Maria Inácia Rezola: “É preciso trabalhar para manter o que foi conquistado com o 25 de abril.”

Por: João Céu e Silva a 2024-04-16

Maria Inácia Rezola

Maria Inácia Rezola

Maria Inácia Rezola é doutorada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigadora do Instituto de História Contemporânea da mesma faculdade, onde dirige a linha de investigação «Revolução e Democracia». Leciona na Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa. Tem uma ampla experiência no domínio da investigação, tendo dirigido e integrado numerosas equipas de trabalho em colaboração com diferentes instituições. A sua área de especialização é a História de Portugal no século XX, com particular incidência nos períodos do Estado Novo e da Revolução de Abril. Das suas publicações destacam-se 25 de Abril, Mitos de uma Revolução (Lisboa: Esfera dos Livros, 2007); Os Militares na Revolução de Abril. O Conselho da Revolução e a transição para a democracia em Portugal (Lisboa: Campo da Comunicação, 2006). António de Spínola in Fotobiografias do Século XX (Lisboa: Círculo de Leitores, 2002); Os Presidentes da República, coord. de António Costa Pinto e Maria Inácia Rezola (colab.) (Lisboa: Temas e Debates, 2001); O Sindicalismo Católico no Estado Novo (Lisboa: Editorial Estampa, 1999).

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Maria Inácia Rezola é a Comissária Executiva da Estrutura de Missão do 50.º aniversário da Revolução do 25 de Abril de 1974. Doutorada em História, docente e investigadora na área de História Institucional e Política Contemporânea, autora de vários livros e trabalhos sobre o tema. Considera que a sua vasta experiência como historiadora é benéfica para o cargo: «Principalmente no que respeita à dimensão histórica das comemorações, sendo uma mais-valia ter o conhecimento do processo histórico e dos protagonistas que estudei e investiguei durante décadas».
 

Costuma dizer-se que os historiadores só podem fazer História cinquenta anos após os acontecimentos. Esta é a situação do 25 de Abril?

Mais do que passados cinquenta anos, penso que é sempre necessário deixar correr o tempo para que o que nós escrevamos e digamos sobre os acontecimentos não os vá alterar, ou seja, podemos e devemos refletir e escrever historicamente sobre acontecimentos, ciclos e processos que estão encerrados. Pode-se, por isso, comentar ou fazer trabalho jornalístico, mas, para se ter a perspetiva histórica, é sempre necessário existir algum distanciamento. Pode-se até contrapor que existe uma história do tempo presente, mas esta será sempre mais provisória do que a História é. No caso do 25 de Abril, como já passaram cinquenta anos, o ciclo está encerrado e tudo o que se diga ou escreva sobre esse momento não irá alterar a conclusão do processo.

 

O que se fizer de História agora poderá acrescentar novidades?

Sim, temos à nossa disposição dados novos que são muito importantes, porque após ter existido uma primeira geração de jornalistas, de historiadores e de investigadores que escreveram sobre esse período, e que foram simultaneamente atores ativos desse mesmo processo, vemos agora emergir uma nova geração, que já não tem um registo memorialístico e que pode trabalhar não só com base nos estudos anteriores, como aportar uma nova visão, a de quem não viveu, não sentiu, nem "cheirou" em pessoa esse ambiente.

 

Será uma visão em muito diferente da anterior?

Poderá ser diferente, tanto que temos já alguns estudos que permitem dar atenção a acontecimentos que para os protagonistas, não foram importantes e que irão trazer novas perspetivas sobre assuntos que até aqui não lhes era dada uma importância e que passaram a ter. Um dos casos paradigmáticos encontra-se em aspetos do quotidiano, bem como no dos movimentos sociais que têm sido analisados apenas numa perspetiva macro. Esse novo conteúdo pode ser muito importante para a renovação dos estudos sobre o 25 de Abril e da Revolução entre 1974 e 1975.

 

É autora de várias obras sobre o 25 de Abril. Este é um cargo no qual se sente à vontade?

Sim, ainda que, na posição em que estou, muitas vezes, tenha mais preocupações e trabalho administrativo do que científico. É evidente que se tornaram numa mais-valia para mim os conhecimentos que tenho na área, mas, se não estivesse neste cargo, estaria a fazer coisas mais interessantes sobre a História deste período. Mesmo assim, ainda fiz parte do trio de investigadores que entrevistaram Rui Vilar, com Pedro Magalhães e António Araújo, para um livro sobre a sua experiência de vida pública centrada na atividade política e que contém uma parte muito substancial sobre o 25 de Abril, através de um relato memorialista, como é o caso da sua experiência governativa no II Governo Provisório.

 

A interpretação sobre o 25 de Abril continua a gerar muitas opiniões diferentes? 

Sempre. Não há uma unanimidade sobre a data e, o que é mais curioso, é que uma das polémicas de fundo, das muitas que existem no tema, é sobre o papel relativo dos atores do processo. Classicamente, consideram-se os militares, os políticos e os movimentos sociais, e cada uma dessas correntes argumentam em favor do seu protagonista de eleição. No entanto, em rigor, nenhuma leitura do processo pode ser feita sem ter em conta estes três atores. Portanto, é muito interessante descobrir a interação entre essas perspetivas e, ao ganhar-se tempo e distância, poder retirar a cada uma das interpretações aquilo com que mais nos identificamos. O trabalho do historiador é sempre uma interpretação e, por isso, sobre o 25 de Abril, existem muitas histórias e, se tudo correr bem, essa diversidade irá manter-se e até surgirão novas histórias. Afinal, a História é uma interpretação que depende de quem a faz e de quem a escreve, o que originará sempre leituras diferentes.

 

“O trabalho do historiador é sempre uma interpretação e, por isso, sobre o 25 de Abril, existem muitas histórias e, […]. Afinal, a História é uma interpretação que depende de quem a faz e de quem a escreve”


Uma das figuras que aparece sempre como emblemática é a de Salgueiro Maia. É um protagonismo aceite por todos? 

Salgueiro Maia é um desses casos porque a sua figura é, provavelmente, uma das mais interessantes. Aliás, se tivermos em conta o cruzamento do registo da História e da memória, ele é por todos inequivocamente associado como símbolo do 25 de Abril. No entanto, poucas pessoas, principalmente fora do âmbito da História, conhecem o desenvolvimento do seu percurso dentro da própria Revolução. Daí que seja importante investigar e estudar mais em profundidade a sua figura, já que muitos nem o associam a situações como a do 11 de Março ou a do 25 de Novembro, sendo para o senso comum somente o símbolo do dia 25 de Abril.

 

Porque não se avançou ainda nessa investigação mais completa sobre Salgueiro Maia, apesar de terem decorrido cinquenta anos? 

Creio que será por uma questão de fontes. Não me parece que existam fundos documentais suficientemente amplos e apelativos que tenham levado a que se fizessem novos estudos sobre a figura.

 

Mais conhecido sob todos os aspetos, é a figura de Otelo Saraiva de Carvalho. É fácil enquadrá-lo nestas comemorações devido às suas facetas mais polémicas?

Otelo Saraiva de Carvalho, tal como Salgueiro Maia, estará sempre associado ao dia 25 de Abril e a toda a operação que levou ao fim da Ditadura. Ele foi o coordenador do plano militar, mas contava com muitos outros envolvidos nessa operação, por exemplo, o seu braço-direito, Luís Macedo, que trabalhou diretamente na preparação e planificação do golpe, bem como o general Garcia dos Santos. Contudo, simbolicamente, todos atribuem o sucesso da operação militar a Otelo porque foi ele que deu o rosto pelo Posto de Comando e é dessa forma que ficará sempre associado ao 25 de Abril. A História não se apaga, é o que poderemos dizer neste caso das figuras que ganharam um simbolismo para o futuro.

 

Neste cinquentenário, podem surgir factos ainda desconhecidos sobre a Revolução?

Posso dizer que estão a surgir novidades, que nada têm que ver com o trabalho da Comissão, pois esta não deve obrigatoriamente produzir conteúdos ou investigações académicas novas, ainda que um dos processos que estamos a impulsionar, o de bolsas de investigação para projetos científicos, certamente trará novas perspetivas históricas. Estão também a ser desenvolvidos por todo o país projetos de História e de produção de conhecimentos que certamente vão permitir renovar e enriquecer os estudos sobre o 25 de Abril.

 

Enquanto historiadora publicou o livro 25 de Abril — Os Mitos de uma Revolução. Estes mitos que elencou perduram?

Sim, perduram. O termo "mitos" teve como intenção clarificar algumas questões que, ainda que fossem conhecidas, não são na sua grande maioria claras no imaginário coletivo e no senso comum. Por exemplo, poucas vezes se relacionava o início da mobilização dos capitães a um problema corporativo e, de forma automática, todos associavam à questão política do fim da guerra. Que, estando correta, não pode eclipsar a origem corporativa da mobilização formal daquele grupo. Foi este género de mitos que tentei clarificar com esse livro, principalmente didático e para o grande público.

 

Num resumo sobre esse livro, diz-se: "Passados mais de trinta anos, só agora se começam a revelar as verdades que permitem desmascarar os mitos que fazem parte da história do 25 de Abril". Este resumo continua atual?

Não o diria, pois haverá sempre mitos sobre essa data, como existirão sobre outros momentos emblemáticos da nossa História e na de outros países. Creio que, com o nível de informação a que agora temos acesso, cada vez mais vai ser possível ter uma perspetiva esclarecida sobre esse e outros acontecimentos e processos históricos.

 

Cinco décadas depois, estamos perante novas gerações. A reinterpretação da História do 25 de Abril será feita principalmente pelos mais jovens ou pelos mais velhos?

Essa é uma situação muito curiosa e o que se tem verificado recentemente é que, muitas vezes, a reação das gerações mais velhas não é a esperada ou reagem com um relativo ceticismo às novas perspetivas, dizendo que quem não viveu os acontecimentos não pode escrever sobre eles. A verdade é que, após passar algum tempo sobre essa nova produção e as novas visões, os próprios revelam o seu entusiasmo com as novas perspetivas. Por exemplo, alguns deles admitem que foram recuperadas questões que já não tinham presentes na sua memória. Creio que o balanço final destas novas investigações será muito positivo.

 

Os mais jovens estão empenhados nesta comemoração? 

Sim, muito interessados e bastante empenhados em recolher depoimentos orais históricos. É o caso de sociólogos, antropólogos e também dos próprios jovens envolvidos nestas comemorações. Essa receção positiva verifica-se sempre que existe o testemunho de um capitão de Abril ou de um protagonista político-militar numa escola, que é sempre um verdadeiro sucesso. Essa realidade é muito importante e faz crescer a responsabilidade das próximas gerações para com estes acontecimentos, pois estamos num ponto de viragem, já que na próxima data redonda sobre o 25 de Abril, provavelmente, muitos desses que o protagonizaram, quer na primeira linha quer em situações mais discretas, não estarão vivos para continuar a deixar o seu testemunho. Daí que esta História tão recente viva em muito desses depoimentos e de entrevistas, mesmo que nunca possa esquecer os documentos.

 

Essa recolha de depoimentos está completa ou ainda existem protagonistas a questionar? 

Acho que está feita em grande parte, mas há sempre muito por fazer. Os protagonistas militares centrais têm sido entrevistados e as suas memórias registadas, nomeadamente pelo Centro de Documentação do 25 de Abril da Universidade de Coimbra, além de que muitos académicos têm recolhido para as suas teses de mestrado, de doutoramento e outros trabalhos depoimentos que agora urge conservar e disponibilizar. Pode-se dizer que estamos a assistir a uma nova leva desta história oral, nomeadamente no que respeita ao cidadão comum, a anónimos, aos que integraram cooperativas e associações — pessoas a quem até agora tinha sido dada pouca importância.

 

O legado dessa memória irá ser reinterpretado de forma muito diferente?

Gostaria de ter uma resposta para essa pergunta, infelizmente, não a consigo adivinhar por agora. De qualquer forma, a tendência que se observa é para renovar, descobrir e ter novos olhares sobre esse momento que, pelo que se tem visto, todos continuam a considerar como central na História de Portugal e dos portugueses.

 

"A tendência que se observa é para renovar, descobrir e ter novos olhares sobre esse momento."


Os historiadores, investigadores e jornalistas estrangeiros sentem interesse nesta matéria ou basta-lhes as visitas que fizeram nos meses pós-Revolução? 

Sim, continuam a querer saber sobre esse período da nossa História. Não será por acaso, é que o 25 de Abril difundiu uma mensagem intemporal e universal com os seus valores e conquistas. Basta ver a quantidade de jornalistas que continuam a pedir entrevistas e apoio para preparar documentários e programas especiais sobre estas comemorações. Posso dizer que existe uma nova mobilização em torno dos cinquenta anos da Revolução.

 

A Internet tem sido utilizada na divulgação desta data. Era grande o desconhecimento sobre as proibições na Ditadura?

Há de tudo, desde os mais velhos que desconhecem o que era proibido devido a instrumentos do anterior regime, como a censura, que trabalhou muito eficazmente nesse sentido, no entanto, verifica-se principalmente entre os mais novos. Dou um só exemplo: a campanha que fizemos nas redes sociais, #NÃOPODIAS, em que selecionámos treze proibições das centenas que existiam e, pela primeira vez, tivemos os jovens amplamente envolvidos porque a surpresa e a vontade de conhecer como que era o país a 24 de abril foi enorme. A campanha foi tão bem sucedida que passou ao formato online, transformou-se num programa de rádio e os materiais disponibilizados (postais) estão a ser adaptados para exposições nas escolas por iniciativa de professores e alunos. Confirmou-se que havia uma vontade nos jovens de descobrir o que ficou para trás e aquilo que o 25 de Abril permitiu em termos de renovação e de liberdade, com destaque para a surpresa no caso de proibições que eram completamente impensáveis.

 

Os jovens questionaram-se sobre o viver naquela época quando comparado com a atualidade? 

Sim, foi um alerta importante. Há uma frase que todos repetimos, a de termos a liberdade garantida e a Democracia adquirida, mas, em campanhas como esta, o que lhes chamou à atenção foi o facto de não ser assim e de que a realidade nacional já foi muito diferente, ficando a ideia de que é preciso trabalhar para manter o que foi conquistado com o 25 de Abril.

 

Num ano em que temos tantas eleições, esse #NÃOPODIAS ajudará na ponderação?

Acho que sim, pois um dos hashtags que teve mais repercussão foi o #NÃOPODIAS VOTAR. E foram mostradas as imagens da mobilização dos eleitores no dia 25 de Abril de 1975, com 92% dos portugueses a votar, e tudo o que foi necessário para preparar a infraestrutura, até como se ensinava a colocar o boletim de voto na urna e explicar o significado do ato.

 

Está num cargo onde desaguam todas as decisões sobre estas comemorações, que não se ficam apenas pelo dia 25 de Abril. Tem sentido muitas pressões? 

Entendidas como pressões, não. Há, sim, pressões e condicionantes que se devem à falta de tempo e de meios. 

 

Ficará alguma situação por comemorar ou o programa é suficientemente abrangente?

Abranger tudo é impossível. Temos como objetivo promover muitos atos, mas principalmente associarmo-nos às milhares de iniciativas que estão a ser organizadas por todo o país e nas mais diversas instituições. Queremos que as pessoas se envolvam, queiram saber mais sobre esta data, valorizem o que representou. Sem esquecer que se continuará a celebrar de forma oficial o 25 de Abril até 2027.

 

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