Fernando Oliveira era uma “criança” quando começou a trabalhar na Bertrand. A 21 de janeiro de 1973 — tem a data na ponta da língua — era tudo “completamente diferente do que é agora”. Cada ficha de cada livro era feita à mão e até se recorda de ir à estação buscar os livros novos, que vinham pelo correio. Tudo era feito naquela livraria Bertrand, na rua Sacadura Cabral, em Viana do Castelo: “o arquivo, a classificação, o contacto com os fornecedores, com alguns autores também”.
Quando começou a trabalhar na Bertrand, Portugal ainda vivia sob jugo de um regime autoritário. Conta que o primeiro gerente daquela livraria, Aires Esteves, foi muito perseguido pela polícia política, acabando por falecer devido a problemas que desenvolveu no tempo em que esteve preso. Por isso, “sempre houve uma conotação bastante interessante na livraria”. Havia livros proibidos atrás de prateleiras falsas e os clientes habituais sabiam que “quando havia qualquer coisa especial”, era ali, naqueles fundos falsos, que a iam encontrar escondida.
A censura instituiu-se com a Ditadura Militar de 1926, mas só com o Estado Novo (1933-1974) ficou cimentada em fortes alicerces. A 29 de junho de 1933, é criada a Direção-Geral dos Serviços de Censura. No mesmo ano, um relatório desse organismo propunha que os livreiros entregassem listas das publicações de “caráter político ou social” e que “afetem a moral pública”. Isto porque havia falta de pessoal e a ineficácia no controlo dos livros incomodava Salazar. De 1934 em diante, a polícia política apreendia exemplares em livrarias, editoras e buscas domiciliárias, e as artes foram sendo, aos poucos, silenciadas.
De 1934 em diante, a polícia política apreendia exemplares em livrarias, editoras e buscas domiciliárias, e as artes foram sendo, aos poucos, silenciadas.
A livraria Bertrand de Viana do Castelo não era a única que escondia livros proibidos, Fernando Oliveira garante que era prática comum. Jorge Ribeiro trabalhou na Bertrand entre 1975 e 2019 — começou no armazém, foi livreiro e, depois, gerente na zona do Porto. O pai, António Ribeiro, era gerente durante o Estado Novo e chegou a ser interrogado pela PIDE. Deixaram-no fechado numa sala durante duas horas. Também naquela Bertrand havia livros proibidos para pessoas “que não iam levantar nenhum problema” nem “alertar” a polícia política, ficavam guardados debaixo do balcão. Numa das visitas da PIDE à livraria, apreenderam todos os exemplares que lá encontraram de Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, e levaram o gerente da livraria para as instalações da PIDE no Porto. Na altura, Manuel Boullosa detinha a Bertrand e bastou uma chamada para destrancarem a porta e tratarem António Ribeiro com mordomias, “a conversa mudou radicalmente”, foi assim que António Ribeiro contou a história ao filho.
As apreensões acumuladas formaram a Biblioteca dos Serviços de Censura, assaltada pela população no dia 26 de abril de 1974. Mas a própria designação “biblioteca” é discutível. Se procurarmos a palavra na Infopédia, o primeiro significado é: “coleção de livros pertencentes a uma pessoa particular ou destinados à leitura do público”. Se olharmos para a palavra desta forma, este arquivo da Censura era o contrário de uma biblioteca: uma coleção privada de livros que não podiam ser lidos, usados apenas como referência, no caso de surgir alguma reclamação, pedido de reedição ou tradução de livros importados.
“Inconveniente”, “pornográfico”, “comunista”, “imoral”: tudo palavras que justificavam a proibição de circulação de várias obras. No relatório de Censura de Apresentação do Rosto, de Herberto Helder, o “leitor”, Joaquim Pilhares, considera que a autobiografia do autor “de índole esquerdista” nem constituiria um problema, se não fossem as “passagens de grande obscenidade”. Em Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, o problema era a insistência na “emancipação da mulher em todos os seus aspetos, através de histórias e reflexões” e outras passagens “chocantes por imorais”. A conclusão: proibir o livro e enviá-lo para a Polícia Judiciária, para a instrução de um processo-crime. Já em 1945, em entrevista ao Diário de Lisboa, Ferreira de Castro alertava para os impactos danosos desta prática: “O que se tem estado a fazer em Portugal é desfalcar o futuro do legado espiritual que lhe podíamos deixar”.
Depois de Abril
João Firmino distribuía livros, foi a primeira função que teve na Bertrand, em 1973. Era um “miúdo”, tinha 17 anos. Chegou a ir a casa do então primeiro-ministro Marcello Caetano, do, à data, Presidente da República Américo Thomaz, de Vitorino Nemésio e Vergílio Ferreira. No dia 25 de Abril de 1974, ia trabalhar como noutro dia qualquer e, como noutro dia qualquer, tinha de passar pelo Largo do Carmo. Recorda-se da confusão e de ser apanhado de surpresa. Do pós-revolução, lembra-se de que foi um período de “muita turbulência”; antes, era tudo “muito fechado” e, a partir daí, as pessoas puderam “começar a falar e manifestar-se”. Ainda andou a trabalhar na distribuição até finais de 1974, mas, depois, “aproveitaram” o seu domínio da língua francesa — andava a estudar à noite — e mudou e cargo: passou a conferir a mercadoria que vinha de França. Em 1976, foi para a tropa e por lá ficou durante 18 meses. Rapidamente voltou à livraria, em 1978, começou a trabalhar, desta vez, como livreiro, na agora extinta Bertrand Malpique.
O fim da instituição da censura foi declarado formalmente com a aprovação da Constituição de 1976, que consagra os direitos às liberdades de expressão, informação e criação cultural. Passou a haver “uma busca pela literatura que não era acessível antes”, conta Jorge Ribeiro, antigo gerente da Bertrand na zona do Porto. Depois da Revolução, organizavam-se muitos debates e tertúlias na livraria, muitas vezes com os próprios escritores, que interagiam com os leitores e autografavam os livros. O pai de Jorge, que começou a trabalhar na Bertrand ainda nos anos 40, contava-lhe que, antes do 25 de Abril, era quase impossível organizar uma sessão de autógrafos: “ou era alguém a favor do Regime ou, se fosse alguém sobre quem houvesse alguma suspeita, nem era permitido fazer nenhuma sessão”.
Mais a norte, de volta a Viana do Castelo, a liberdade chegou com muita vontade de levar livros a sítios com pouco acesso a eles. Fernando Oliveira recorda especialmente o Ano Internacional da Criança, celebrado em 1979: “A gente fez bastantes exposições de livros em sítios que nunca tinham tido acesso a manusear um livro”. Em cima de tábuas de construção, para toda a gente, “em zonas mais esquisitas do que se pode acreditar”. Olha para trás, para esses tempos, com alegria. Muitos anos depois, quando já estava na segunda livraria Bertrand aberta em Viana do Castelo, havia quem ainda recordasse essas exposições de que tinha feito parte.


Cerimónia dos 250 anos da Bertrand em 1982, presidida pelo Presidente da Républica Portuguesa, General António Ramalho Eanes
As colaborações começaram a estender-se. Fernando Oliveira lembra que, apesar de a livraria na rua Sacadura Cabral ser pequena e Viana do Castelo ser “uma cidade relativamente pobre”, tinha uma ligação muito forte com todo o Alto Minho e com a Galiza — com as universidades de Vigo e de Santigo de Compostela, em particular. “O trabalho partia muito da loja, mas também era exterior”, continua. Era preciso conquistar novo público e, para o fazer, era preciso sair. As escolas foram uma parte muito importante desse processo, havia uma relação muito forte, que se foi cultivando ao longo dos anos: “Ainda hoje muitas escolas e bibliotecas municipais estão muito ligadas ao nosso trabalho”. Faziam feiras, levavam autores e livros às escolas, para que as crianças e jovens os pudessem conhecer e fazer todas as perguntas que achassem necessárias e, assim, aproximá-los não só da literatura, mas da livraria enquanto espaço de conhecimento. Em Vigo e Santiago de Compostela, a lógica era semelhante (também iam às cidades com os autores e respetivos livros), mas havia ainda o propósito de divulgar a língua portuguesa e apoiá-la.
Fizeram parte da 1.ª Mostra do Livro Português em Ourense e participaram nas primeiras feiras do livro no Norte. Até que, colheram os frutos: “para muitas pessoas, o ponto de referência era a Bertrand de Viana [do Castelo]”. Aos sábados de manhã, aquela livraria era um “ponto de tertúlia”, conta com saudades. Vinham pessoas de todos os sítios, “do Porto, de Lisboa” e, com o tempo, a palavra espalhou-se e eram cada vez mais. “Era um ambiente diferente, são daqueles momentos que nos marcam”. Foi assim até 2000, mais ou menos, “quando essas pessoas [que ali se juntavam] começaram a partir”.

José Saramago numa sessão de autógrafos na livraria Bertrand de Viana do Catelo, com o livreiro Fernando Oliveira
“Era uma coisa, passou a ser outra”: o que se lia depois de 1974
“Os livros de política ou eram vendidos às escondidas ou nem sequer se publicavam” antes do 25 de Abril, “era uma coisa, passou a ser outra”. Depois, afirma João Firmino, antigo gerente da Bertrand na zona de Lisboa, esses eram os livros mais procurados — refere o enorme sucesso do controverso Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsin. Passou a haver uma maior “abertura a esses temas”, não só para comprar, como para publicar.
Já Jorge Ribeiro destaca outro género literário. Não tem dúvidas de que o romance nunca deixou de ser o mais procurado, mas, naquela altura, os livros sobre arte tiveram um pico. Ao longo do tempo, essa tendência ficou praticamente extinta. “Naquela altura, quem ia às livrarias… Não devia ser assim, mas, na altura, era uma classe média alta e isso refletia-se nessas escolhas”. Tintim, de Hergé, e Astérix & Obélix, de René Goscinny e Albert Uderzo, também se “vendiam muito bem”. Era na relação com o cliente que Jorge Ribeiro encontrava maior satisfação. Tem muitas histórias — tantas que é impossível recordar todas — e leva uma grande paixão pela profissão que herdou do pai. Costumava dizer-lhe: “Quem vai para livreiro ou gosta ou não gosta. É uma universidade, é uma escola autêntica. Aqui, aprende-se”.