Quando o livro é uma arma

Por: Beatriz Sertório a 2020-04-23 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Fahrenheit 451
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1984
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A História de Uma Serva
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Os Testamentos
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Nós
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A Máquina do Tempo
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A Guerra dos Mundos
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O Tacão de Ferro
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A Morte da Terra
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Divergente
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A série de televisão Queen’s Gambit (Gambito de Dama) tornou-se um fenómeno mundial. Após a sua estreia, em outubro de 2020, a Netflix anunciou tratar-se da minissérie mais vista da plataforma durante as primeiras quatro semanas de visualização. Baseada no livro homónimo de Walter Tevis, originalmente publicado em 1983, esta história fascinante tem o xadrez como centro da narrativa.Participe neste jogo de estratégia e descubra algumas das peças que garantiram este sucesso.

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A propósito do Dia Mundial da Saúde, celebrado ontem, dia 7 de abril, sob o mote "Construir um mundo mais justo e saudável", homenageamos aqueles que trabalham diariamente para tornar esta missão uma realidade: os profissionais de saúde. 

Diz-se que quem não lê é obrigado a acreditar no que lhe dizem. Se isso é perigoso numa sociedade dita democrática, que tem a liberdade de expressão como um dos pilares essenciais, é-o, ainda mais, sempre que há uma situação de abuso do poder político. Poderíamos dizer, parafraseando o cantautor José Mário Branco: o livro, como a cantiga, "é uma arma. (…) Tudo depende da bala e da pontaria".


DOS FÓSFOROS AOS INCÊNDIOS, O LIVRO COMO SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA

Desde sempre, os livros têm desempenhado um papel fundamental enquanto testemunhos da verdade e da memória escrita da História. Livros como o incendiário Direitos do Homem (1791), de Thomas Paine, A Origem das Espécies (1859), de Charles Darwin, As Vinhas da Ira (1939), de John Steinbeck, ou O Segundo Sexo (1949), de Simone de Beauvoir, denunciaram injustiças e/ou destruíram teorias, atuando como verdadeiros agentes de mudança na sociedade em que foram publicados. Enquanto uns provocaram verdadeiras chamas, tendo incitado revoluções devido às ideias neles contidas, outros funcionaram como fósforos para iluminar quanta escuridão existia à sua volta ("[o] que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas permite-nos ver quanta escuridão existe ao nosso redor" — William Faulkner).

Se olharmos para a forma como o livro tem vindo a ser retratado na literatura e na cultura popular, podemos perceber como, ao longo do tempo, ele tem adquirido uma simbologia enquanto objeto sinónimo de resistência. Recordemos, a título de exemplo, o clássico distópico de Ray Bradbury (cujo 100.º aniversário se assinala este ano), Fahrenheit 451 (1953), no qual, em resposta à destruição de livros, que é levada a cabo pelos bombeiros, existem pessoas — resistentes — que memorizam livros, tornando-se, assim, verdadeiros livros humanos. Ou A História de uma Serva (1985), de Margaret Atwood (cuja sequela foi publicada pela Bertrand Editora este ano), que nos apresenta uma sociedade em que as mulheres são proibidas de ler ou escrever, e uma protagonista, antiga bibliotecária, que se assume como símbolo da rebelião no estado fictício de Gilead.

Instruções para fazer um escudo em forma de livro (Book Bloc Protests). Ilustração: Marwan Kaabour, Barnbrook.

 

Mais recentemente, contudo, esta associação do livro como símbolo de resistência tem vindo a ganhar um sentido mais literal, com a emergência de movimentos conhecidos como book blocs. Iniciados em Roma, em novembro de 2010, contra os cortes no orçamento do sistema universitário público, estes bloqueios de livros são manifestações em que os participantes constroem capas de livros em grande escala, que utilizam como estandarte e escudo de proteção. Alvo de bastante atenção mediática, estes protestos têm sido reproduzidos um pouco por toda a Europa e nos EUA. Num comunicado de imprensa de um protesto ocorrido em Londres, em 2010, um dos manifestantes explica a simbologia por detrás desta iniciativa: "Quando a polícia nos atacar, não vamos ver apenas a violência da polícia contra indivíduos, mas a violência do Estado contra a liberdade de expressão e de pensamento e contra a educação. Os livros são as nossas ferramentas — ensinamos, aprendemos, brincamos, fazemos amor com eles e, por vezes, temos de lutar com eles."

Também o poeta John Milton, no seu livro de 1644, Aeoropagítica, afirmava esta força simbólica do livro: "Porque os livros não são de todo coisas mortas (...) preservando, como um frasco, a mais pura extração do intelecto que os criou. Sei que são tão vivos e vigorosamente produtivos como os fabulosos dentes de um dragão e, sendo fomentados, podem unir homens armados".

 

A LEITURA COMO FORMA DE COMBATE

Numa altura em que o acesso à informação é mais fácil e imediato do que nunca, surge um novo perigo: o da propagação de informação falsa, ou as chamadas fake news. Este fenómeno tornou-se um tema quente durante a campanha eleitoral de Donald Trump, com a estratégia de difusão de informação falsa, levada a cabo pela empresa de análise de dados Cambridge Analytica, com o intuito de fomentar a polarização entre o eleitorado. Contudo, a desinformação tornou-se um perigo viral. Segundo Paulo Pena, autor do livro Fábrica de Mentiras — Viagem ao mundo das fake news (2019), só em Portugal existem 40 sites a fabricar mentiras: "A desinformação é um processo, é isso que a distingue do simples engano ou de uma opinião mal fundamentada. É uma sequência de actos concebidos por alguém com o objetivo de manipular as convicções do maior número possível de pessoas."

Paralelamente ao interesse político em propagar informação falsa, para manipular a opinião pública, surge ainda a questão do lucro — explicado pelo facto de as redações, com presença em plataformas digitais, serem compensadas monetariamente pela quantidade de cliques nas suas notícias. Naturalmente, este sistema influencia o modo como as notícias são tratadas e apresentadas, comprometendo, assim, o seu nível de veracidade, uma vez que os intermediários entre a notícia e o leitor — editores e revisores — podem, facilmente, ser dispensados.

Neste contexto, os livros surgem como últimos redutos da verdade ou, pelo menos, da possibilidade de ter uma visão integral, e sem filtros, dos acontecimentos, em vez de uma versão que foi especialmente criada e direcionada para nós com base no nosso rasto digital. Para Jordi Nadal, editor, a ameaça é a de um mundo a preto e branco, sem a admissão do cinzento, o que torna a leitura imprescindível nos dias que correm. Um livro não é lido da mesma forma por duas pessoas, e a partilha de opiniões divergentes é essencial para fomentar o debate e evitar um discurso dogmático.

 

“Sem a leitura, não há profundidade de campo, nem contraste, nem matizes; sem a leitura, caímos facilmente no fanatismo." — Jordi Nadal

 

A leitura é igualmente importante por estar intimamente ligada à nossa capacidade de expressão. Se pensarmos no conceito apresentado no clássico distópico de George Orwell, 1984 (1948), de novilíngua — a língua criada pelo regime totalitário do Grande Irmão, com a intenção de eliminar grande parte do vocabulário da população e reduzir, consequentemente, a capacidade de expressão —, podemos traçar paralelismos com o estado atual do mundo digital da informação. Alguém que tenha um vocabulário reduzido ou a quem seja dada uma visão unilateral e, frequentemente, adulterada dos factos é alguém que não tem capacidade de se expressar — é alguém que não contesta.

Mais do que nunca, precisamos de leitores e, mais do que isso, precisamos de leitores ativos, com a capacidade de interpretar e questionar aquilo que estão a ler. É essencial que se mantenha o cérebro em forma. "Ler como uma forma de exercício físico", "um ginásio onde o utente escolhe entre aeróbica, ginástica ou a leitura de um livro de ficção; cada uma com a duração de hora e meia, três aulas de movimento" (Gonçalo M. Tavares, in Enciclopédia 1-2-3, 2012).

 

DISTOPIAS – FICÇÃO OU MANUAIS DE INSTRUÇÕES?

Ao longo do tempo, os romances distópicos têm funcionado como exploração dos medos mais profundos da sociedade, ou como alerta premonitório dos potenciais perigos dos seus comportamentos. Desde que a palavra distopia foi proferida pela primeira vez, em 1868, pelo filósofo e economista britânico John Stuart Mill, como antónimo de Utopia (em referência à obra de Thomas More), ela tem sido utilizada para definir todas as representações de um país ou uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária (Priberam).

Embora seja difícil discernir quando é que a distopia se tornou um género literário, em vez de um subgénero da ficção científica, podemos afirmar que o seu embrião já se alojava na obra de H. G. Wells — o autor inglês que desejava que, na eventualidade de uma das suas ficções apocalípticas se tornar realidade, fosse gravado no seu epitáfio: "Eu avisei-vos. Seus tolos malditos". As suas obras, como A Máquina do Tempo (1895) e A Guerra dos Mundos (1895), são um verdadeiro reflexo dos medos que assombravam a sociedade britânica (e mundial) do seu tempo – no caso de A Máquina do Tempo, o fosso crescente entre classes e o totalitarismo; no de A Guerra dos Mundos, o conflito entre nações e a possível invasão extraterrestre.

Apesar de ser comum nomear o livro Nós (1924), do autor russo Evguéni Zamiátin, como o primeiro romance distópico (e uma influência importante para o clássico distópico 1984), a verdade é que, mesmo depois de Wells, existem outros percursores importantes — como O Tacão de Ferro (1924), de Jack London, descrito por George Orwell como "[u]ma notável profecia da ascensão do fascismo" ou A Morte da Terra (1910), do francês J.-H. Rosny Aîné, que preconiza as consequências das alterações climáticas. Mudam-se os tempos, mudam-se os medos. E, com o tempo, o romance distópico começa a desenvolver os seus próprios subgéneros — para além da distopia política, ou totalitária, ganham também destaque a distopia tecnológica, a distopia religiosa ou a distopia climática —, criando cenários para diferentes desfechos apocalípticos.

 

Não é preciso queimar livros para destruir uma cultura, basta fazer com que as pessoas deixem de lê-los!" - Ray Bradbury

 

Depois de uma reemergência do género distópico em 2008, com o aparecimento de distopias direcionadas para um público young adult — de que são exemplo os livros da saga Os Jogos da Fome (2008), de Suzanne Collins, Maze Runner (2009), de James Dashner, ou a trilogia Divergente (2011), de Veronica Roth —, as distopias voltam a ganhar nova relevância face aos mais recentes acontecimentos políticos, sociais e climáticos, por parecerem, cada vez mais, um retrato da sociedade em que vivemos. Prova disso mesmo é o facto de 1984 (1948), de George Orwell, ter voltado ao topo de vendas nos EUA logo após a eleição de Donald Trump; ou as inúmeras manifestações feministas que têm ocorrido um pouco por todo o mundo com mulheres vestidas de Servas — as escravas reprodutivas de A História de uma Serva (1985) —; para além da publicação da sequela Os Testamentos (2019), por Margaret Atwood, pelo facto de a autora considerar que, cada vez mais, nos aproximamos da realidade de Gilead a nação distópica que descreve nos dois livros.

 

PROIBIDO LER — SOBRE A CENSURA

Acredita Alberto Manguel, escritor e bibliófilo, que é a leitura que nos permite perceber os limites que a sociedade impõe entre nós e o outro e, mais importante do que isso, que é através dela que desenvolvemos a capacidade de questionar por que motivo esses limites existem. Um leitor é, portanto, um indivíduo que questiona — algo que não é visto com bons olhos em tempos opressivos. Por essa razão, ao longo da História, um pouco por todo o mundo, têm sido vários os livros alvo de censura ou os escritores presos pelas suas ideias.

 

"Ler sempre é um ato de poder. E é uma  das razões pelas quais o leitor é temido em quase todas as sociedades" Alberto Manguel

 

Tendo vivido sob o poder de um regime ditatorial durante 41 anos, Portugal conheceu muitos destes casos. O investigador José Brandão compilou, em 2012, uma lista com 900 livros censurados pelo Estado Novo. Desta lista, fazem parte livros como O Anticristo (1895), do filósofo Friedrich Nietzsche, o Trópico de Capricórnio (1930), de Henry Miller, e o Manifesto Comunista (1848), de Karl Marx. Entre os autores nacionais que foram vítimas do lápis azul, contam-se nomes como o da poetisa Natália Correia, cuja Antologia de Poesia Erótica e Satírica foi imediatamente apreendida pela PIDE, aquando da sua publicação, em 1965; Miguel Torga, autor da coleção de contos Bichos (1940), que viu mais de uma dezena de livros seus censurados; ou Urbano Tavares Rodrigues, cujo livro As Torres Milenárias (1971) foi considerado uma crítica imoral à burguesia.

Contudo, a censura está longe de ser coisa do passado. Podemos encontrar exemplos recentes no Brasil, como a tentativa de apreensão de uma novela gráfica na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, pelo prefeito da cidade, por conter uma imagem de duas personagens do sexo masculino a beijarem-se; a proibição de livros didáticos e de literatura clássica estrangeiros, na China, no início de 2020; ou a destruição de mais de 300 mil livros pelo governo turco, desde a tentativa de golpe de Estado, em 2016.

Como escrevia George Orwell em 1984: "Quem controla o passado, controla o futuro" e, enquanto registo do passado, denúncia do presente e (sobretudo, no caso das distopias) previsão do futuro, os livros são considerados perigosos por todos aqueles que querem silenciar a liberdade de expressão. Se as distopias são um exemplo de como o medo pode inspirar a resistência, a censura é um reflexo de como o medo pode ser utilizado para controlar e manipular um povo. Mais do que isso, a censura é a expressão de um medo maior — um que o escritor moçambicano Mia Couto registou no livro O Universo num Grão de Areia (2019), e anteriormente referido numa conferência em 2011: "Há quem tenha medo que o medo acabe."

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