Natália Correia escreveu, pensou, discutiu e criou lugares de discussão. Faria hoje, dia 13 de setembro, 100 anos. Era escritora e poetisa, como, aos 50 anos, preferia ser chamada: “declaro que, por mais abandalhada que esteja a palavra, exijo, com toda a força feminina que me dita os versos, que me chamem poetisa”. Nasceu em São Miguel, nos Açores, mas foi em Lisboa que se tornou marco da cultura portuguesa. Mudou-se para a capital aos 11 anos com a mãe e a irmã, depois de o pai se ter mudado para o Brasil.
Foi a escritora mais censurada durante o Estado Novo, mas, ainda assim, a sua obra continua a ser das menos lidas, estudadas e ensinadas entre autores do século XX. No café Gelo, partilhou a mesa com Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Herberto Helder, Cruzeiro Seixas, entre outros surrealistas que ali se reuniam. Organizava tertúlias em casa e, mais tarde, no café Botequim, que abriu com Isabel Meyrelles. Era um espaço de reunião, todos passavam por lá, desde capitães de Abril a figuras da direita mais conservadora. E discutiam pela noite dentro, sempre com Natália no centro. Se alguém entrava, virava-se para a porta (estava sempre de costas), cumprimentava e convidava para se sentar. Ou não dizia nada e continuava a conversa.
Aos 40 anos, Natália já tinha publicado seis volumes de poesia: Rio de Nuvens (1949), Poemas (1955), Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1959) e Cântico do País Emerso (1961). Ainda um livro para crianças (Grandes Aventuras de um Pequeno Herói, 1845), o romance Aconteceu no Bairro (1946), um livro de viagens (Descobri que era Europeia, 1951), duas peças de teatro (Sucubina ou a Teoria do Chapéu, 9952, e O Progresso de Édipo, 1957) e os ensaios Poesia de Arte e Realismo Poético (1959) e A Questão Académica (1962). Até ao final da vida foram quatro romances, 19 livros de poesia, sete peças de teatro e cinco ensaios.
Em 1965, publicou a Antologia de Poesia Erótica e Satírica. «A poesia maldita dos nossos poetas», «as cantigas medievais em linguagem atualizada», «dezenas de inéditos» e «a revelação do erotismo de Fernando Pessoa» lia-se na cinta da versão original. A obra foi apreendida pela PIDE e deu origem a um processo judicial do qual Natália só se livrou depois do 25 de Abril. Foi republicada em 2019, com as ilustrações originais de Cruzeiro Seixas, novos textos introdutórios e documentos que contextualizam a altura da publicação.
Iniciou a militância política, em 1978, no PSD, num congresso no cinema Roma, em Lisboa. Sá Carneiro usou a inscrição da escritora como forma de renovação de poder interno no partido. Natália foi deputada e votou a favor da despenalização do aborto, indo contra a posição do partido. O primeiro debate ficou marcado na história do Parlamento pelas palavras da escritora. João Morgado, na altura deputado do CDS, defendeu que o sexo só servia para procriar. Natália escreveu um poema como resposta:
“Já que o coito – diz o Morgado
tem como fim cristalino
preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca
temos na procriação
prova de que houve truca-truca
Sendo pai só de um rebento
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa exceção
ficou capado o Morgado”.
O Dever de Deslumbrar, a biografia de Natália Correia escrita por Filipa Martins e publicada em março, parece estar a trazer um novo fulgor à obra da escritora sobre quem muito se fala, mas pouco se lê.
Entre Lisboa, Açores e um pouco por todo o país, são centenas as iniciativas que, nos próximos meses, assinalam o centenário de Natália Correia. Desde mostras e encontros a peças de teatro e exposições. “O Homúnculo”, sátira dos anos 60, censura pela ditadura, vai estar em cena no Teatro da Malaposta em Odivelas. Nos próximos dias, chegará às livrarias uma reedição de O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro, escrito em 1973.