“Os grandes da literatura têm também de ser grandes na vida.”
Agustina Bessa-Luís
Hoje celebramos Agustina Bessa-Luís, uma figura incontornável da literatura e cultura portuguesa do século XX. Isabel Rio-Novo dedicou dois anos e meio intensos à missão de biografar esta mulher ímpar. Foi n’ O poço e a estrada (Contraponto) que mergulhamos para celebrar Agustina.
1. 15 de outubro de 1922. Em Vila Meã, nesse domingo, chovia torrencialmente. Ao final da tarde nascia, às 19h10, a segunda filha de Artur Teixeira Bessa e Laura Jurado Ferreira: Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa.
“Quando me dizem que tenho uma escrita torrencial, rio-me porque se me afigura que ela foi conduzida por essa tarde vitoriosa em que a chuva caía na terra, como prata e ouro juntos. Um nascimento tem o seu efeito na vida inteira”
Agustina Bessa Luís, Contemplação Carinhosa da Agustina, Lisboa, Guimarães Editores, 2000, p. 180.
2. Em criança gostava muito do Music Hall. Quando lhe perguntavam “O que é que queres ser quando cresceres?”, respondia: “Quero ser professora ou bailarina”.
3. Em 1934 fez, com distinção, o exame da quarta classe. Como prémio, os pais ofereceram-lhe uma boneca judia alemã, com a estrela de David gravada na nuca. Agustina batizou-a de Fernanda.
4. Aos quinze anos, achando-se “gorda”, começou a deixar de comer e seguiu uma receita muito em voga, na altura, para emagrecer: começou a beber vinagre. Rapidamente lhe foi diagnosticado um quadro de anorexia. Isto viria a influenciar muitas das personagens que criou.
5. O pai ofereceu-lhe o livro A Selva, de Ferreira de Castro, alegando tratar-se do “melhor livro de um escritor português”. Após terminar a leitura, Agustina respondeu: “Se isto é o melhor livro de um escritor português, eu vou fazer o melhor livro de um escritor português”.
6. Frequentou o Salão Silva Porto, em Cedofeita, no Porto, uma galeria de arte que organizava cursos de desenho, pintura e escultura. Em casa, a partir de retratos publicados na revista Blanco y Negro, retratava atrizes e atores da época, em folhas A3.
7. No Primeiro de Janeiro de 5 de fevereiro de 1944, publica, na secção de Classificados, na categoria Diversos, o seguinte anúncio:
JOVEM INSTRUÍDA desej. corresp. c/pessoa intelig. e culta.
Resp. Admin. N.º 6145
Agustina recebeu cerca de 30 respostas ao anúncio, destacou cinco e ficou particularmente interessada numa delas, pela sua originalidade: incluía um desenho, “imaginando-a uma mulher sentada a ler, com um amplo vestido de roda.”. O autor era Alberto Luís, estudante de Direito, residente em Coimbra, apaixonado por História, Filosofia e Arte, com sentido de humor e intolerante em relação à mediocridade. Agustina e Alberto passaram a corresponder-se. Casaram-se um ano e meio depois, a 26 de julho de 1945. Alberto e Agustina - o “casal Garcia”, nas palavras de Agustina - estiveram juntos 70 anos.
8. A 10 de junho de 1947, o Jornal Via Latina anuncia o nome dos premiados dos jogos florais. Na categoria de conto, o vencedor era “o estudante de Direito Alberto de Oliveira Luís” – nada mais do que Agustina. O cenário e as vitórias repetiram-se.
9. Escreveu uma narrativa policial, Aquário e Sagitário, que permaneceria inédita até à década de 1990.
10. A 16 de janeiro de 1953, concluía A Sibila, com a qual concorreu ao prémio Delfim Guimarães, sob o pseudónimo Stavroguine (apelido da personagem principal do romance Os Demónios, de Dostoievski). A obra venceu o prémio, tendo sido publicada no ano seguinte.
“Uma boa história é a que nos comunica a consciência da nossa individualidade”.
Agustina Bessa-Luís