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Costuma dizer-se que os historiadores só podem fazer História cinquenta anos após os acontecimentos. Esta é a situação do 25 de Abril? Mais do que passados cinquenta anos, penso que é sempre necessário deixar correr o tempo para que o que nós escrevamos e digamos sobre os acontecimentos não os vá alterar, ou seja, podemos e devemos refletir e escrever historicamente sobre acontecimentos, ciclos e processos que estão encerrados. Pode-se, por isso, comentar ou fazer trabalho jornalístico, mas, para se ter a perspetiva histórica, é sempre necessário existir algum distanciamento. Pode-se até contrapor que existe uma história do tempo presente, mas esta será sempre mais provisória do que a História é. No caso do 25 de Abril, como já passaram cinquenta anos, o ciclo está encerrado e tudo o que se diga ou escreva sobre esse momento não irá alterar a conclusão do processo.
Fernando Oliveira era uma “criança” quando começou a trabalhar na Bertrand. A 21 de janeiro de 1973 — tem a data na ponta da língua — era tudo “completamente diferente do que é agora”. Cada ficha de cada livro era feita à mão e até se recorda de ir à estação buscar os livros novos, que vinham pelo correio. Tudo era feito naquela livraria Bertrand, na rua Sacadura Cabral, em Viana do Castelo: “o arquivo, a classificação, o contacto com os fornecedores, com alguns autores também”.
Esta é a segunda parte da entrevista a Sérgio Godinho, publicada na Revista Somos Livros (edição Mês do Livro 2024).
Sérgio Godinho viveu muitas vidas desde o 25 de Abril, pautadas por “muita música” e “muita mudança do regime democrático”. Tinha 20 anos quando deixou Portugal e foi para a Suíça estudar psicologia — o Porto sufocava-o porque precisava de “ter mundo”, mas garante que de psicologia pouco ou nada aprendeu. Não respondeu à chamada para a Guerra Colonial e partiu para outros voos. Trabalhou na cozinha de um barco e, em Paris, foi parte ativa das revoltas estudantis no Maio de 68. Sabia que, se não fosse a música, seria o teatro ou o cinema, e fez de tudo um pouco. Em Paris, fez parte do musical Hair, que retratava a Guerra do Vietname numa altura em que estava no seu “pico”. Em abril de 1974, estava em Vancouver a ensaiar para uma peça, mas rapidamente se mudou para Portugal porque era neste país plantado à beira-mar que tudo estava a acontecer. Passados 50 anos, continua a dar concertos e a gostar de subir ao palco. O “escritor de canções” abriu-nos a porta de sua casa, dias depois de ter lançado o seu terceiro romance Vida e Morte nas Cidades Geminadas, uma história de emigração, família, amor e identidade, que nasce de um “diálogo insólito […] do qual resulta a geminação de duas cidades”.
Eu penso que o fator determinante foi a Guerra Colonial. Talvez sem Guerra Colonial, poderíamos ter tido uma transição para a democracia mas de outra forma, não por rutura como foi, dia 24 sob um regime, dia 26 já estávamos noutro. Mas a Guerra Colonial foi muito importante pelo facto de Marcello Caetano, quando substituiu Salazar, ter prometido uma certa liberalização mas ao mesmo tempo ter continuado a Guerra Colonial e portanto, estava derrotado à partida. Transformou Portugal numa panela de pressão à espera de um movimento, e foi então que os militares o lançaram.
“A História é escrita pelos vencedores”, é uma afirmação atribuída a George Orwell, mas reiterada por Irene Flunser Pimentel que, no 50º aniversário do 25 de Abril, dedicou um livro ao lado menos conhecido de um período tumultuoso da História de Portugal. Em Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975 - Episódios menos Conhecidos (Temas e Debates), a autora e investigadora doutorada em História Institucional e Política Contemporânea, recupera diferentes testemunhos e pontos de vista para uma compreensão global dos eventos que antecederam e sucederam a Revolução, culminando no controverso 25 de novembro de 1975. Em conversa para a revista Somos Livros, falou dos motivos que a levaram a querer escrever este livro, da origem do desconhecimento em relação a alguns dos episódios evocados e das suas memórias sobre aquele que foi, nas suas palavras, o dia mais feliz da sua vida.
Está a escrever o terceiro romance — o segundo demorou sete anos até sair, por isso podemos esperar. Ganhou um dos prémios literários mais importantes, o Booker Prize, e confessa que nesse momento só sentiu terror.
Esta é a segunda parte da entrevista a Sara Carinhas, publicada na Revista Somos Livros (edição Natal 2023).
"Continuo a acreditar que o amor de que eu falo — que é o da bell hooks, um amor em ação, não um amor só romântico ou romatizado, mas um amor ativo, do dia-a-dia e de todos os gestos — pode ser a salvação."
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