Comunidade Bertrand | Marta Sinaré

Por: Raquel Fonseca a 2026-05-09

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A Biblioteca da Meia-Noite
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Valter Hugo Mãe: "De facto, imigramos para dentro do livro. És um imigrante ali."

Valter Hugo Mãe celebra 30 anos de escrita com um livro novo — O Século dos Imbecis — e continua sem respostas. Nem as quer. Nesta conversa com Raquel Marinho, o escritor de ficção, que começou por publicar poesia, conta da prosa, que o continua a assombrar, das personagens que não o deixam dormir, da infância, da morte e de cabras a escalar montanhas. Há também espaço para uma reflexão sobre o lugar da leitura na era da pressa. E a ideia de que, quando lemos, não assistimos de fora, somos.

O que vão ler os escritores neste verão?

O que leem aqueles que passam grande parte do ano a escrever? Para descobrir, convidámos alguns escritores lusófonos a partilharem connosco os livros que mal podem esperar por ler neste verão.

Katja Hoyer: para lá do muro do consenso histórico

Leia a entrevista exclusiva com a historiadora e jornalista alemã Katja Hoyer, a autora de Para Lá do Muro um livro que abre espaço para uma parte muitas vezes ignorada do século XX alemão: o outro lado do muro. Quando pensamos na República Democrática Alemã (RDA), desaparecida aquando da queda do Muro de Berlim, deparamo-nos tendencialmente com uma visão exclusivamente negativa, truncada da complexidade vivida pelo povo da Alemanha Oriental. As quatro décadas de história desta nação colapsam perante o consenso estabelecido sobre a sua unificação com o Ocidente.

Neste Mês do Livro, celebramos todas as portas que se abrem quando abrimos um livro. As conexões que nascem deste amor comum têm como base um valor essencial: a liberdade de ler e de criar. A partilha e o diálogo entre leitores é o que dá vida à nossa Comunidade Bertrand, de clubes de leitura à partilha de recomendações literárias através das redes sociais — e fora delas. Esta comunidade é feita também das experiências únicas de quem nela participa, dos universos que se cruzam e horizontes que se expandem.

Nesse sentido, tivemos a oportunidade de conversar com Marta Sinaré, que nos contou sobre como é pertencer a esta comunidade literária, e sobre a sua outra vida, no mundo das artes performativas: da participação no Got Talent ao papel dos livros na sua carreira artística.

Como surgiu a vontade de participar na comunidade online em torno dos livros, e de partilhares a tua experiência enquanto leitora através da criação de conteúdo?

Desde criança que me sinto absorvida pelas histórias que leio, faziam-me sempre viver as fantasias que gostaria de estar a viver, os palcos que gostaria de pisar… Essa paixão prevaleceu, e, há cerca de dois anos, comecei a consumir conteúdo digital relacionado com livros, e acabei por pensar “li tantos livros bons a partir destas recomendações, leituras que tiveram um efeito enorme na minha vida, também poderei recomendar os meus livros favoritos”. 

Se pudesses ler apenas um género literário de agora em diante, qual escolherias e porquê?

Leio diversos géneros, mas creio que escolheria ficção. Por ser algo que me consome a atenção, algo que me faz fugir da realidade ou intensificá-la ainda mais, é algo que me fascina profundamente. É um género literário que tem várias ramificações e todas elas são paixões minhas.

Neste momento, qual é o livro que recomendarias mais facilmente a um amigo, sem reservas?

Sem sombra de dúvida, A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig. Não apenas por ser um dos meus autores favoritos, mas especialmente por ser uma obra reflexiva, emotiva e reconfortante para quem tem ansiedade e depressão: faz a pessoa não se sentir sozinha. Faz-nos refletir sobre o tudo que somos e o que nos rodeia, assim como aquilo que podíamos ter sido e aquilo em que nos queremos tornar. Para mim, um dos livros mais belos. Um livro que recomendaria não só a um amigo, como a qualquer pessoa.

Além dos livros, marcas presença no mundo das artes, nomeadamente no programa Got Talent Portugal e em projetos de teatro musical. Estes dois universos são distintos para ti, ou complementam-se?

Para mim, ambos se complementam. O mundo artístico tem muitos altos e baixos, é uma montanha-russa, a pressão de fazer castings, a felicidade de estar em palco ou a tristeza de não ter conseguido passar à próxima fase. E os livros são uma montanha-russa de emoções, de pensamentos e ensinamentos.

O teatro musical aquece-me o coração e os livros aquecem-me a alma. Acho que se completam um ao outro, tal como me completam.

Existem livros ou autores que tenham influenciado de forma mais marcada a tua paixão pelo teatro musical, ou que informem as tuas escolhas artísticas?

Gosto bastante de ler livros sobre as artes, não só teatro musical, como pintura e história da arte, e isso acaba por me dar uma visão técnica mais aprofundada daquilo que pretendo fazer. Mas os livros de fantasia que lia em criança, lembro-me de me puxarem ainda mais para o teatro musical. Já que era um mundo fantástico, e não o poderia viver na vida real, poderia interpretá-lo, viver várias vidas no palco e fazer com que várias pessoas se sintam vistas em palco.

Falaste no passado sobre os desafios de enveredar pelas artes performativas em Portugal. Que conselhos darias a outros jovens que queiram seguir este caminho?

Creio que sempre irão existir desafios… O mundo artístico em Portugal, pelo menos, na minha perspetiva, é um mundo muito instável. O melhor conselho que poderia dar é não esquecer porque estás a fazer isto, por que razão estás no mundo das artes.

Com o stresse dos castings, acabamos por nos esquecer porque realmente estamos a treinar e a lutar por isto. Por não termos sido aceites num casting, não quer dizer que não somos bons, talvez só não tenhamos encaixado tanto na personagem, como a mesma encaixou noutra pessoa. Nem todos os castings vão ser bons, os seres humanos erram e é completamente normal, e estar a fazer castings com pessoas talentosas é um espelho do teu talento.

Neste ano, celebramos os 50 anos da Constituição, que garante direitos fundamentais, como a liberdade de expressão e criação artística. Como artista, criadora de conteúdo e leitora, como vês a importância destes direitos no teu futuro?

Tenho uma sorte imensa de já ter nascido numa época em que tenho estes direitos, enquanto artista, enquanto leitora e enquanto mulher. A importância dos mesmos já consta em eu poder estar a escrever estas palavras, a ler os livros que me transformam e poder expressar o que sou, enquanto artista, mas, principalmente, enquanto ser humano. A possibilidade de as pessoas poderem ser elas mesmas e se expressarem livremente, sem amarras, é algo imprescindível, agora e no futuro, como deveria ter sido também no passado.

Não estou só grata por mim, mas pela possibilidade de ouvir todas as outras pessoas, na sua forma liberta e autêntica, pois isso é das coisas mais lindas que este mundo tem para dar.

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