Escrever uma biografia é um processo longo. Pesquisar profundamente a vida de uma pessoa, torná-la objeto de estudo para conseguir contar quem foi, o que fez, por onde andou, leva muito tempo. O resultado, principalmente para o leitor, é um envolvimento na vida de alguém até ali distante. No caso das autobiografias – como a de Rita Lee – isso torna-se ainda mais evidente, o leitor é convidado a entrar num sítio tão pessoal e cru que parece não autorizado.
Hoje sugerimos sete biografias de mulheres, que as imortalizam e impedem o seu esquecimento.
Rita Lee – Uma Autobiografia, de Rita Lee
Do primeiro disco voador à última overdose, Rita é consistente. Corajosa. Sem culpa nenhuma. Tanto que, ao ler o livro, várias vezes temos a sensação de estar diante de uma biografia não autorizada, tamanha a honestidade com que conta as histórias. A infância e os primeiros passos na vida artística; a prisão em 1976; o encontro de almas com Roberto de Carvalho; o nascimento dos filhos, das músicas e dos discos clássicos; os tropeços e as glórias. Está tudo aqui. E o leitor pode ter a certeza: esta é a obra mais pessoal que uma estrela rock lhe poderia oferecer.
Rita Lee tratou de tudo: escreveu, escolheu as fotos e criou as legendas – e até decidiu a ordem das imagens –, fez a capa, pensou na contracapa, nas badanas... Entregou o livro assim, totalmente pronto. Entregou-se a ela própria. Em livro.
O Poço e a Estrada, de Isabel Rio Novo
Agustina: uma mulher controversa, uma vida extraordinária, uma obra genial.
”Mas tenho uma história, e que história. […] Ninguém a conhece.” Era com estas palavras enigmáticas que, aos setenta anos, muito perto da viragem do século, Agustina Bessa-Luís perspetivava a sua existência. Já nessa altura contava com mais de cinquenta títulos, entre romances, contos, biografias, peças de teatro, ensaios, livros para a infância e de memórias, dialogando com a História, com a sociedade que a rodeava, com outros escritores, com outros artistas.
Desde cedo, Agustina revelou ter consciência de que não era uma pessoa convencional. Não foi uma criança comum. Não casou nas circunstâncias que se esperariam de uma rapariga da sua condição social. Não foi a típica esposa e mãe burguesa. Não foi a apoiante política esperada. Nunca se afirmou feminista, mas a sua história de vida foi mais radical e corajosa do que a de muitas feministas convictas. E, como escritora, raros são os que têm dúvidas em apontá-la como uma das mais geniais e complexas personalidades da literatura em língua portuguesa.
Através de uma pesquisa extensiva e rigorosa, baseada em dezenas de entrevistas, testemunhos, documentários, registos oficiais e textos epistolares, estabelecendo pontes constantes com a obra literária de Agustina, Isabel Rio Novo, uma das mais talentosas romancistas portuguesas da atualidade, reconstitui o percurso de vida de uma figura ímpar da nossa cultura contemporânea, numa biografia que se lê como um romance.
O Dever de Deslumbrar, de Filipa Martins
Intimidando pela verve de aríete e pela beleza, Natália Correia simbolizou, como poucos, as inquietações do século XX português. Precoce e radical no pensamento feminino, vítima de efabulações e de mitos, incompreendida e amada, lançou um olhar oracular sobre o seu tempo. Em tertúlias, que eram verdadeiras olimpíadas da confraternização lisboeta, o seu traço aglutinador envolvia, juntamente com o fumo dos cigarros, intelectuais e admiradores, que se irmanavam como párias e malditos em ideias e poemas de vanguarda.
Mulher deslumbrante e carismática, equiparada às maiores pensadoras europeias e às estrelas de Hollywood, atacou o Regime onde mais lhe doía – na moral caduca –, elegeu o erotismo como arma política e tornou-se a autora mais censurada da ditadura. Já no bar que fundou em Lisboa, fez e desfez governos à batuta da sua boquilha.
Nesta biografia, da autoria de uma das vozes mais seguras da nova literatura portuguesa, convivem a libertária e a conservadora, avessa a expor a sua atribulada vida íntima, a mulher que desprezava a política partidária e que nela viveu, inclusive como deputada; o espírito frágil e o temperamento intempestivo; o polémico exercício de funções diretivas em órgãos de imprensa e a defesa intransigente das causas maiores; e, em todas as páginas, as contradições e coerências de uma pensadora capaz de criar para si própria uma narrativa que não a torturasse pelas escolhas que fez.
Amália – A Biografia, de Vítor Pavão dos Santos
"Eu tinha um tipo de magnetismo que ainda hoje tenho. Chego a um palco qualquer e as pessoas estão imediatamente comigo (...)" É justamente esse magnetismo, esse encantamento natural, sem artifícios, que nos arrebata ao longo das páginas desta biografia.
Vítor Pavão dos Santos faz-nos sentir a presença viva de Amália, como se fossemos um amigo de longa data a quem ela conta, com graça e com ternura, a história da sua estranha forma de vida. É um retrato oral de Amália, na sua voz, que tomou corpo a partir de uma série de conversas que o autor teve com a diva do fado e que nos revela toda a sua trajectória, das primeiras actuações no Retiro da Severa ao apogeu, quando teve a seus pés o Olympia de Paris, o Savoy de Londres ou o Lincoln Center de Nova Iorque.
Uma obra impregnada de fascínio, que nos dá a justa medida do quanto Amália foi admirada, idolatrada e profundamente amada pelas muitas plateias que levou ao delírio ao cantar a sua alma, a alma lusa, a alma que é, afinal, a de toda a humanidade e que cabe, inteira, no abraço do seu nome.
À Procura da Própria Coisa, de Teresa Montero
A obra À Procura da Própria Coisa é a mais recente e completa biografia de Clarice Lispector e o resultado de mais de três décadas de pesquisa da professora Teresa Montero.
Clarice Lispector nasceu numa pequena cidade da Ucrânia, quando os pais rumavam ao Brasil para fugirem à perseguição dos judeus e à miséria que assolava a Rússia, após a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Bolchevique. Cresceu no Nordeste brasileiro, no Recife, onde sentiu pela primeira vez o drama social das classes menos privilegiadas. No Rio de Janeiro, tornou-se escritora, e o casamento com um diplomata com quem viveu em Nápoles, Berna, Torquay e Washington deu-lhe a experiência do desenraizamento da vida no estrangeiro.
Em À Procura da Própria Coisa destacam-se raridades encontradas em arquivos públicos, como a única entrevista de Clarice Lispector filmada no seu apartamento e os registos da escritora elaborados pela polícia política entre 1950 e 1973, que revelam novos aspetos da sua participação nos movimentos contra a ditadura militar no Brasil. Na trajetória literária, o relato pormenorizado da sua última viagem ao Recife (também documentada em imagens inéditas) ajuda a entender a composição da sua obra derradeira, A Hora da Estrela. A criação de A Paixão Segundo G.H. e Água Viva, a par com a faceta de Clarice como crítica literária na revista Senhor e mais de cem depoimentos são outras preciosidades reveladas neste volume.
À procura da própria coisa revela a construção de uma biografia como resultado de um trabalho coletivo; a autora apresenta Clarice como mulher cuja obra serve de base para se poder sentir e pensar com mais profundidade.
Hannah Arendt, de Samantha Rose Hill
Hannah Arendt é uma das mais renomadas pensadoras políticas do século XX, e a sua obra é de uma enorme atualidade. Nasceu na Alemanha em 1906 e publicou o seu primeiro livro aos 23 anos, antes de voltar as costas ao mundo da filosofia académica para se ocupar da ascensão do Terceiro Reich.
Depois da guerra, Arendt tornou-se uma das mais proeminentes intelectuais do seu tempo, publicando obras influentes como As Origens do Totalitarismo, A Condição Humana, Entre o Passado e o Futuro e Eichmann em Jerusalém.
Madonna – Uma Biografia, de Los Prieto Flores; il. Isa Muguruza
Esta biografia ilustrada é a bem merecida ode a um génio irrepetível e insondável e a uma carreira única cheia de sons controversos, sucessos intemporais, estratégias de marketing brilhantes e dezenas de músicas que compõem a banda sonora de várias gerações.