Os seres vivos de Saramago

Por: Bertrand Livreiros a 2023-01-17

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O Evangelho segundo Jesus Cristo
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Ensaio sobre a Cegueira
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Todos os nomes
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O conto da ilha desconhecida
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A maior flor do mundo
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O Homem Duplicado
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Ensaio sobre a Lucidez
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As Intermitências da Morte
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A Viagem do Elefante
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Caim
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Partilhamos consigo a segunda parte do artigo Os seres vivos de Saramago, publicado na edição de Natal da revista Somos Livros. Se ainda não leu a primeira parte, descubra-a aqui.
 

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO (1991)

Em 1992, o subsecretário de Estado da Cultura, António Sousa Lara, alegando que O Evangelho segundo Jesus Cristo não se harmonizava com a tradição cultural e religiosa portuguesa, veta a indigitação do romance ao Prémio Literário Europeu.

“Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti, disse-lhe, e ele respondeu, Quero estar onde minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos.”

Na cerimónia do banquete da entrega do Prémio Nobel, em 1998, e depois no funeral de Saramago, Pilar usou um vestido vermelho que tinha bordado, na barra, a frase acima.

“Estando eu em Sevilha e atravessando uma rua na direcção dum quiosque de jornais (…) eu leio, e peço que acreditem naquilo que eu vou dizer, leio distintamente no conjunto de jornais suspensos e de revistas (…) leio distintamente em português O Evangelho segundo Jesus Cristo, em português, ainda por cima. (…) dez metros adiante paro e digo, Isto não é possível, mas enfim para saber se era possível ou não voltei atrás para verificar e o que vi foi que nem estava Evangelho nem em português, nem em espanhol, nem em italiano, nem de forma nenhuma, não estava nem Jesus, nem estava Cristo. (…) eu tive simplesmente uma ilusão de óptica. A outra hipótese é que Deus tenha querido que eu escrevesse este livro e portanto colocou ali miraculosamente, foi um milagre, as letras que depois desapareceram. Dá vontade de dizer que, se Deus quis, deve ter-se arrependido depois.”

“É um romance, nada mais. Um romance que se atreve muito, um livro honesto, um livro limpo, que vai com certeza confundir muita gente, que vai indignar também não pouca gente.”

O Evangelho segundo Jesus Cristo, dizia, é o romance que gerou mais polémica e é a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote, em Espanha. É um livro que não projetei, porque jamais me havia passado pela cabeça escrever uma vida de Jesus, havendo tantas e sendo tão diferentes as interpretações que dessa vida se fizeram, destrutivas por vezes, ou, pelo contrário, obedecendo às imposições restritivas do dogma e da tradição. Enfim, sobre o filho de José e Maria disse-se de tudo, logo não seria necessário um livro mais, e ainda menos o que viria a escrever um ateu como eu. Simplesmente, o homem põe e a circunstância dispõe e aqui está o que me impeliu a uma tarefa cuja complexidade ainda hoje me assusta.”

José Saramago, in A Estátua e a Pedra

 

“Gostava que os meus livros se vendessem como o pão.” 
(José Saramago, Jornal de Notícias, dezembro de 1980)


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (1995)

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Esta obra foi idealizada no dia 6 de dezembro de 1991, com o título Estudo sobre a Cegueira, no restaurante Varina da Madragoa, onde o autor ia habitualmente. Só em agosto de 1993 inicia a sua escrita regular, que sofrerá diversas evoluções e terminará dois anos depois.

Só no dia 8 de julho de 1994, Saramago superou as dificuldades do labirinto em que se “atascara” (palavras suas) no desenrolar da história: “(…) sei que vai determinar um desenvolvimento coerente da história, antes atascada e sem esperanças. Todos os motivos que vinha dando, a mim mesmo e a outros, para justificar a inacção em que me achava (…) podiam, afinal de contas, ter sido resumidos desta maneira: o caminho por onde estava a querer ir não me lavaria a lado nenhum. A partir de agora, o livro, se falhar, será por inabilidade minha. Antes, nem um génio seria capaz de salvá-lo.”

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote, II

 

TODOS OS NOMES (1997)

“Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisso, transportas todo o tempo de um lado para o outro uma escuridão, e isso não te assusta (...) meu caro, tens que aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro...”

A ideia central de Todos os Nomes surge a 28 de janeiro de 1996, quando o avião em que Saramago viajava aterra em Brasília, para receber o Prémio Camões. “Descendo para Brasília, penso subitamente na gente sem nome do ‘Ensaio’, penso na lista de nomes de trabalhadores (um para cada letra do alfabeto) que aparece no ‘Memorial’, e num instante apresenta-se-me o título: Todos os nomes. Servirá isto para alguma coisa?” 

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote, V

“Pode dizer-se, superficialmente, que é um romance sobre a morte e os mortos, e no qual há até um cemitério enorme, disparatado. Mas não, não é assim, é uma obra sobre a vida.”

“(…) acho que quando escrevi o ‘Evangelho segundo Jesus Cristo’ era novo demais para poder escrever o ‘Ensaio sobre a Cegueira’, e, quando terminei o ‘Ensaio’, ainda tinha de comer muito pão e muito sal para me atrever com ‘Todos os Nomes’ (…) Pilar acha que é o meu melhor romance, e ela sempre tem razão.” (idem)

 

“Provavelmente, não sou um romancista; sou um ensaísta que precisa de escrever romances porque não sabe escrever ensaios.” (José Saramago, 1998)


“Todas as características da minha técnica narrativa atual (eu preferiria dizer: do meu estilo) provêm de um princípio básico segundo o qual o dito se destina a ser ouvido (…). Quero com isto significar que é como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não precisa de pontuação.”

José Saramago, 1995


O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA   (1998)

Em 1997, em nome da Exposição Internacional de Lisboa, comemorativa dis 500 anos dos Descobrimentos Portugueses, com inauguração em 1998, (….) Simonetta Luz Afonso encomendou um conto juvenil a Saramago que se relacionasse com o tema “Mitos”.

“Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.”

“Levei meses a encontrar uma porta de saída que ao mesmo tempo me servisse de porta de entrada, e finalmente acabei por usar aquela por onde entro e saio todos os dias: a porta da ficção.”

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote, V


A CAVERNA (2000)

Com a publicação de A Caverna, no seguimento de Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes, Saramago dá por concluído o que designou por “trilogia involuntária”, que reflete todo o seu pensamento social, político e ideológico, da passagem do século XX para o século XXI.

“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.”

“É a visão de um mundo possível, onde os seres humanos quererão habitar no interior dos mesmos espaços comerciais que lhes vendem o que necessitam ou creem necessitar. É uma metáfora da vida nos países desenvolvidos ou que, não o sendo, se enganam a si mesmos em virtude de uma prosperidade apenas aparente”

José Saramago


A MAIOR FLOR DO MUNDO (2001)

“Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever histórias para crianças.”

“Aí pelos começos dos anos 70, quando eu ainda não passava de um escritor principiante, um editor de Lisboa teve a insólita ideia de me pedir que escrevesse um conto para crianças. (…) O filho pequeno de uma amiga minha, a quem eu tive o desplante de oferecer o livrinho, confirmou sem piedade a minha suspeita: “Realmente”, disse à mãe, “ele não sabe escrever histórias para crianças.” Aguentei o golpe e tentei não pensar mais naquela frustrada tentativa de vir a reunir-me com os irmãos Grimm no paraíso dos contos infantis.” 

José Saramago, 25 de maio de 2009

 

“Entendo que cada um é, acima de tudo, filho das suas obras, daquilo que vai fazendo durante o tempo que cá anda.”
(José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1986)


O HOMEM DUPLICADO (2002)

“O caos é uma ordem por decifrar.”

“Atualmente, no mundo, entre «eu» e o «outro» há distâncias e não é possível superar essas distâncias, e por isso o ser humano cada vez consegue menos chegar a um acordo. As nossas vidas são compostas em cerca de 95% pela obra dos outros. No fundo, vivemos num caos e não existe uma ordem aparente que nos governe. Então, a ideia-chave no livro é que o caos é um tipo de ordem por decifrar.”

José Saramago

 

“Saramago é uma planta. Nos tempos da minha infância e antes, as pessoas da minha aldeia, em épocas de crise, comiam saramagos.”


ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ (2004)

Ensaio sobre a Lucidez prolonga Ensaio sobre a Cegueira. A “cegueira branca” do primeiro é associada ao “voto em branco” do segundo, elemento de sátira, que resulta em tragédia, conforme referiu Saramago.

“(…) as meias palavras existem para dizer o que as inteiras não podem.”

“É, ao mesmo tempo, uma fábula, uma sátira e uma tragédia. Quis que a fábula fosse uma sátira, mas não pude evitar que fosse também uma tragédia. Como a vida.”

José Saramago

O Cão das Lágrimas

“Cão das Lágrimas porquê, Porque há quatro anos eu chorava e este animal veio lamber-me a cara, No tempo da cegueira branca.” 

in Ensaio sobre a Lucidez

“Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje enquanto escritor.” 

José Saramago, Público, junho 2008


AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE (2005)

“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca.”

“[Em As Intermitências da Morte] tomei a morte como tema de uma reflexão mais profunda. No livro, uso primeiro uma grande angular e crio uma fantasia em torno de uma suposição: como a ausêncua da morte afetaria uma sociedade inteira? Depois, fecho a objetiva para um caso específico: a morte materializa-se em personagem e tenta carregar para o além um violoncelista que insiste em não morrer. Procuro demonstrar que a morte é fundamental para o equilíbrio da natureza.”

“No fundo, o livro empurra uma porta aberta. Diz aquilo que todos já sabemos: que temos que morrer. Mas talvez mostre, com mais clareza, que temos que morrer para viver. Se não, a vida seria insuportável.”

José Saramago


A VIAGEM DO ELEFANTE (2008)

Saramago escreveu este romance em plena convalescença da doença que o afetara no ano anterior, que o obrigara a permanecer cerca de três meses no hospital.

“Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”

Na página 126 de A Viagem do Elefante, numa conversa entre o alcaide de Figueira de Castelo Rodrigo e o comandante militar da expedição portuguesa, a propósito de pombos-correios e do seu sentido de orientação, este desabafa: “Nem tudo na vida são alabardas, alabardas, espingardas, espingardas.”, querendo com isto dizer que, ainda que a sua actividade seja militar, nem tudo é um apelo às armas. Esta foi a primeira vez em que a frase “alabardas, alabardas, espingardas, espingardas” apareceu e que acabaria, posteriormente, por ser utilizada como título do seu romance inacabado, publicado posteriormente, em 2014.

“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.”

“[Contei esta história] em primeiro lugar, porque me apeteceu, e em segundo lugar, porque, no fundo (…) é uma metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena morreu um ano depois da sua chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas.” 

José Saramago, in Agência Lusa, novembro 2008

 

“Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho do pensar e parece-me que sem ideias não vamos a parte nenhuma.”
Última mensagem escrita por Saramago, no seu blogue, no dia que acabaria por morrer, 18 de junho de 2010


CAIM (2009)

“Onde é que nasceu essa peregrina ideia de que deus, só por ser deus, deva governar a vida íntima dos seus crentes, estabelecendo regras, proibições, interditos e outras palavras do mesmo calibre?”

“Há muitos anos penso que a história de Caim, assim como tantas outras histórias bíblicas, é mal contada. Não absolvo Caim, mas acuso Deus de ser o responsável do assassínio ao recusar a oferenda dele.”

José Saramago


CLARABOIA (2011)

Concluído em 1953, o livro só foi publicado em 2011. 

“Só quero dizer que aquilo que cada um de nós tiver de ser na vida, não o será pelas palavras que ouve nem pelos conselhos que recebe. Teremos de receber na própria carne a cicatriz que nos transforma em verdadeiros homens.”

“É a história de um prédio onde há seis inquilinos, e é como se por cima da escada houvesse uma clarabóia por onde o narrador vê o que se passa em baixo.”

José Saramago

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