Que mais resta dizer sobre José Saramago?

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2019-11-15 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

José Saramago

José Saramago

Prémio Nobel de Literatura, 1998

Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou postumamente, a 16 de novembro de 2021, José Saramago com o grande-colar da Ordem de Camões, pelos "serviços únicos prestados à cultura e à língua portuguesas", no arranque das comemorações do centenário do nascimento do escritor.

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Que mais resta dizer sobre José Saramago ? Quantas linhas mais precisam de se alinhar sobre esse homem para quem “escrever é fazer recuar a morte, é dilatar o espaço da vida”  (in José Saramago nas suas Palavras )? Ribatejano, nascido numa barraca de chão de barro, faria hoje, dia 16 de novembro, 97 anos. Uma figura que não era de meios termos e que, para lá das divisões matemáticas de amores e ódios, pôs o mundo inteiro a falar dele. O nosso Prémio Nobel da Literatura.

 

É difícil tentar escrever algo mais que não tenha já sido dito sobre ele. Ainda assim, relembramos hoje o português que cresceu num berço de pobreza, revolucionando a sua própria vida até aterrar em Estocolmo, tornando-se (ainda mais) eterno. Ainda assim, tentamos escrever sobre ele porque, mais do que ter revolucionado a sua própria vida, entranhou-se na nossa. 

 


 

 

De pé descalço até à literatura

 

Ao jornal Público (2010), Eduardo Lourenço , professor e filósofo, disse: “Na sua história pessoal e de escritor, Saramago foi o que de mais próximo tivemos da Gata Borralheira, uma gata borralheira rústica, que nasceu num berço pobre e chegou àquele trono de Estocolmo. (…) Ele trouxe para a literatura uma visão do mundo segundo José Saramago, uma espécie de evangelho segundo José Saramago.”

 

A aldeia de Azinhaga, no concelho da Golegã, viu o menino José nascer em 1922. Passados dois anos, mudou-se com a família para Lisboa. Teve uma infância pobre. No discurso pronunciado perante a Academia Sueca, a 7 de dezembro de 1998, no entanto, recordava-se com carinho da terra que o trouxe ao mundo, no monte dos avós maternos, onde andou sempre descalço até aos 14 anos de idade. Na biografia escrita por Joaquim Vieira , José Saramago – Rota de Vida , descrevem-se os anos em que o escritor chegou a comer sopa do mesmo prato da mãe, tendo recorrido, muitas vezes, à sopa dos pobres (via Visão ).

Formou-se como serralheiro mecânico e o seu primeiro emprego, entre os 17 e os 18 anos, foi numa oficina de automóveis. À noite, frequentava a biblioteca municipal, no Palácio das Galveias:  “Lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem ninguém que me aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre.”  (via  Fundação José Saramago ). O primeiro livro que recebeu veio das mãos da mãe: A Toutinegra do Moinho , de Émile de Richebourg . No entanto, Saramago só conheceria a sua primeira estante de livros por volta dos 19, numa prateleira interior do guarda-louça.

Em 1955, começou a colaborar com a editora Estúdios de Cor. Surgiram as primeiras traduções de autores como  Colette , Tolstoi , Baudelaire e Hegel . A partir daqui, nunca mais parou. Vieram Os Poemas Possíveis (1966), Provavelmente Alegria (1970), A Bagagem do Viajante (1973). Até 1975, altura em que fica desempregado e decide dedicar-se à escrita a tempo inteiro. 

 

 

Em A Caverna (2000), de José Saramago

“Felizmente existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensina a cozer os barros, e o livro, finalmente convocado, aparece…”

 
Letras que nos fazem ver

Em entrevista à revista Somos Livros , em 2018, Zeferino Coelho , editor de José Saramago até 2014, refere que o autor “foi pelo menos o mais importante prosador do século XX” , ao colocar a literatura portuguesa no “quadro universal” O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) contribuiu, em larga escala, para isso. Ficcionando e humanizando a vida de Jesus Cristo, alude a uma eventual relação com Maria Madalena. As críticas choveram e chegaram, inclusive, ao Vaticano, depois de Saramago ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, condenando a atitude da Academia e apelidando o autor de “comunista inveterado” .

Mas foi com Ensaio sobre a Cegueira (1995) que o autor chegou aos subúrbios do mundo. Há qualquer coisa de transcendental numa cegueira que ataca quem não quer ver, num vírus que tem tanto de metafórico como de físico. É talvez essa a genialidade na sua obra, ao tocar no cerne da questão – ou questões – que assolam a humanidade. Mexe-nos nas vísceras do coração, inquieta-nos e, ironicamente, faz-nos ver.  Esse milagre literário – vindo dele, assumido ateu – repete-se noutros romances, como As Intermitências da Morte (2005), obra que protagoniza o dia em que a Morte, cansada de tudo, decide suspender o seu trabalho de matar, criando uma epidemia de vivos. E, novamente, Saramago ataca-nos e dá-nos vontade de viver.  

José Saramago partiu em 2010 e deixou-nos as suas personagens, “os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver” . Não podemos ficar zangados com ele por nos ter  deixado um vazio, uma ausência ensurdecedora. Não podemos ficar zangados porque já o médico do  Ensaio sobre a Cegueira alertava: “Morrer sempre foi uma questão de tempo.”

 

Fontes: Visão , Observador e Somos Livros

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