A opinião de dois historiadores sobre o 25 de novembro de 1975

Por: João Céu e Silva a 2025-07-16

Irene Flunser Pimentel e Fernando Rosas dão a sua versão sobre o momento mais complexo do Verão Quente. Na maioria dos factos, convergem, mas não lhes faltam divergências sobre o Processo Revolucionário Em Curso.
 

O 25 de Novembro está definitivamente explicado? 

Irene Flunser Pimentel (IFP) — Não está. Espero que, ao fazer os 50 anos, haja novas contribuições, quer dos capitães quer dos militares, porque o conflito foi entre eles e não com os civis; também que os historiadores contribuam com as suas interpretações. Já se apurou muito sobre essa data, mas continua a existir muita ignorância sobre detalhes que se mantêm obscuros ou mal contados, além de os militares fazerem afirmações diferentes sobre o mesmo acontecimento. Não estarão a mentir, o que se passa é que cada um conta com o olhar do local onde esteve. 

Fernando Rosas (FR) — Independentemente de haver um ou outro facto pouco conhecido sobre os acontecimentos, creio que as interpretações fundamentais sobre o 25 de Novembro estão estabelecidas. São controversas e continuarão a sê-lo porque houve na sociedade portuguesa opiniões diversas que se projetaram para o regime democrático que se lhe seguiu e que continuam a ser alvo de disputa e debate dos que participaram nessa data. Portanto, será pouco suscetível surgirem neste momento grandes alterações no que aconteceu, decorrentes do aparecimento de novos factos.
 

Pode equiparar-se as datas do 25 de Abril de 1974 e do 25 de Novembro de 1975?

IFP — Só se houver intenção de contribuir para alguma confusão ao imiscuir-se a política no seio da História. Na realidade, o que acontece é que se torna o 25 de Novembro numa arma de arremesso da direita contra a esquerda. Foi o que se viu no ano passado com a comemoração dos 49 anos da data, em vez de se o fazer numa data redonda, como seria a dos 50 anos. Não terão esperado mais um ano porque sabem que a Comissão das Comemorações do 25 de Abril irá tentar colocar essa questão aos historiadores. 

FR — A comemoração do 25 de Novembro é despropositada e não concordo com a tentativa de fazer uma espécie de equiparação entre as duas datas. Afinal, o 25 de Novembro é um episódio entre os vários que aconteceram, como o 28 de Setembro de 74 e o 11 de Março de 75. No âmbito da democracia, é o 25 de Abril que a abre, é a Constituição que a consagra e as eleições que se seguem, em 1976. Celebrar o 25 de novembro mais não é do que uma tentativa de o sobrepor ao 25 de Abril por razões políticas conjunturais. É passageiro e, quando voltar a haver um governo ou uma maioria parlamentar de orientação política diferente da atual, acaba-se com a comemoração do 25 de Novembro.
 

O Verão Quente era uma deriva inevitável?

IFP — Sim, completamente. O 25 de Abril começou por ser um golpe de Estado militar que se transformou de imediato num processo revolucionário, não só com a ida das pessoas para a rua logo, como pela espontaneidade inicial das lutas e reivindicações populares que depois serão controladas pelos partidos, além das várias lutas internas no seio do MFA. Com as eleições para a Constituinte, a legitimidade eleitoral irá sobrepor-se à legitimidade revolucionária ao mostrar que a maioria do povo português orientou o seu voto de forma diferente do que era a movimentação das ruas e deu a vitória ao PS e, em segundo lugar, o PPD, deixando o PCP e as organizações de esquerda muito para trás. Estes nunca tinham imaginado que o resultado eleitoral lhes fosse tão adverso. A dado momento, há também que contar com as influências internacionais, pois, se o 25 de Abril foi um processo doméstico das Forças armadas que surpreendeu todos os países, passada a expetativa do desenrolar dos acontecimentos iniciais, tanto os Estados Unidos como a União Soviética e os países da NATO já tinham definido os seus interesses.

FR — Acho que, depois do rescaldo da tentativa de golpe de 11 de Março, a situação se dividiu em dois campos: o da revolução socialista, ainda que fosse concebida em termos muito diferentes do seu conceito, que abarcava os oficiais gonçalvistas e os do PCP, o pessoal do COPCON, uma parte da esquerda radical (PRP e UDP), com a exceção dos maoístas do MRPP; e um outro campo, que tinha um entendimento diferente do socialismo, mais ligado a uma ideia de democracia parlamentar ao estilo europeu e com algumas conceções militares vanguardistas. Só que esse campo da revolução socialista foi hegemonizado em muito pelo PCP, partido que conheceu várias derrotas: uma primeira, nas eleições para a Assembleia Constituinte, na qual se manifestou claramente uma maioria do PS e do PPD; em segundo lugar, a derrota na Assembleia do MFA em Tancos, onde o gonçalvismo sofreu uma pesada derrota do ponto de vista dos lugares cimeiros do aparelho militar. Daí em diante, no outono de 1975, há uma fuga para a frente e uma deriva aventureira que se traduziu numa tentativa improvisada de movimentação militar por iniciativa dos paraquedistas. Só que o outro campo tinha já preparada uma resposta, fulminante e quase sem vítimas, o 25 de Novembro.
 

O comício da Fonte Luminosa foi o ponto de viragem?

IFP — Quanto à parte civil, sim, porque é nesse comício que a presença nas ruas se junta à legitimidade eleitoral. Não só nesse comício, mas noutros grandes, como o do Porto. Mesmo assim, ainda tiveram uma enorme resposta por parte do PCP e da esquerda radical no comício realizado em novembro, m Belém. No entanto, a partir de setembro, estando as ruas também ocupadas pelo PS e com a nomeação do VI Governo Provisório de Pinheiro de Azevedo, altera-se a correlação de forças. Seguem-se muitas provocações lançadas por oficiais de direita e também pelo Grupo dos Nove, sendo uma delas a nomeação de Vasco Lourenço para a Região Militar de Lisboa em substituição de Otelo, além de outra muito grande lançada aos paraquedistas pelo Chefe de Estado da Força Aérea, a da sua transferência para o Exército.

FR — Acho que o verdadeiro ponto de viragem é o resultado da eleição para a Assembleia Constituinte, porque provocou o confronto de duas legitimidades: a das urnas versus a revolucionária. Esse conflito de legitimidades, associado à resposta a uma série de atos muito discutíveis da parte dos setores mais ligados ao PCP, faz com que o PS venha para a rua em grandes manifestações de massas, como os protestos do Caso República ou as grandes manifestações da Fonte Luminosa e a do Porto. Ou seja, o campo da democracia parlamentar passa a ter uma base de massas maior do que a do outro campo e desse choque político de mobilizações irá surgir uma aventura militar, que terá uma resposta negociada entre o PCP e Melo Antunes, de que resulta uma contenção programada do 25 de Novembro e de tudo o que se lhe sucedeu.

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