Shehan Karunatilaka: "Talvez seja aí que o escritor de ficção possa entrar, onde há lacunas na História"

Por: Marta Ribeiro a 2023-11-13 // Coordenação Editorial: Elísio Borges Maia

Shehan Karunatilaka

Shehan Karunatilaka

Shehan Karunatilaka é o autor premiado de Chinaman: The Legend of Pradeep Mathew, vencedor dos prémios Commonweath Prize, Gratiaen Prize e DSC Prize for South Asian Literature. As Sete Luas de Maali Almeida é o seu segundo romance, que conquistou o meio literário. Vencedor do prestigiado Booker Prize de 2022, foi ainda eleito Romance do Ano pelos principais meios de comunicação internacionais. Os direitos de tradução foram vendidos para 30 países.

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Está a escrever o terceiro romance — o segundo demorou sete anos até sair, por isso podemos esperar. Ganhou um dos prémios literários mais importantes, o Booker Prize, e confessa que nesse momento só sentiu terror. Shehan Karunatilaka escreveu As Sete Luas de Maali Almeida sem intenção de documentar a guerra civil do Sri Lanka, mas entre fantasmas, demónios e homens do lixo foi precisamente isso que aconteceu. Nesta entrevista fala sobre o processo criativo, livros imperfeitos e as feridas do seu país — que quer ver curadas.

 

Marta Ribeiro — Como descreveria o que sentiu quando soube que era o vencedor do Prémio Booker?

Shehan Karunatilaka — A resposta honesta é terror. Ainda fico nervoso antes de falar, para os escritores não é muito natural. Normalmente não falamos com ninguém, só escrevemos. Falamos com a esposa ou com os filhos, mas mais ninguém. Até vencer o Prémio Booker houve muitas atividades: conversas e outros eventos. Quando chegou o momento de anunciar o vencedor eu estava calmo. Só tinha de beber um copo de vinho, dar uns apertos de mão. Outro livro ia ganhar, dava os parabéns e ia para casa. Quando aconteceu eu pensei... Merda. Deixa de haver tempo, aparecem luzes, câmaras. A sorte foi que eu tinha umas notas no bolso e fiz um discurso com elas. Depois toda a gente a dar os parabéns, não há tempo. O telemóvel não parava de tocar durante as 48 horas seguintes. Acho que só uma semana depois é que começou a assentar. E, obviamente, depois o e-mail está cheio. E, de repente, dei por mim a falar e a tentar responder corretamente. Isso foi a primeira parte. Mas depois percebi quão grande tudo isto é. [Este prémio] faz uma carreira. Antes era um escritor como qualquer outro, era só um part-time. Trabalhava durante o dia e ia escrevendo as minhas histórias. Então isto veio mudar tudo.

 

Quando a lista de finalistas saiu e viu que estava incluído, conseguiu gerir as expectativas?

A única forma é não ter expectativas. Eu estava feliz por ter sido publicado no Reino Unido. Pensei: “Ok, isto é um grande alcance.” Quando a lista inicial foi divulgada, pensei “Ok, isto é um bom bónus”, fiquei feliz. A lista inicial seria boa o suficiente para mim, não estava a pensar se ia ou não ganhar. No YouTube, os booktubers especulam sobre quem merece ou não ganhar, eu vi os vídeos todos, mas não me envolvi, não achei que era favorito — até porque não havia favoritos, éramos os seis relativamente desconhecidos. Por isso, estava mesmo sem expectativas. E acho que é o melhor a fazer porque estava tudo além do meu controlo. Só controlo o que escrevo, escrevo o melhor que posso. O resto é marketing, é ganhar um prémio, é sorte. Essa é a atitude que mantenho e espero continuar assim. Se não, no meu próximo livro, vou pensar, se não ganhar um Pulitzer, vai ser uma falha. Não que possa ganhar um Pulitzer, isso é só para os americanos. Mas eu não tenho isso, estou só a tentar fazer um bom livro, o melhor que posso. Eu teria ficado muito feliz com a shortlist, e talvez tivesse escrito o meu terceiro livro, entretanto. 

 

Escreveu uma primeira versão deste livro que posteriormente alterou para entrar no mercado editorial ocidental. Porquê? 

Sim, essa versão, Chats with the Dead, foi comprada pela Penguin Random House India. Eu tinha a sensação de que o livro precisava de ser editado porque sabia que tinha muitas partes complicadas. Mas a editora pareceu-me bastante satisfeita. Disseram-me que estava pronto a sair. Mas depois estava a dizer ao meu agente: “E o Reino Unido? Conseguimos vender os direitos?” E não consegui nenhuma oferta. Até os americanos, que tinham gostado de Chinaman, o meu primeiro livro, diziam: "Isto é difícil. Não sabemos como é que vai funcionar para um público ocidental.” Isso foi desmoralizador mas, mais uma vez, não ter expectativas ajuda. Depois a Sort of Books, uma editora independente muito pequena, aceitou-o. E disseram-me: “Sim, achamos que tem muito potencial, mas precisa de muito trabalho.” O título mudou muito mais tarde, mas o livro em si não é bem a mesma história. Começa da mesma forma, termina da mesma forma. Mas nós certificámo-nos de que um leitor ocidental, ou alguém que não sabe nada sobre o Sri Lanka, consegue acompanhar a história. 

 

Se tivermos um bom editor na nossa vida, mesmo que seja um amigo, devemos pagar-lhe o almoço, dar-lhe abraços e valorizá-lo, porque é algo que nem toda a gente tem. E é muito valioso quando o encontramos. 

 

Deve ter sido muito difícil reescrever o livro durante tanto tempo. Como é que isso foi? Não sentiu que estava a trair o Shehan do passado? 

Senti-me um pouco mal pelos leitores. Não que Chats with the Dead tenha vendido muitos exemplares, mas senti-me mal por obrigar as pessoas a comprar o mesmo livro duas vezes. Mas um grande segredo da escrita que toda a gente sabe é que escrever é reescrever. Estou a escrever o meu terceiro romance agora — as páginas estão muito más, mas não me importo porque sei que é esse o processo. Vou escrever agora cerca de 100 páginas más e depois reescrevemos e reescrevemos e resolvemos as coisas. É esse o processo. E também trabalhei em publicidade — ainda trabalho, como freelancer. E estamos habituados a que o cliente mude o texto. Não me importei muito porque sabia que o Chats with the Dead tinha alguns problemas. Eu confiava na Natania [Janz, a editora], ela sabia o que estava a fazer e era muito educada e simpática a forma como o dizia. Ninguém gosta daquele trabalho, mas depois de o fazer, apercebo-me de que o livro beneficiou. E sei que o que eu faço nunca é perfeito, ajuda se outra pessoa o moldar. 

 

E durante esse processo, o que é que aprendeu? 

Acho que a minha forma de escrever é tentar fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Este livro é um mistério de homicídio e um thriller político. Mas também tem uma história de amor no centro, algumas filosofias de fantasmas e é fácil perder a linha. Durante muito tempo, os livros do Sri Lanka não tinham bons editores: o escritor escrevia, a editora publicava. Não havia um editor pelo meio. Isso nota-se. Pego em muitos livros e penso, porque é que não fizeram isto e aquilo? Por isso, eu sempre soube. Não é novidade o valor de um bom editor. E que temos de pensar no leitor, que não está a ver o quadro completo. Por isso, temos de ser educados e gentis com eles. A Natania disse o seguinte: "Certifica-te de que não estão todos os instrumentos a tocar ao mesmo tempo. Certifica-te de que tens uma orquestra, mas gere-a.” Essa foi uma boa metáfora para mim. Foi também por isso que o estruturámos em sete luas. No que diz respeito à sexualidade de Maali Almeida, há algumas dúvidas sobre o quanto devemos realçá-la ou minimizá-la. Portanto, tudo isso são discussões. E se tivermos uma boa relação com o editor ajuda a ter abertura para debatermos isso com ele. Se tivermos um bom editor na nossa vida, mesmo que seja um amigo, devemos pagar-lhe o almoço, dar-lhe abraços e valorizá-lo, porque é algo que nem toda a gente tem. E é muito valioso quando o encontramos. 

 

O que descreve neste livro — a realidade violenta da guerra civil — pode ajudar a manter presente o passado do Sri Lanka na memória coletiva? 

Talvez, talvez... Desconfio do poder que os livros têm, mas sim, pode ser esse o caso. Uma coisa em que reparei também é nas histórias de fantasmas. Onde quer que tenha havido um massacre no Sri Lanka, há histórias de fantasmas. Talvez a razão seja a existência de fantasmas, quem sabe, mas talvez a outra interpretação seja o facto de não haver uma explicação oficial para estes incidentes. Estão a desaparecer da memória, não há registo deles, por isso mantemo-los vivos através das nossas histórias de fantasmas. Temos historiadores, temos comentadores políticos, temos pessoas que escrevem sobre o passado, mas não há consenso, há muita discussão, opiniões divergentes. Talvez seja aí que o escritor de ficção pode entrar, onde há lacunas na história. Dantes os meus fãs eram homens velhos e fãs de críquete, mas agora há mais jovens. Cingaleses e não só vêm ter comigo e dizem: “Não sabíamos que havia uma guerra assim, nascemos nos anos 90, nos anos 2000, os nossos pais não falam sobre isso, não nos ensinam na escola, este livro abriu-nos mesmo os olhos.” E eu digo: “Não leiam apenas o meu livro, vão pesquisar, está na Internet, descubram o que realmente aconteceu, as histórias reais, muito mais horríveis.” Agora, deixará de haver conflitos na próxima geração por causa deste livro? Seria uma coisa maravilhosa, mas devemos baixar as expectativas. Talvez, no máximo, documente. Daqui a 30 anos, quando a guerra tiver sido há duas gerações, talvez a ficção possa ter esse papel, talvez seja aqui que sejamos [escritores de ficção] úteis, podemos pegar em relatos diferentes do passado e embalá-los de uma forma que convide os leitores e as gerações futuras a lê-los. 

 

Parece estranho porque são palavras inventadas que estamos a pôr numa página. Vi as relações dele [Maali Almeida] e a coisa construiu-se sozinha. Ele falou com a sua voz, e disse-me o que tinha de fazer

 

Quando estava a escrever tinha esse pensamento em mente ou foi algo que aconteceu sem pensar muito sobre isso? 

Não diria sem pensar, mas estava a tentar escrever uma história de detetives, um mistério de homicídio, uma história de fantasmas. Mas, claro, o ângulo político entra em cena, porque ele é um tipo envolvido com estas fações, todos estes fantasmas que têm opiniões políticas. E quando estava a escrever, por volta de 2015 a 2019, foi um período em que tínhamos votado contra os ditadores, a guerra tinha acabado, havia imprensa livre e havia esperança de que o país fosse agora uma democracia mais tolerante e liberal, mas, claro, tudo isso acabou com os ataques da Páscoa. Mas naqueles quatro anos de paz, pensei: “Será que as pessoas se vão lembrar que estas coisas terríveis aconteceram?”, porque era quase como se o Sri Lanka estivesse numa nova era. Preocupava-me que as pessoas pensassem que eu estava a inventar coisas, ou que ficassem zangadas por eu estar a falar de coisas más quando estamos numa época tão positiva. Infelizmente, isso não foi um problema porque os ataques da Páscoa aconteceram, a pandemia aconteceu, o país entrou em colapso, por isso, quando o livro saiu, estávamos de volta à distopia. Na altura, era isso que pensava, se as pessoas iam acreditar que estas coisas tinham acontecido, e não pensava se estava a documentar isto ou algo do género. Mas, sim, por sorte, o livro ganhou um grande prémio numa altura em que o país estava em colapso, por isso toda a gente viu paralelismos entre o que se passa no livro e o que se passa no Sri Lanka. 

 

No processo de escrita do livro criou primeiro Maali Almeida ou a narrativa?

Não me consigo lembrar, é um processo muito confuso. Maali Almeida veio dos destroços de um rascunho inicial e a história de Richard de Souza também estava na minha cabeça. Mas não escrevo forma muito estruturada, como se visse tudo. A cena de abertura acho que foi o que veio primeiro, dele na vida depois da morte. Acabei de fazer essa cena e não tinha bem a certeza do que ia acontecer, e depois pensei: “Talvez agora ele vá ver o seu corpo, ele não tem a certeza se está morto ou se está a sonhar.” E depois: “Os entes queridos dele, o que estão a fazer?” E depois a personagem começa a falar comigo, por isso eu estava a ver o que os seus entes queridos diziam sobre ele e como é que ele reagia a isso. Parece estranho porque são palavras inventadas que estamos a pôr numa página. Depois vi as relações dele e a coisa construiu-se sozinha. Ele falou com a sua voz, e disse-me o que tinha de fazer. Eu queria torná-lo um pouco mais heroico, mas depois percebi que ele não é um tipo heroico. 

 

Neste livro equilibra o tom sério e duro do tema com um humor que desarma o leitor. Como atinge esse equilíbrio? 

Acho que é novamente a voz narrativa. Por exemplo, o Maali Almeida está por natureza consciente do absurdo e do aleatório do universo e do mundo, e de como é injusto, e escolhe fazer comentários sarcásticos sobre isso. Mesmo quando está a ver o seu corpo a ser cortado em pedaços e atirado para um lago, ele vê humor nestes homens que se desfazem do corpo. E todos os maus da fita pensam que são bons da fita, foi uma coisa que percebi ao ler, e mesmo ao falar com algumas pessoas não muito simpáticas que eram poderosas, todos pensam que estão a fazer o trabalho correto, mesmo quando alguém ordena a morte de inocentes. E isso também me ajudou a construir as personagens secundárias. Quando se trabalha num projeto durante tanto tempo, as personagens começam a dizer-nos quem são e o que querem fazer. E as piadas são poderosas, podem derrubar ditadores, isso é algo que a Internet descobriu e os ditadores sabem disso. É por isso que estão a começar a prender comediantes de stand-up no Sri Lanka. Há uns anos as pessoas começaram a fazer piadas com quem estava no poder, e os poderosos não conseguiam responder. E isso desarma... Obviamente um exército armado pode abater os brincalhões, mas penso que o humor é uma arma subestimada como uma forma de gozar com o poder e pedir respostas. 

 

É preciso uma mudança coletiva do sistema, mas há potencial se conseguirmos ultrapassar esta ideia de “a quem pertence o país?” e dizer apenas que estamos todos aqui, somos todos cingaleses, podemos falar línguas diferentes ou acreditar em coisas diferentes ou não acreditar, mas isso não é importante.

 

A guerra durou muitos anos. Porquê 1989? O que o marcou particularmente nesse ano? 

A guerra prolongou-se durante 30 anos, mas só me lembro de 89 porque houve três guerras. Houve a guerra separatista entre os Tigres Tamil e o Governo, mas, ao mesmo tempo, quando houve um cessar-fogo, os jovens do Sul, sobretudo cingaleses, começaram a revoltar-se. Foi uma guerra de classes contra o Estado, uma revolução marxista, e depois a Força de Manutenção da Paz da Índia. Lembro-me de pensar e de perguntar à minha mãe: "Isto é uma loucura, porque é que estamos a travar três guerras?” E na altura não conseguia perceber, só mais tarde. Mas voltei aí porque acho que foi o período mais negro, as pessoas desapareciam, recebíamos telefonemas ameaçadores, havia corpos na berma da estrada, nunca tinha vivido nada assim, apesar de ter havido muitos períodos negros depois disso. Para além disso, é suficientemente antigo para não me meter em sarilhos, porque a maior parte das pessoas já morreu, a maior parte das coisas está bem documentada, não que esteja a fazer afirmações controversas. E era também uma boa época para montar um mistério de homicídio, porque um mistério de homicídio depende de um cadáver e de alguns suspeitos. Por isso, pensei que podia falar sobre estas diferentes e estranhas fações, ele trabalha para os Tigres, para o Governo, para os agentes estrangeiros, isso foi mais um estilo do que uma coisa política. 

 

O Sri Lanka será um país melhor quando curar as suas feridas? 

Claro, e isto é o que todos nós esperávamos, muitos cingaleses vivem no estrangeiro, alguns fugiram para salvar as suas vidas, muitos foram à procura de oportunidades, e muitos cingaleses estão a destacar-se onde quer que estejam. Há sempre esta noção, quando falo com os cingaleses, de que gostaríamos de voltar. Porque é que estamos a usar as nossas capacidades noutro sítio se podemos trazê-las para aqui? Como na maior parte dos países, estamos à espera de um líder que venha e una toda a gente, e toda a gente venha atrás dele. Esse líder ainda não apareceu e não estou muito certo de que um messias funcione. É preciso uma mudança coletiva do sistema, mas há potencial se conseguirmos ultrapassar esta ideia de “a quem pertence o país?” e dizer apenas que estamos todos aqui, somos todos cingaleses, podemos falar línguas diferentes ou acreditar em coisas diferentes ou não acreditar, mas isso não é importante. Eu mal consigo organizar a minha agenda de escrita, por isso não sou pessoa para resolver estes problemas, mas espero que haja alguém por aí que consiga. Ainda acreditamos que o Sri Lanka pode ser este grande paraíso que é mostrado nos anúncios, acho que há esperança, sim.

 

Esta entrevista foi publicada na Revista Somos Livros (edição Natal 2023)

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