Esta é a segunda parte da entrevista a Irene Flunser Pimentel, publicada na Revista Somos Livros (edição Mês do Livro 2024). Leia aqui a primeira parte.
A segunda parte do livro refere-se então ao dia em que triunfou a democracia, na qual faz quase uma cronologia das 24 horas do 25 de Abril de 1974. Qual foi para si o fator determinante do sucesso da Revolução?
Eu penso que o fator determinante foi a Guerra Colonial. Talvez sem Guerra Colonial, poderíamos ter tido uma transição para a democracia mas de outra forma, não por rutura como foi, dia 24 sob um regime, dia 26 já estávamos noutro. Mas a Guerra Colonial foi muito importante pelo facto de Marcello Caetano, quando substituiu Salazar, ter prometido uma certa liberalização mas ao mesmo tempo ter continuado a Guerra Colonial e portanto, estava derrotado à partida. Transformou Portugal numa panela de pressão à espera de um movimento, e foi então que os militares o lançaram.
Falava há pouco nas incógnitas que existem em relação ao 25 de Novembro, no qual se foca a terceira e última parte do livro, e que descreve como estando envolto numa espécie de “efeito Rashomon”, isto é, existem múltiplas interpretações sem possibilidade de atingir uma verdade absoluta. Na sua opinião, o que é que está na origem deste fenómeno?
Eu penso que tem a ver com as pessoas na altura estarem muito divididas por partidos políticos. Os militares também estavam divididos em várias correntes, havia os militares do Grupo dos Nove, havia os militares à volta do COPCON, e havia os militares à volta do Vasco Gonçalves, mais próximos do PCP… e portanto todos eles estavam divididos relativamente ao que seria o futuro mais próximo e o que se pretendia para a democracia portuguesa. E da mesma forma, também os partidos de direita. E portanto em relação ao que aconteceu no 25 de Novembro, eu publico sobretudo muitos testemunhos e, ao fim ao cabo, assim como eu cito os testemunhos e tive acesso a eles, gostaria também que o próprio leitor formasse a sua própria opinião. Eu diria que em relação ao 25 de Novembro, ninguém está a mentir, mas está cada um a dar a sua versão dos acontecimentos e, claro, os vencedores têm tendência para fazerem prevalecer a sua versão.
Como é que vê a posição de algumas figuras políticas que defendem que o 25 de Novembro foi o dia em que a democracia finalmente venceu e como tal merece ser comemorado nos 50 anos do 25 de Abril?
Eu acho completamente errado, acho que o dia do triunfo da democracia é o 25 de Abril. A seguir, houve um processo conflituoso com várias figuras que protagonizaram as várias opções políticas que existiam, era também um tempo de ideologias, e o 25 de Novembro, quanto a mim, é uma das etapas do próprio 25 de Abril. Ao 25 de Abril seguiu-se o 28 de setembro, Spínola teve um momento de hegemonia e a 28 de setembro acaba por ser derrotado, depois tenta um golpe de estado a 11 de março de 1975 onde também sai derrotado, dá-se a independência das colónias que tem muita influência sobre todo o processo, o processo revolucionário português a nível interno, e o 25 de Novembro é a passagem de um processo revolucionário para uma transição para a democracia, segundo o modelo Ocidental das democracias burguesas.
Entre os episódios menos conhecidos que relata no livro, há algum que gostaria especialmente que fosse trazido à luz, que fosse mais conhecido e falado nos dias de hoje?
Assim que me lembre agora, seria o que se passou ao nível da PIDE durante todo o dia 25 de Abril. Eu penso que os quatro mortos muitas vezes são esquecidos, apesar de sabermos os nomes e as caras deles, haverem livros sobre eles e ir também sair um filme sobre isso (Revolução (sem) sangue, de Rui Pedro Sousa), um filme de ficção mas baseado na realidade.. eu acho que é muito importante recordar esse aspeto. Depois, acho muito engraçado a forma como as embaixadas dos países Ocidentais e também as agências secretas, por exemplo, a CIA, não deram por nada porque a fonte de informação que tinham eram os militares da hierarquia e a própria PIDE. E como não foram informados do que se estava a passar a nível dos militares, aquilo para eles foi uma surpresa.
Que memórias guarda desse “dia inicial inteiro e limpo”?
Pessoalmente, eu digo sempre, como muitas pessoas da minha geração que foram ativas politicamente antes do 25 de Abril, que foi o dia mais feliz das nossas vidas, e o mais importante. Eu não diria que é o próprio 25 de Abril porque nesse dia nós não sabíamos muito bem de que lado estavam os Capitães e se iriam enveredar por uma democracia ou se, antes pelo contrário, era um golpe de estado da extrema direita, porque também houve esse perigo. Mas cedo se começou a perceber que era um golpe de estado que iria estabelecer a democracia, sobretudo pela importância da rádio e da música, pois a partir do momento em que se deixou de ouvir a música militar dos comunicados do MFA e se começou a ouvir a música de intervenção e das baladas, Zeca Afonso e outros, começámos a perceber que de facto tinha sido dada, por fim, a possibilidade de escolher à própria população. Para mim, foi o dia que abriu tudo, o dia que nos deu a liberdade, o perigo de eu ser presa desapareceu, e ficou tudo em aberto.