Ontem, era janeiro, amanhã, começa o verão. As semanas sucedem-se a uma velocidade difícil de acompanhar, os meses confundem-se uns com os outros e, muitas vezes, temos a sensação de que “o tempo passa a correr”. Uma frase que ouço com regularidade dentro e fora do consultório.
Nunca tivemos tanto conforto, tantas ferramentas para poupar tempo e tantas formas de simplificar tarefas do quotidiano. Ainda assim, a sensação dominante parece ser a de que estamos sempre atrasados ou em falta. No meu livro Estou Sempre a Mil, utilizo o conceito de hiperestimulação para descrever esta experiência: vivermos rodeados por mais informação e estímulos do que aqueles que o nosso cérebro consegue processar.
Queremos responder a mensagens, terminar tarefas, acompanhar notícias, consumir conteúdos, manter relações, cuidar da saúde, evoluir na carreira e, de preferência, fazer tudo isto ao mesmo tempo. O descanso passou a ser sinónimo de culpa, abraçada à necessidade de merecimento: “só posso descansar se…”. Como se o descanso fosse a recompensa pelo esforço, quando, na realidade, é uma das condições que o torna possível.
O silêncio tornou-se desconfortável e o aborrecimento é de se evitar, porque, quando os estímulos desaparecem, a cabeça começa a fazer aquilo para que foi desenhada: pensar. E nem sempre gostamos do que encontramos, por isso, muitas vezes, preferimos a dormência dos estímulos rápidos.
Durante grande parte da história humana, a espera fazia parte da experiência quotidiana. Esperávamos por cartas, notícias, viagens ou respostas. Hoje, a tecnologia eliminou muitas dessas esperas. O paradoxo é que, ao reduzir o tempo de espera, aumentou a nossa dificuldade em tolerá-la. O cérebro humano não está preparado biologicamente para processar a quantidade de informação a que hoje está exposto. Ao longo de milhares de anos, evoluí-mos num contexto em que os estímulos relevantes eram limitados e tinham uma função clara: identificar perigos, procurar alimento, estabelecer relações sociais e garantir a sobrevivência. Hoje, em poucos minutos, podemos receber dezenas de notificações, consumir notícias, assistir a vídeos, responder a mensagens e alternar entre múltiplas tarefas. Nas minhas consultas, nunca ouvi alguém dizer “sinto que tenho pouco acesso a informação”. Em contrapartida, ouço frequentemente frases como “sinto-me sobrecarregado” ou “não consigo desligar”. A hiperestimulação resulta da quantidade de estímulos que ultrapassa a nossa capacidade de integrar e atribuir significado.
"O paradoxo é que, ao reduzir o tempo de espera, aumentou a nossa dificuldade em tolerá-la."
As plataformas digitais foram desenhadas para captar e manter a nossa atenção, oferecendo pequenas recompensas que despertam curiosidade e incentivam a procura do estímulo seguinte. O cérebro aprende através da repetição e, quanto mais repetimos um comportamento, maior a probabilidade de ele se tornar automático, como se existissem “marcadores” no nosso cérebro que nos dizem: “Repete, isto é bom!”. Ler um livro, aprender uma nova competência, construir uma relação ou permanecer em silêncio continuam a ser experiências profundamente recompensadoras, mas exigem o que a cultura valoriza cada vez menos, o tempo.
A investigação tem vindo a associar a sobrecarga de informações e o uso intensivo das redes sociais à fadiga cognitiva, ansiedade e dificuldades de concentração. A investigadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, verificou que o tempo médio que passamos concentrados numa atividade num ecrã passou de cerca de dois minutos e meio, no início dos anos 2000, para, aproximadamente, 47 segundos na atualidade. Segundo o Digital 2025 Global Overview Report, a utilização média das redes sociais ultrapassa atualmente as 2 horas e 20 minutos por dia. Isto representa mais de 850 horas por ano e, mantido este padrão, ao fim de uma década, teremos passado o equivalente a quase um ano inteiro agarrados às redes sociais.
Mas a hiperestimulação não resulta apenas da quantidade de tempo que passamos online. Resulta também da quantidade de realidade a que estamos expostos. Pela primeira vez na história, temos acesso quase ilimitado à informação e sabemos mais sobre o que se passa no mundo do que qualquer outra geração. O acesso à informação democratizou conhecimento e permitiu-nos compreender melhor realidades que antes nos passavam despercebidas. Ao mesmo tempo, expôs-nos a uma quantidade sem precedentes de sofrimento, conflito, indignação e impotência. Em poucos minutos, podemos passar de uma notícia sobre uma guerra para um desastre natural, de uma crise política para um vídeo com humor e daí para a vida aparentemente perfeita de alguém que nem conhecemos. O cérebro é constantemente obrigado a alternar entre contextos emocionais profundamente diferentes, muitas vezes, sem tempo para processar nenhum deles.
A esta realidade junta-se uma expectativa de que devemos estar informados sobre tudo e ter uma opinião sobre tudo. Somos convidados a reagir, comentar, partilhar e posicionar-nos quase em tempo real, apesar de compreender exigir tempo, pensar exigir contexto e a verdade raramente se mover à mesma velocidade que a informação. Não é por acaso que a desinformação encontra terreno fértil neste cenário. O Reuters Digital News Report de 2025 mostrou que 58% das pessoas consideram cada vez mais difícil distinguir informação online verdadeira de informação falsa. Quando a velocidade aumenta, a reflexão tende a diminuir, tornando mais fácil reagir antes de compreender.
A pressa manifesta-se também de formas menos óbvias. Já não basta trabalhar, é preciso evoluir profissionalmente; não basta fazer exercício, é preciso otimizar o desempenho; não basta descansar, é preciso descansar da forma correta; não basta ter relações, é preciso que sejam exemplares. A lógica da produtividade infiltrou-se em espaços antes reservados ao prazer e à espontaneidade. Talvez seja por isso que sentimos que o tempo passa cada vez mais depressa: está dividido entre aquilo que acabámos de fazer, aquilo que temos de fazer agora e aquilo que sentimos que devíamos estar a fazer a seguir. Roubamos espaço ao vazio, aos momentos em que podemos simplesmente existir.
Rita Gama Ferreira
Psicóloga clínica, autora do livro Estou Sempre a Mil e criadora de conteúdos digitais sobre a PHDA no adulto. O interesse e dedicação a esta área nasce da experiência na primeira pessoa, com um diagnóstico durante a vida adulta. Alia o seu percurso à prática clínica e à divulgação científica, promovendo uma abordagem integrativa, neuroafirmativa e baseada em evidência. É fundadora e diretora da Clínica RGF, que conta com uma equipa multidisciplinar com cerca de 30 profissionais, entre psicólogos, nutricionistas e médicos, dedicada à avaliação e intervenção nas neurodivergências.