Amanhã, dia 15 de novembro, é celebrado mundialmente, desde 1981, o Dia do Escritor Preso. Segundo os dados de 2024 da World Prison Brief, cerca de 11 milhões de pessoas encontram-se neste momento encarceradas, muitas detidas antes de qualquer julgamento.
Esta estimativa conservadora é liderada pelos Estados Unidos da América, o país onde mais pessoas se encontram presas: em 2024, atingiu os 1,8 milhões — ou seja, 716 pessoas por cada 100 mil. Em Portugal, no mesmo ano, a proporção é de 117 por 100 mil, cerca de 12 mil pessoas presas no total. É uma população extremamente díspar: 94% dos reclusos são homens, a nível mundial, e nos EUA os prisioneiros afro-americanos compõem 41% da população prisional, mas apenas 14% da população nacional, de acordo com um relatório de 2025 da Prison Policy Initiative.
O encarceramento em massa inclui também centros de detenção de imigrantes e instituições de confinamento para menores de idade, formando uma realidade questionável pela dimensão que tem atingido. Alguns pensadores vão para além da reforma e propõem a abolição do sistema prisional, como Angela Davis (As Prisões Estão Obsoletas?, 2003) e Ruth Wilson Gilmore (Abolition Geography, 2023).
Um primeiro passo para combater a exclusão e desumanização das pessoas encarceradas é valorizar a sua criatividade. O período de confinamento é duro e isolador, sendo a leitura e a escrita uns dos poucos escapes: não é de estranhar que tantas grandes obras, tanto de ficção como ensaios e textos de cariz político, tenham sido escritas nestas circunstâncias.
Descubra algumas delas — poderá ficar surpreendido.
Ficção Literária
Notre-Dame-Des-Fleurs, de Jean Genet
O primeiro romance do escritor, dramaturgo e ativista político francês Jean Genet, escrito durante a sua estadia na cela 426 da prisão de Fresnes, em 1944. Uma obra polémica pela abordagem dos temas da criminalidade e homosexualidade, do autor retratado por Jean-Paul Sartre em Saint Genet, Actor and Martyr.
Justine ou Os Infortúnios da Virtude, de Marquês de Sade
O manuscrito deste livro foi escrito em apenas duas semanas por Donatien Alphonse François – mais conhecido como o Marquês de Sade — enquanto esteve preso na Bastilha, em 1787. Esta versão, escrita no estilo clássico em voga neste período, era menos explícita e obscena do que o texto mais longo que viria a ser o primeiro livro publicado por este controverso autor, em conjunto com a obra Juliette ou As Propriedades do Vício. Napoleão Bonaparte ordenou a destruição dos livros e a apreensão do seu autor, e assim o Marquês de Sade foi condenado a mais 13 anos de prisão.
Fanny Hill - Memórias duma Prostituta, de John Cleland
Este livro, considerado o primeiro romance erótico da modernidade, foi escrito em 1748, durante a estadia do autor britânico numa prisão para devedores em Londres. Um dos livros mais banidos e perseguidos da história da literatura, tornou-se um símbolo da batalha contra a censura de textos eróticos.
Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes
Popularmente considerado o livro (secular) mais vendido e lido de todos os tempos, esta obra muito provavelmente nasceu durante uma das várias ocasiões da vida de Miguel de Cervantes em que este esteve preso. No prólogo do livro, publicado em 1605, é afirmado que a obra foi “engendrada em uma prisão”. O consenso dos historiadores é, no entanto, que apesar de ideia inicial do livro possa ter sido pensada durante uma das suas estadias em celas da coroa espanhola, o livro em si terá sido redigido após o regresso à liberdade.
De Profundis, de Oscar Wilde
Este livro é na verdade uma longa carta, escrita na prisão e destinada ao amante do autor, o lorde Alfred Douglas, carinhosamente apelidado de Bosie neste texto. Esata não é, no entanto, uma carta de amor devota: Wilde descreve o egoísmo, superficialidade e outros defeitos no seu amado, num monólogo dramático e estilizado que acaba por se tornar um exercício de introspeção e autoanálise.
Papillon, de Henri Charrière
Papillon é mais um livro que não foi redigido literalmente na prisão: neste caso foi escrito e publicado apenas décadas depois do sucedido, em 1969. Mas a sua narrativa, apesar de incluir elementos que fogem à realidade, é considerada autobiográfica e baseia-se na experiência do autor Henri Charrière, quando esteve preso durante 13 anos sob acusação de homicídio — uma imputação que sempre negou. Realizou múltiplas tentativas de fuga nestes anos, que são retratadas no enredo do livro, tendo a última, em 1944, sido bem-sucedida. O livro tornou-se um sucesso mundial e foi adaptado ao cinema em 1973 e 2017.
Cartas, ensaios e testemunhos
As Cartas da Prisão, de Nelson Mandela
Durante os 27 anos em que esteve preso, principalmente na ilha de Robben Island, Nelson Mandela escreveu dezenas de cartas a familiares, amigos, advogados e autoridades. Reunidas neste volume, essas correspondências revelam uma das figuras mais importantes do século XX — a solidão, a esperança e a força moral deste homem exemplar, e símbolo global da luta contra o apartheid. Mais do que documentos históricos, são testemunhos de resistência incansável face à desumanização. Dentro da escrita epistolar e ensaística de prisioneiros políticos destaca-se também Letter From Birmingham Jail, de Martin Luther King, um dos textos fundamenteis do Movimento dos Direitos Civis, e os Writings from Prison, de Bobby Sands, membro do IRA famoso pelo seu falecimento numa prisão da Irlanda do Norte em 1981 no seguimento de uma greve de fome.
Tortura Branca, de Narges Mohammadi
Ativista iraniana e vencedora do Prémio Nobel da Paz de 2023, Narges Mohammadi escreve desde a prisão um testemunho devastador sobre o isolamento, a violência psicológica e a luta pela dignidade humana. Tortura Branca é uma obra literária de resistência e denúncia política por parte desta militante ativista feminista, proponente da desobediência civil e presa múltiplas vezes pelo Tribunal Revolucionário Islâmico, um órgão de justiça especial implementado desde a Revolução Iraniana de 1979. Uma voz admirável, que se recusa a ser calada.
Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci
Preso pelo regime fascista de Mussolini em 1926, o pensador marxista italiano Antonio Gramsci escreveu na prisão a maior parte da sua obra teórica — mais de trinta cadernos e centenas de cartas que aprofunda, o seu pensamento em áreas desde a filosofia e linguística à história e ciência política. Nestes textos, Gramsci desenvolve conceitos que marcaram profundamente a teoria política do século XX, nomeadamente a sua conceção de hegemonia cultural como alicerce da ordem capitalista. Um testemunho de como o confinamento físico não limita a liberdade do pensamento.
Desobediência Civil, de Henry David Thoreau
Inspirado pela experiência de passar uma noite na prisão em 1846, após recusar pagar impostos destinados ao sustendo dos sistemas de escravidão e guerra, o autor norte-americando escreveu um dos ensaios mais influentes da história política moderna. O texto de Thoreau defende a primazia da consciência individual sobre as leis injustas, defendendo que não as devemos respeitar cegamente, mas antes resisti-las com desobediência. As suas ideias enquadram-se no pacifismo, abolicionismo e anarquismo e influenciaram figuras como Mahatma Gandhi e Martin Luther King.
The Tale of a Wall, de Nasser Abu Srour
O palestiniano Nasser Abu Srour foi preso aos vinte e poucos anos, em 1993, acusado de envolvimento no assassinato de um agente da Mossad, permanecendo encarcerado até a sua libertação a 13 de outubro deste ano, parte de um intercâmbio de reféns entre Israel e Gaza. Este autor sublimou a experiência de confinamento na dedicação à escrita, originando o seu livro Tale of a Wall, Reflections on the Meaning of Hope and Freedom, publicado em 2024 e finalista do Prémio de Literatura Árabe de 2025. These Chains Will Be Broken, que reúne cartas de prisioneiros em instituições israelitas, é outro retrato essencial da brutalidade do encarceramento político no contexto do genocídio na Palestina, reafirmando a dignidade daqueles que recusam ser silenciados.
A Consolação da Filosofia, de Boécio
No ano de 524 d.C., enquanto aguardava a execução por traição, o filósofo romano Boécio entregou-se a um diálogo com a personificação da filosofia, numa obra que se tornaria um dos textos mais influentes da Idade Média. Entre prosa e poesia, Boécio reflete sobre a fortuna, o sofrimento e o sentido da virtude, encontrando na razão uma forma de libertação interior. Um dos mais antigos e comoventes exemplos de como a profundidade do pensamento pode sobreviver mesmo diante da morte.
Writing Our Way Out, de David Coogan
Resultado de um projeto de escrita criativa com reclusos na prisão de Richmond, nos Estados Unidos, este livro reúne as vozes de homens que encontraram na literatura uma forma de reconstruir as suas vidas e histórias. Organizado pelo professor David Coogan, combina testemunhos autobiográficos, poesia e reflexão social, oferecendo um raro olhar de dentro sobre o sistema prisional americano e o poder transformador da palavra escrita.