Valter Hugo Mãe celebra 30 anos de escrita com um livro novo — O Século dos Imbecis — e continua sem respostas. Nem as quer. Nesta conversa com Raquel Marinho, o escritor de ficção, que começou por publicar poesia, conta da prosa, que o continua a assombrar, das personagens que não o deixam dormir, da infância, da morte e de cabras a escalar montanhas.
Há também espaço para uma reflexão sobre o lugar da leitura na era da pressa. E a ideia de que, quando lemos, não assistimos de fora, somos.
Foste o primeiro convidado do primeiro projeto que eu fiz de poesia, chamado Poesia em Vinyl, em 2010. Recordas-te desse momento? Cantaste à capela e tudo.
Lembro-me. É verdade, coisa que não vai acontecer hoje.
Nem por acaso, tu fazes agora 30 anos de escrita literária e começaste pela poesia. E quando eras criança, querias precisamente ser poeta, mesmo poeta. Nem pensavas em ser romancista.
Eu vivia num fundamentalismo, assim, do verso. Para mim, texto, literatura, arte, sapiência, tudo tinha que ver com a poesia propriamente dita, não era a poesia disfarçada, mascarada de outra coisa. Porque hoje, claro, toda a gente me diz "ah, mas os teus romances são poéticos, escrita poética". Coisa que eu, na altura, rejeitava liminarmente. Detestaria andar comigo como um romancista, ou como um poeta que aldraba a sua poesia através da narrativa. E aconteceu-me, sabes. A sensação que eu tenho é que é uma espécie de mudança de género no espírito escritor.
Referi isto porque, quando nós nos conhecemos pessoalmente nessa ocasião, em 2010, tu vieste como o poeta Valter Hugo Mãe. Falámos dos teus poemas. O que era, se nós lermos entrevistas tuas passadas, digamos, quase a concretização de um sonho. Quando eras criança, tu querias realmente ser poeta e creio que continuas a achar que a poesia é que é, não é?
Sim, eu continuo a achar que os poetas estão certos. Por isso, de alguma forma, errei, eu sou errado. Portanto, para mim, não é uma questão de fazer o certo ou de fazer o errado, é mais uma questão identitária, é de ser ou não ser.
Mas já não te consideras poeta, é isso?
Não, faço prosa poética. O que, para o efeito da poesia, é uma certa aldrabice.
Já não escreves poemas, então?
Posso dizer-te que, nestes últimos muitos anos, talvez dez, eu rabisquei umas coisas imprestáveis com funções, o que é obsceno, porque pretendiam ser talvez letras de canções.
Como se fossem encomendas. Pediam-te coisas?
Ou por minha vontade, mas são poemas, muito poucos, mesmo assim, estou a falar de três ou dois. E com essa imediata submissão a terem uma função, a pertencerem a outra coisa qualquer. E fora desses três ou dois poemas, só haverá um poema. Mas é curioso que esse um poema que eu escrevi, que é um poema relativamente longo, terá umas duas páginas e meia, três, é-me tão querido que me planta no espírito, digamos assim, a intenção de o envolver num livro de poesia.
Fala de quê, esse poema?
Olha, curiosamente, este livro novo também passa por aí, mas fala de montanhas, da necessidade de nos revermos nas cabras e na capacidade que as cabras têm para dominar as verticalidades.
E esse poema já conhece a luz do dia ou ainda está na tua casa, guardado no teu computador?
Está guardado. Mas ele opera na minha vida como operam as ideias para os meus romances. É estranho. Não sei se agora sou assim, porque, antigamente, não escrevia os livros de poesia assim, ou se o poema se impôs assim. Os romances chegam a ser escritos depois de me assombrarem muitos anos. Por vezes, há aquela questão de saber quanto tempo levou a escrita de um determinado romance. E, no meu caso, o início dos livros, por exemplo, este, O Século dos Imbecis, pode radicar décadas antes, pode vir de décadas antes. Este livro, seguramente, é de 2006, 2007.
A ideia dele.
A primeira ideia e as primeiras páginas.
Ah, isso é mais interessante.
E, depois, fica lá desaparecido, esquecido, preterido. O que acontece é que, depois, as personagens, alguma coisa nas personagens ou alguma situação, assombra-me a vida toda. E só para de me assombrar se eu der lugar ao livro, se eu permitir que o livro tenha vez.
E tens muitos casos desses lá em casa, com primeiras páginas de possíveis romances.
Tenho um monte de coisas. Eu tenho cadernos para cada livro e tenho cadernos para todos os livros, para todas as hipóteses do livro.
E achas que todas as hipóteses são viáveis ou admites que possam não ser?
Não sei. Quando não são viáveis, eu sinto que a culpa é minha, que eu não estou intensificado o suficiente por aquela ideia. A ideia atrai-me. Seria possível tornar-se numa história consumada, mas a minha vida talvez não esteja interessada. Eu acho que não avanço. Esses fantasmas não se apaziguam. Não é que eles venham à vida, pelo contrário, eles morrem de uma vez por todas. Esses fantasmas não se apaziguam porque a minha vida os inventou, vive assombrada por eles, mas, de repente, não precisa deles, não precisa de os entender.
De os resolver, de certa forma.
De os resolver. Então, são fantasmas que são recorrentes, mas tornam-se relativamente irrelevantes.
Disseste assombrada por eles. Assombrada é uma palavra forte. Significa que são ideias que realmente não coabitam apenas contigo, mas, de certa forma, podem incomodar-te?
Claro. Que me atribuem bastante enfermidade. Que perturbam bastante a minha vida. Que me impedem de uma certa normalidade.
Mas, em que medida, por exemplo?
Olha, que me acordam durante as noites constantemente com frases, com hipóteses, com ansiedades. Ter livros para escrever é não ter sossego. Já ter livros para ler também já é um desassossego. E, por isso, quanto mais estas presenças espectrais se definem e abundam, mais me sinto imprestável, no sentido de quaisquer cinco minutos em que eu simplesmente pouse a cabeça tentando não pensar em nada, parecem-me obscenos. Porque são roubados.
"Temos demasiadas opiniões acerca dos outros. E eu tento não ter tantas opiniões e, se tiver alguma coisa para dizer, invento personagens."
A essa missão ou função?
A essa necessidade de traduzir essas coisas pressentidas. Esse universo pressentido. Eu não tenho nada, nada, nada a convicção de que a literatura vem da evidência, do que sabemos, do que efetivamente aprendemos. Ela vai nessa direção. Ela traz isso. Mas ela não começa por ser isso. Ela é ir de encontro ao desconhecido, ela é ir de encontro à escuridão completa.
Pode dar medo?
Pode. Pode dar bastante medo. Inclusive, porque, quando começas a trabalhar determinadas ideias, podes descobrir que, no extremo da ideia, que pode ter a melhor das intenções, se coloca o mais terrível resultado. É como estares a correr com a melhor das intenções e entender que aquela corrida inevitavelmente leva a um mau resultado. Todas as intenções, todos os sinais parecem ser positivos e maravilhosos, edificantes e humanizadores, mas, se insistires naquela lógica, digamos assim, ela não tem como outro resultado, senão uma tragédia. E, por isso, ensina a cair, mas ensina se vais cair com a possibilidade de levantar.
Como no judo, quando aprendemos a cair sem nos magoarmos.
Exatamente. Ou se, então, nunca mais te voltas a levantar. Mas isso é muito interessante na literatura e, por isso, é que tem de se escrever o livro, porque o extremo da ideia só está no exercício das escritas.
Senão não encontras.
Senão não chegas a saber, não encontras. Porque, de facto, o livro está numa certa escuridão, está num pressentimento, num espaço paralelo que tu só vais poder ter a sensação de tanger através da escrita.
Conhecer até, não é? Conhecer realmente.
Conhecer. Eu tenho para mim que o conhecimento nunca é concreto.
Pois é, e falas disso neste teu novo livro. Há uma frase de uma personagem que conhecemos como a Pasteleira que, quando confrontada com uma palavra difícil — imarcescível —, diz: "porque é que nunca se entende a grande inteligência? Não podem fazer uma inteligência que todos saibam aprender?". E vi entrevistas tuas anteriores, em que falas desta ideia de a inteligência não ser necessariamente conhecimento e o conhecimento também não ser necessariamente inteligência. E esta Pasteleira, nesta frase, de certa forma, traduz isso.
Porque ela não está a ser burra. Ela está a ser de uma pertinência incrível. Ela está a ser bastante inteligente. Mas esse é o desafio do livro inteiro, e eu acho que esse é o grande desafio da escrita. Nós estamos todos no lugar da Pasteleira. Nós, enquanto escritores, partimos para o livro todos no lugar da Pasteleira. Estamos todos diante de um enigma que começamos por não entender e que, às tantas, podemos deixar o livro sem o entender, terminar o livro sem o entender. Mas é o nosso ofício rondar uma hipótese de solução. Que solucionemos alguma coisa talvez seja ingénuo, mas que rondemos as hipóteses de solução é um dos grandes objetivos da literatura. E, depois, pode acontecer uns clarões, uns clarões aqui e acolá que, talvez, até só sirvam temporariamente. Que sejam meio descartáveis porque o clarão seguinte pode dizer o contrário. Talvez por isso é que os livros não terminam, no sentido em que não bastam. Existe este e eu já estou obcecado com o outro.
É uma obsessão? É sempre uma obsessão?
É uma obsessão porque parece que, quanto mais os livros pareçam esgotar uma hipótese, mais eles me elucidam acerca da infinitude do mistério. Ao fazer o esforço para uma determinada resposta, eu talvez entenda melhor a pergunta que quero colocar. E, por isso, o livro seguinte vai ao encontro dessa nova oportunidade de responder, e nunca vai ser suficiente. Eu sei que vou morrer danado.
O teu esforço de decifrar os enigmas, de encontrar as respostas.
De aguentar tudo. De amar, não ser amado, amar mal, ser mal-amado. Ter visto menos, não ter conseguido ler o que eu queria. Há sempre um raio de um livro que sai e que eu sinto necessidade de ir a correr ler. Porque alguém me diz que é maravilhoso. E, depois, às vezes, não estar de acordo e pensar assim, mas o que é que falhou? Toda a gente gosta disto e eu não estou a entender. Porque é que eu não recebo esta maravilha? Porque é que esta maravilha não é minha também? Porque eu quero a maravilha toda. E seria tudo, nesse sentido de ser o mais completo possível.
"[...] vamos é desistindo da lucidez, vamos desistindo de encontrar respostas, vamos aceitando que as coisas não têm resposta, que o mistério é a natureza."
E essa maravilha toda, Valter, e pergunto porque foste tu que falaste disso, inclui amar bem, ser amado bem, ter esse encontro. Como já não sei quem é que diz, o milagre é o encontro. Concordas com esta ideia?
Concordo. Eu acho que estamos aqui pelos outros. Eu adoro pessoas. Tenho tendência até para gostar de pessoas que me são avessas. Que acham que eu ou sou muito estranho ou que sou muito feliz para alguém que tem motivos para não o ser. Ou que sou, sei lá. Temos demasiadas opiniões acerca dos outros. E eu tento não ter tantas opiniões e, se tiver alguma coisa para dizer, invento personagens. E castigo-as com as minhas meditações acerca do ímpio, das personalidades.
Li que também nos poemas fizeste muitas vezes isso. Escreveste poemas para responder a pessoas, para dizer coisas a pessoas, a amores, coisas mal resolvidas.
Sim, cortar amizades.
Cortar amizades?
Ah, sim, fiz cartas de desamigo [gargalhada]. Tenho poemas não é de desamor, é de desamigo. Desamiguei gente na poesia e acho, inclusive, saudável. Ajuda muito.
Conseguir tomar a decisão.
Temos uma certa vingança discursiva. Eu não sou de gestos dramáticos. Mas digo coisas tremendas. Adoro dizer coisas tremendas. Muitas vezes, quando me estou a queixar, já me estou a rir também porque adoro queixar-me de uma forma espalhafatosa. Teatral.
Porque te estás a ver de fora, de certa maneira. Também percebes que aquilo é um exercício de escrita, não é um gesto dramático real.
Sim, que já é um deslumbre pela palavra, já é um deslumbre pelo efeito do texto. Adoro dizer assim… alguém me faz mal e eu amaldiçoo toda a gente com infeções urinárias. Adoro. Ou, então, quando a infeção urinária parece ser difícil de acontecer, eu " ah, espero vê-la exposta às fatias". Claro, é uma coisa...
Metafórica.
É tão apalermado.
Este livro tem muitas passagens muito engraçadas. Da criada e da marquesa, do que desejam mutuamente, do que desejam uma à outra. E também são momentos de uma verdade crua, mas que chegam a ser cómicos.
É das passagens mais engraçadas do livro, das passagens que mais me deu gozo escrever. Aliás, eu, na altura, pensei "eu devia fazer mais 30 páginas destes insultos". Eu adorei, adorei que elas se insultassem, mas à vez. Agora, eu vou discursar e você vai ficar submissa, ouvindo, e, depois, a outra respondeu, assim com o tempo que cada uma precisou. Porque, ao mesmo tempo, esse garrido das expressões é o estabelecimento de uma certa cumplicidade, sabes? É a conquista de uma paridade. E por isso é que se diz, a dada altura, que, em classes distintas, elas têm o mesmo grau de majestade. É uma paridade entre elas, entre a criada e a marquesa, não há diferenças, não há cá porcarias.
Ainda nessas passagens, nas quais tu nos permites a nós, leitores, sorrir, a marquesa, num momento em que está toda a aldeia na igreja e em que ela se levanta e diz uma coisa importante, tu dizes-nos que o que ela queria mesmo era que toda a gente caísse ali morta, inclusivamente, o padre.
E ela, quando reza, mais do que pedir pela saúde das pessoas, pede pela morte de toda a gente. Pede "mata este, mata aquele, Deus, por favor, mata este, mata aquele". Ah, gosto muito disso.
É um momento do livro no qual tu vais para outro sítio, e isso é muito interessante. Por falar em Deus, a primeira frase do primeiro capítulo do teu livro é "a vida é de Deus, mas o tempo é do diabo". Porque é que tu achas isto, ou porque é que a personagem diz isto, ou porque é que dizes isto a abrir o livro?
Eu tenho muito essa impressão de que, de facto, a oportunidade de virmos à consciência que a vida nos dá é uma oportunidade de ouro. E tem essa expectativa de que o ganhar consciência, o ser consciente, nos possa elucidar. Mas, depois, contra a elucidação, está o tempo. E eu acho que, tragicamente, nem que eu morra com 100 anos, vou morrer à deriva, à procura.
"E é essa concentração, essa possibilidade de concentração, que acelera a literatura, e que nos faz passar horas sem sentir a angústia de estarmos a não prestar atenção a outra coisa qualquer."
Mas não há aquela ideia de que, quanto mais velhos somos, mais lúcidos estaremos?
Será? Não sei, eu acho que vamos é desistindo da lucidez, vamos desistindo de encontrar respostas, vamos aceitando que as coisas não têm resposta, que o mistério é a natureza. E, por isso, vamos talvez ficando fartos, caminhando para essa fartura, e achando que é suficiente só a pequena benesse. Já não há, já não existem grandes sonhos. O maior sonho é, no fundo, um certo regresso ao que já se perdeu e que, a dada altura, se desprezou, à procura de outra coisa que não havia.
Que se considerou menor numa dada altura.
Era, no fundo, o que tu tinhas. A grande, grande coisa da vida está, talvez, na imorredoura infância. Aquele tempo sem morte, sem-fim. A infância mede-se por anos longos, por tempos longos. A criança expande a sua idade com a impressão de um interminável, e isso é a fortuna que, depois, nós buscamos a vida toda, e que não há. Por isso, talvez, a velhice, essa lucidez, seja entendermos muito bem que o tempo do infinito foi a infância e que a melhor coisa a fazer é não procurar mais nada.
E achas que tiveste ansiedade ou essa pressa, quando eras miúdo?
Talvez, quando era mais miúdo, mas, depois, como as coisas não aconteciam... sabes que eu cresci nas Caxinas, em Vila do Conde, longe de tudo, onde não há poder. Não há livrarias, até hoje. Existe um lugar onde se vendem uns cacos e, volta e meia, umas roupas, e tem uma estante com uns livros. Até hoje, Vila do Conde é assim. Chegar aos livros ou os livros chegarem a nós… Na altura, quando era bem menino, nem biblioteca havia. E, por isso, era tudo tão a distância, que eu obrigatoriamente tive de aprender a projetar as coisas para um futuro que era bastante irreal.
E daí a pressa. Querias crescer para chegar lá depressa.
Havia essa pressa, mas, ao mesmo tempo, havia uma aprendizagem da lentidão. Uma necessidade de esperar. E eu hoje acho que cumpro as minhas coisas com a convicção de que elas só vão valer a pena se não forem precipitadas, se não forem uma compensação pela minha infância do pouco, mas, sim, uma maturidade de uma vida já bastante privilegiada, de alguém que pode viajar e que pode comprar os livros, e que pode conhecer, inclusive, as pessoas, e ter acesso a muita coisa que eu sei que a maioria das pessoas provavelmente não terá.
Tens essa consciência também social e cívica.
Sim.
É verdade que, durante um tempo, achaste que ias morrer jovem, cedo? Primeiro, pensaste que era aos 18 e, depois, aos 33, e que, aos 33 anos, até fizeste uma festa grande achando que...
Claro, que talvez fosse melhor fazer uma festa antes de não poder fazer mais nada. Mas eu continuo a ter essa alma debitante. Estou meio em débito. Não é que eu me sinta perto de um fanico final, mas sinto que... Como é que eu explico isto? Sinto uma certa vaga intenção de futuro.
Vaga intenção de futuro?
É. Não tenho tanta avidez. Eu queria muito aprender a plenitude do presente, a plenitude do hoje, porque, de facto, não há mais nada. E é tão súbita. A minha idade é tão súbita. Ter 54 anos é uma coisa tão espantosa, tão do foro do crime. Eu fico espantado. Não se comprova, sabes? A sensação de que eu não tenho provas para este tempo. Pensar no futuro parece-me horroroso. É no que eu não quero pensar, porque, senão, de alguma forma, estou a criar uma espécie de superligação com esse tempo que eu, mais do que querer antecipar, quero adiar. Não quero que chegue. E, por isso, eu estou muito interessado em criar uma plenitude no presente. No presente.
O tema desta edição da revista Somos Livros é, de certa maneira, o presente, a era da pressa em que vivemos. E a era da pressa não só da internet, mas do mundo. Eu acho que, se nós pensarmos, nós temos mais ou menos a mesma idade, parece que há 30 anos o mundo era mais lento. Era mesmo, não era?
Era mesmo. Eu acho que é a comunicação que acelera tudo. A facilidade de comunicar. Porque, se podes entrar num grupo de WhatsApp e num só instante marcar um jantar com 100 pessoas para dali a duas horas, dali a duas horas podes estar com 100 pessoas reunida num lugar qualquer. E, antigamente, não. Antigamente, para juntar 100 pessoas, tinhas mesmo de demorar.
Era uma produção.
Era uma produção. Porque, para conseguires comunicar com toda essa gente, não havia modo senão encontrar cada uma à vez, ou ligar a cada uma à vez, telefonar, esperar pela hora em que as pessoas estivessem em casa, porque não havia telemóvel. E, por isso, algumas pessoas talvez só pudessem ser contactadas por escrito. Aquelas mesmíssimas 100 pessoas, digamos assim, em 1991, levar-te-ia um mês, dois meses para as poderes juntar num jantar. Essa facilidade da comunicação. Eu acho que está absolutamente assente no ato da comunicação. Quanto mais depressa comunicas, mais depressa ages. Mais depressa fazes, mais depressa aconteces.
E pode ser paradoxal, no sentido em que tem lados positivos. Mais depressa tu, Valter Hugo Mãe, pões um vídeo nas tuas redes e, naquele minuto, não chegas só a Portugal, chegas ao Brasil, chegas a todos os sítios onde se fala português, e isso é muito bom para ti, escritor.
É impagável.
Mas, simultaneamente, recebes estímulos a toda a hora. Nós estamos a gravar, tu tens sempre notificações no WhatsApp, por exemplo. Ou seja, de facto, também não há descanso. Por um lado, é bom, mas, por outro lado, o nosso cérebro não para, que é o que a literatura pede. Pausa.
Não crias espaços de meditação. Estás na precipitação contínua que é fomentada por essa contínua comunicação. Se continuamente recebes uma proposta, um convite, uma pergunta, a tua vida vira uma intenção de correspondência imediata e precipitada, inevitavelmente precipitada. Porque, de facto, pouca gente tem 30 minutos seguidos sem ser abordado pelo exterior. E isso gera uma ansiedade que vem da expectativa de que, finalmente, a mensagem que entrou seja uma mensagem reveladora, que anuncie uma grande maravilha. Coisa que pode acontecer, mas que, se acontecer de dez em dez anos, vai ser uma maravilha. No entanto, acontecendo de dez em dez anos, destrói todos os livros que temos para ler durante uma década.
Tem esse efeito, tem esse poder.
Tem esse poder. Se não te protegeres em relação a essa ansiedade, as pessoas não vão conseguir regressar a essas meditações mais profundas que encontrem ou que as levem a um conhecimento mais efetivo do que são, de quem são.
E que os livros permitem. Há esta ideia de que, mesmo para um leitor decidir ler, é necessária uma decisão, mais necessária hoje do que há dez anos. Como é que tu geres isso? Quando vais ler, pões o telefone longe?
Nem ponho assim tão longe. Eu faço uma coisa que é cada vez mais antipática, eu ignoro mesmo, ou seja, eu progrido para me desvincular da obrigação de olhar, de responder. Eu acho que nós todos precisamos de criar um território de proteção contra essa entrada na nossa intimidade, que pode ser constante.
Mas há um apelo também. Criámos um hábito de ter informação constantemente. Não só a comunicação com os amigos, mas até informação. Digamos que parece que mudámos a nossa maneira de realmente estar.
De estar e de ser. Porque somos o telex da Lusa, a própria máquina recetora que passa por nós, e tudo quanto é emitido tem de passar por nós, e, se não passar por nós, parece que estamos excluídos de uma normalidade, que somos umas aberrações que não tiveram direito a aceder a qualquer coisa, como se aquilo fosse valioso, de facto; como se fosse dinheiro a entrar numa conta qualquer.
E o que é que se pode dizer aos leitores, ou aos potenciais leitores, que, de facto, vivem essa sensação de que são assoberbados? Têm tanta informação que dizem "eu não consigo parar uma hora a ler".
Conseguem, conseguem.
O que é que dirias?
Têm de controlar a ansiedade. Por isso é que há tanta gente a tomar comprimidos. O problema é que tomam comprimidos para controlar a ansiedade para depois se sentirem bem a ver uma telenovela, ou a cozinhar, ou a passar a ferro, ou seja o que for, e não dão prioridade, por exemplo, à leitura de um livro. Eu tenho alturas em que leio, por exemplo, um livro todos os dias. E muita gente me pergunta "Como é que é possível ler um livro todos os dias?". É assim, primeiro, é verdade que eu tenho menos tendência para livros muito longos, cansa-me. Eu entro nos livros muitas vezes pelo estilo, pelo esplendor da linguagem. Por isso, em 200 páginas, normalmente, está bem para entender o esplendor da linguagem. Mas ler 100 páginas, por exemplo, ao acordar, a gente lê 100 páginas numa hora, uma hora e pouco. E ler outras 100, 120, 140 páginas ao deitar, lê-se em mais uma hora, uma hora e pouco, duas horas que seja. Não me venham dizer que o comum dos cidadãos não tem duas horas por dia, ou duas horas e meia, para treinar uma leitura que seja mais… ao fim de um tempo, começa a ler-se mais rápido. A questão está na concentração. Está em verdadeiramente a gente se precipitar para dentro do texto, em que o texto parece que já se está a ler sozinho, a gente já não existe mais. E é essa concentração, essa possibilidade de concentração, que acelera a literatura, e que nos faz passar horas sem sentir a angústia de estarmos a não prestar atenção a outra coisa qualquer. Porque, de facto, imigramos para dentro do livro. É uma imigração, viajas lá para dentro, és um imigrante, ali.
E porque é que — pergunta ingénua, mas quero mesmo fazê-la —, porque é que as pessoas devem ler em vez de, como tu dizes, ver uma novela ou fazer scroll no Instagram ou o que seja?
O livro acontece inteiramente na nossa cabeça. O livro não permite passividade. É uma construção que alguém nos propôs, mas é tua. A construção é tua enquanto leitora. O Umberto Eco dizia que os livros são máquinas preguiçosas e, de facto, os livros não operam sem o leitor fazer o esforço completo. E, para algumas pessoas, parece um esforço descomunal que não aguentam fazer, mas a verdade é que não. A máquina pode ser posta em andamento, com cada vez mais destreza, com cada vez mais rapidez, e ela oferece tudo. E como ela é posta em prática por nós, o nosso pensamento incorpora o que o próprio livro oferece. E eu acho que isso não acontece exatamente com todas as coisas. Aquilo com que tu estabeleces uma relação mais superficial, mais de passagem, sobretudo, mais passiva, não se inscreve na tua própria meditação, no teu próprio pensamento. É algo com que tu te confrontas. O livro confunde-se com o teu pensamento. Tanto que quantas e quantas vezes deparo com instantes em que eu não sei se eu estive ou se eu li, se eu vi ou se eu li, se eu pensei ou se eu li. E há muita coisa na minha vida que é resolvida de princípios que são literários, que me deu a Anna Karenina ou que os mocinhos Karamazov me resolveram. E, por isso, a literatura tem este poder de ela contecer num cenário que pertence verdadeiramente só ao leitor, e, por ser assim, ela tende a edimentar no espírito do leitor não como uma experiência assistida, mas como uma experiência vivida. Não como alguma coisa que tu simplesmente observaste, mas como alguma coisa que tu foste. Tu foste aquele livro. É um poder temendo dos livros. Tu foste o livro.