Após o 25 de Abril, Portugal viveu tempos agitados. Entre a esperança e os excessos, ambos alimentados pela liberdade, viveu-se o período mais conturbado da segunda metade do século XX e é sobre esta altura, em que tudo era permitido, como nos diz o título, que Pedro Prostes da Fonseca se debruçou nas páginas deste livro. Como o próprio afirma logo na introdução, não é um livro de história, mas um livro de histórias que tiveram lugar no PREC (Processo Revolucionário em Curso), contadas pelo escritor e enriquecidas com declarações dos protagonistas da História da altura e das pequenas histórias aqui narradas.
Corriam os anos de 1974 e 1975 e, entre avanços e recuos, a democracia, trazida pela Revolução dos Cravos, nascia fervilhante e com pouco controlo. Da caça aos fascistas aos saneamentos em várias profissões; da ocupação das terras para fazer cooperativas ao capitão que gostava de se passear por Lisboa com uma chaimite; da continuação de um machismo tradicional que não via com bons olhos as manifestações no feminino ao aparecimento de partidos como cogumelos e do crescimento dos órgãos de comunicação... o PREC foi altura de excessos. "(...) Hoje, é fácil dizer, poderiam ter sido evitados", realça o autor, mas, na altura, o País saía de uma longa ditadura, havia entusiasmo de sobra, mas pouca preparação para o futuro.
São muitos os episódios contados neste livro, uns mais conhecidos do que outros, mas o certo é que conseguem sempre surpreender. Um deles relata que nem Otelo Saraiva de Carvalho, capitão de Abril, escapou à caça aos fascistas, dois dias depois da revolução. Vestido à paisana dentro de um carro com a família, foi rodeado por uma multidão em fúria e foi chamado de pide. Foi salvo pelo cartão de fuzileiro. E, por falar, em capitães, reza a história que Diniz Almeida ia "beber a bica e dar dois dedos de conversa" de chaimite. Mas ele apenas admitiu ter-se deslocado no veículo militar para ir ter com um paraquedista à parte militar do aeroporto e de terem tomado um café ou uma água num bar. "Tudo o mais é sinédoque, o tomar a parte pelo todo, que só se entende pela guerra mediática daqueles anos", lê-se, numa declaração do próprio, no Verão Quente de 1975 ¿ Tudo Era Permitido.
Outra narrativa marcante exposta pelo escritor tem que ver com a manifestação feminina marcada para o Parque Eduardo VII em janeiro de 1975. Espante-se, o machismo estava tão instalado que nem em democracia uma reunião de mulheres era aceite. No dia 13 desse mesmo ano, as feministas do Movimento de Libertação das Mulheres foram rodeadas por homens que tentaram assim acabar com a contestação. "Eram homens de todos os partidos", recordou Maria Teresa Horta, uma das autoras das Novas Cartas Portuguesas, que, em 1972, chocaram Portugal, ainda subjugado pela Ditadura. Pedro Prostes da Fonseca lembra ainda que a luta pelos direitos das mulheres demoraria alguns anos, e, só em 1983, foi "eliminada da lei a bizarra atenuante para crimes de violação nas situações em que a mulher havia ‘contribuído de forma sensível para o facto’ mediante o seu comportamento ou pela especial ligação do violador". Não muito longe do que ainda hoje se diz das mulheres violadas, maltratadas ou até assassinadas: o "pôs-se a jeito".
Nos liceus e faculdades, no PREC, os estudantes tomaram as rédeas e podiam fazer tudo nas aulas. Simultaneamente, foram muitos os jovens a ir para o interior para ensinar as pessoas analfabetas a ler. De fora do País, também vinham jovens europeus, mas para experimentarem o exotismo revolucionário. Afinal, Portugal era bem mais perto do que Cuba, onde se vivia também tempos revolucionários. O turismo político eram uma realidade e as agências de viagem apostavam nisso. Na altura, chegaram também ao País muitos jornalistas, fotógrafos e cineastas estrangeiros. Até Gabriel García Marquéz esteve duas semanas em Lisboa para escrever reportagens para a revista colombiana Alternativa. "Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer, não havia um único táxi desocupado", escreveu nos seus artigos sobre a capital portuguesa.
Tive a sensação de estar a viver de novo a experiência juvenil de uma primeira chegada. Não só pelo verão prematuro em Portugal e pelo odor de marisco, mas também pelos ventos e ares de uma liberdade nova que se respiravam por todo a parte.
Gabriel García Márquez
A divisão entre esquerda e direita fazia-se sentir e a roupa denunciava de que lado estavam as pessoas. As samarras eram usadas pelas de direita, tal como as botas alentejanas, mas, quando a estas juntavam a matraca, não restavam dúvidas, eram saudosistas do antigo regime. Do lado oposto, apostava-se numa postura negligé. Os maoistas, assinala o autor, "eram adeptos de uma sobriedade quase franciscana".
Em agosto de 1974, o Cinema São Jorge estreia em Portugal o filme erótico O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, censurado pela ditadura. Há grandes filas à porta da famosa sala de cinema lisboeta e até espanhóis vieram a Lisboa para o ver, pois Franco ainda não lhes permita tal ousadia. Por cá, cresciam também as salas de cinema especializadas em pornografia, numa libertação sexual nunca antes sentida. Estas são apenas algumas das histórias que se podem ler num livro para ler de uma assentada só.