10 curiosidades sobre Agustina Bessa-Luís

Por: Marisa Sousa a 2024-06-03 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Agustina Bessa-Luís

Agustina Bessa-Luís

Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila Meã, Amarante, a 15 de outubro de 1922. A sua infância e adolescência são passadas nesta região, cuja ambiência marcará fortemente a obra da escritora. Estreou-se como romancista em 1948, com a novela Mundo Fechado, tendo desde então mantido um ritmo de publicação pouco usual nas letras portuguesas, contando com mais de meia centena de obras.
Representou as letras portuguesas em numerosos colóquios e encontros internacionais e realizou conferências em universidades um pouco por todo o mundo.
Foi membro do conselho diretivo da Comunitá Europea degli Scrittori (Roma, 1961-1962).
Entre 1986 e 1987 foi diretora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto). Entre 1990 e 1993 assumiu a direção do Teatro Nacional de D. Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Foi membro da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres (Paris), da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa, tendo sido distinguida com a Ordem de Sant'Iago da Espada (1980), a Medalha de Honra da Cidade do Porto (1988) e o grau de "Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres", atribuído pelo governo francês (1989).
É em 1954, com o romance A Sibila, que Agustina Bessa-Luís se impõe como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea. Conjugando influências pós-simbolistas de autores como Raul Brandão na construção de uma linguagem narrativa onde o intuitivo, o simbólico e uma certa sabedoria telúrica e ancestral, transmitida numa escrita de características aforísticas, se conjugam com referências de autores franceses como Proust e Bergson, nomeadamente no que diz respeito à estruturação espácio-temporal da obra, Agustina é senhora de um estilo absolutamente único, paradoxal e enigmático.
Vários dos seus romances foram já adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira, de quem foi amiga e com quem trabalhou de perto. Estão neste caso Fanny Owen ("Francisca"), Vale Abraão e As Terras do Risco ("O Convento"), para além de "Party", cujos diálogos foram igualmente escritos pela escritora. É também autora de peças de teatro e guiões para televisão, tendo o seu romance As Fúrias sido adaptado para teatro e encenado por Filipe La Féria (Teatro Nacional D. Maria II, 1995).
Em Maio de 2002 Agustina Bessa-Luís é pela segunda vez contemplada com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), relativo a 2001, com a obra "O Princípio da Incerteza - Jóia de Família", obra que Manoel de Oliveira adaptou ao cinema com o título "O Princípio da Incerteza", e que foi exibido dias antes da atribuição deste prémio, no Festival de Cannes.
Agustina Bessa-Luís foi distinguida com os prémios Vergílio Ferreira 2004, atribuído pela Universidade de Évora, pela sua carreira como ficcionista, e o Prémio Camões 2004, o mais alto galardão das letras em português.
Morreu dia 3 de junho de 2019, com 96 anos.

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“Os grandes da literatura têm também de ser grandes na vida.” 
Agustina Bessa-Luís

 

Hoje celebramos Agustina Bessa-Luís, uma figura incontornável da literatura e cultura portuguesa do século XX. Isabel Rio-Novo dedicou dois anos e meio intensos à missão de biografar esta mulher ímpar. Foi n’ O poço e a estrada (Contraponto) que mergulhamos para celebrar Agustina.


 


1. 15 de outubro de 1922. Em Vila Meã, nesse domingo, chovia torrencialmente. Ao final da tarde nascia, às 19h10, a segunda filha de Artur Teixeira Bessa e Laura Jurado Ferreira: Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa.

 

“Quando me dizem que tenho uma escrita torrencial, rio-me porque se me afigura que ela foi conduzida por essa tarde vitoriosa em que a chuva caía na terra, como prata e ouro juntos. Um nascimento tem o seu efeito na vida inteira”
Agustina Bessa Luís, Contemplação Carinhosa da Agustina, Lisboa, Guimarães Editores, 2000, p. 180.

 


2. Em criança gostava muito do Music Hall. Quando lhe perguntavam “O que é que queres ser quando cresceres?”, respondia: “Quero ser professora ou bailarina”.


3. Em 1934 fez, com distinção, o exame da quarta classe. Como prémio, os pais ofereceram-lhe uma boneca judia alemã, com a estrela de David gravada na nuca. Agustina batizou-a de Fernanda.
 

4. Aos quinze anos, achando-se “gorda”, começou a deixar de comer e seguiu uma receita  muito em voga, na altura, para emagrecer: começou a beber vinagre. Rapidamente lhe foi diagnosticado um quadro de anorexia. Isto viria a influenciar muitas das personagens que criou.
 

5. O pai ofereceu-lhe o livro A Selva, de Ferreira de Castro, alegando tratar-se do “melhor livro de um escritor português”. Após terminar a leitura, Agustina respondeu: “Se isto é o melhor livro de um escritor português, eu vou fazer o melhor livro de um escritor português”.
 

6. Frequentou o Salão Silva Porto, em Cedofeita, no Porto, uma galeria de arte que organizava cursos de desenho, pintura e escultura. Em casa, a partir de retratos publicados na revista Blanco y Negro, retratava atrizes e atores da época, em folhas A3.


7. No Primeiro de Janeiro de 5 de fevereiro de 1944, publica, na secção de Classificados, na categoria Diversos, o seguinte anúncio:

JOVEM INSTRUÍDA desej. corresp. c/pessoa intelig. e culta.
Resp. Admin. N.º 6145


Agustina recebeu cerca de 30 respostas ao anúncio, destacou cinco e ficou particularmente interessada numa delas, pela sua originalidade: incluía um desenho, “imaginando-a uma mulher sentada a ler, com um amplo vestido de roda.”. O autor era Alberto Luís, estudante de Direito, residente em Coimbra, apaixonado por História, Filosofia e Arte, com sentido de humor e intolerante em relação à mediocridade. Agustina e Alberto passaram a corresponder-se. Casaram-se um ano e meio depois, a 26 de julho de 1945. Alberto e Agustina - o “casal Garcia”, nas palavras de Agustina - estiveram juntos 70 anos.


8. A 10 de junho de 1947, o Jornal Via Latina anuncia o nome dos premiados dos jogos florais. Na categoria de conto, o vencedor era “o estudante de Direito Alberto de Oliveira Luís” – nada mais do que Agustina. O cenário e as vitórias repetiram-se.
 

9. Escreveu uma narrativa policial, Aquário e Sagitário, que permaneceria inédita até à década de 1990.
 

10. A 16 de janeiro de 1953, concluía A Sibila, com a qual concorreu ao prémio Delfim Guimarães, sob o pseudónimo Stavroguine (apelido da personagem principal do romance Os Demónios, de Dostoievski). A obra venceu o prémio, tendo sido publicada no ano seguinte.

 

“Uma boa história é a que nos comunica a consciência da nossa individualidade”.
Agustina Bessa-Luís

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