou cinema, ou mesmo para televisão [Filipa Leal escreveu uma série para a RTP1 e participou no guião de um telefilme emitido na Opto, da SIC], é também um exercício em que “a atenção, a sequência e o rigor”, essa "arte poética" da Sophia que me acompanha há tantos anos, são fundamentais. Criar personagens que sabemos que serão interpretadas por atores é um exercício fascinante, viciante... e angustiante. Tudo a rimar com “Dante” [risos]. É menos solitário do que a poesia. A solidão da escrita é a mesma, mas já temos, dentro da cabeça, a noção do todo. É como se fôssemos nós próprios uma equipa com a qual temos de aprender a trabalhar. Uma equipa que nos diz: as pessoas não falam assim. Ou: esta cena é muito cara, não dá. Ou: se calhar, eles estão a fazer isto porque tiveram uma infância horrível. Mas “isto” é o que nós, que escrevemos, estamos a inventar o que “eles” fazem. As personagens que inventamos ficam a viver connosco e passamos a compreendê-las melhor, mesmo às mais cruéis. Como nenhum autor pode ter vivido tudo, criar outras vidas é um exercício mais da imaginação do que da experiência, claro. E a imaginação é essencial à empatia. A empatia implica que nos coloquemos no lugar do outro. A ficção seria um exercício impossível sem imaginarmos o que faríamos, ou o que sentiríamos, se fosse connosco.
No teatro e na televisão trabalhou, em várias instâncias, com o ator Pedro Lamares, que conheceu, segundo já confessou noutras entrevistas, na cave do Pinguim Café, no Porto, quando ambos tinham cerca de 18 anos. Há um poema de Alexandre O’Neill que diz: “Mal nos conhecemos/Inaugurámos a palavra amigo". Foi assim que se deu esse primeiro encontro?
Sim. Foi a poesia que nos juntou. A amizade ganha-se, ou perde-se, com o tempo. Mas a nossa cumplicidade começou, de facto, há mais de 25 anos, nesse “primeiro dia do resto das nossas vidas”, que temos feito lado a lado desde então. Eu dei-lhe um poema meu e o Pedro Lamares deu-me o número de telefone dele [risos]. Disse-lhe logo a verdade: que não iria telefonar-lhe. No dia seguinte, o Pedro ligou-me e ficámos, para sempre, ligados. Aos 45 anos, acho que já percebemos todos que a amizade é um assunto mais sério do que parece. Ser amigo é uma ação. Não pode ser só um sentimento. Não pode ser só memória. É preciso construir, confiar, perdoar e ser perdoado, nunca desistir. Eu já perdi alguns amigos e hoje sei que os amigos se podem magoar como os amores; podem tirar-nos o sono, podem provocar grandes desgostos, também. O meu plano é não perder mais nenhum amigo.
Sendo a poesia que vos aproximou, acredita que ela pode realmente ser, como defendia o poeta Lawrence Ferlinghetti, “a distância mais curta entre duas pessoas"?
Não sei se é a mais curta, mas é, enquanto “viagem”, a mais económica. Há um verso da extraordinária Ana Paula Inácio que nunca esqueço: “Atravessaste Séneca a pé?” Nós atravessamos alguns livros a pé, e também atravessamos as vidas uns dos outros a pé. A poesia dá tanto trabalho como a amizade, como o amor. Mas, às vezes, chega-se, de facto, mais depressa a um lugar se formos a pé. O mundo está cheio de trânsito. A poesia é ir a pé.
Num texto para a revista Correntes d’Escritas, escreveu “O mágico, que é o amigo, veste-nos e põe-nos na rua. O mágico sabe que a rua é melhor do que a cama para chorar. E segura no guarda-chuva enquanto choramos tudo o que falta, enquanto choramos a ausência do amor.” Dedicou este texto à poetisa e dramaturga Maria Quintans, que nos deixou recentemente. A amizade, e o amor, são o mais próximo que temos da magia?
Também foi a poesia que nos juntou. Conheci a Maria Quintans em 2010, em Lisboa, depois de uma leitura de poemas na Casa da Comédia. A Maria era diretora editorial da revista Inútil e eu tinha acabado de publicar A Inexistência de Eva [ed. Deriva, 2009]. Nunca esquecerei, desse primeiro encontro, aqueles olhos muito claros, cheios de futuro, e de ideias para o futuro, o entusiasmo, a alegria, a generosidade, a intensidade da Maria Quintans. Ficámos amigas muito de repente. A Maria era daquelas pessoas que queríamos logo que ficasse para sempre. E assim será em mim. Em 2019, publicou o livro Se me empurrares eu vou [ed. Assírio & Alvim]. Nós, seus leitores, seus amigos, fomos sempre com ela para todo o lado, sem hesitar. A Maria Quintans, além de ser uma poeta (uma escritora) enorme — surpreendente, torrencial, dessas que nos deixam sem chão, sem fôlego — era um ser humano enorme. Mágico, muito mágico. A Maria era uma verdadeira criadora e uma verdadeira amiga. Perder a Maria Quintans é um dos grandes desgostos da minha vida.
Em setembro, os seus leitores podem contar com um novo livro, publicado pela editora Assírio & Alvim. Quando e como é que começou em si a ideia de escrever este livro? O que nos pode revelar sobre ele?
Este novo livro é mais próximo, na “montagem” (se estivéssemos a falar de cinema), do Vem à Quinta-feira [ed. Assírio & Alvim, 2016]. Não tem uma unidade óbvia, mas acho que os poemas estão ligados por uma espécie de jogo de espelhos. O meu primeiro livro de poemas foi publicado em 2004, há 20 anos. Acho que este é um exercício de maior reflexão, talvez, sobre a maturidade. Sobre a vontade de não ter pressa, e não conseguir. Há um conflito entre a ansiedade do quotidiano no século XXI, esta urgência de viver, e uma vontade de dizer à própria vida: tem calma, não tragas mais surpresas, por favor, porque, às vezes, são más. É um espelho da infância, da adolescência, da família, do amor, da amizade, dos pequenos e dos grandes desastres... Mas, como sabemos (e o livro ainda esteve para se chamar assim): os espelhos mudam muito com o tempo.
Que livros têm habitado na sua mesinha de cabeceira nos últimos tempos?
Eu estou sempre a ler e a escrever, tenho dedicado a minha vida a isso. Mas posso destacar Lucy Barton, a personagem criada pela escritora americana Elizabeth Strout em vários volumes. Foi uma das minhas obsessões mais recentes. Uma das coisas mais comoventes, para mim, nessa personagem, ao longo dos vários livros, é que mesmo quando os outros dizem ou fazem coisas que a magoam, ela diz: doeu-me, mas eu compreendi. Eu gostava de ser assim, que fôssemos todos mais assim. A Humanidade ainda está a aprender a falar. E a ouvir.
Qual o livro que não se cansa de recomendar a amigos?
Bagagem, de Adélia Prado, é um livro que gostaria de sugerir a todos. A Adélia Prado é uma das poetas que nunca sai da minha mesa de cabeceira. Fiquei muito contente com a notícia do Prémio Camões 2024.
Há uma citação da cantora e compositora islandesa Björk que diz, traduzindo: "Existem certas emoções no teu corpo que nem o teu melhor amigo consegue compreender, mas vais encontrar o filme ou o livro certo, e ele vai entender." Que poema a compreende melhor do que ninguém?
O poema que ainda não escrevi.