O roteiro turístico que segue os passos de D. Quixote

Por: Beatriz Sertório a 2025-04-22

Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes

Romancista, dramaturgo e poeta espanhol. Foi o criador de "D. Quixote" (1605) e é considerado uma das figuras mais importantes da literatura espanhola. Nasceu em 1547, em Alcalá de Henares, Espanha, e morreu em 1616, em Madrid. Depois de ter estudado em Madrid, Cervantes partiu para a Itália e tornou-se soldado. Participou na batalha marítima de Lepanto, em 1571, na qual perdeu o uso da mão direita. Passadas muitas aventuras, incluindo cinco anos de captura nas mãos dos turcos, regressou a Espanha, em 1580.
Em 1585 escreveu "La Galatea", o seu primeiro livro de ficção, no novo estilo elegante da novela pastoral. Com a ajuda de um pequeno círculo de amigos, que incluía Luis Gálvez de Montalvo, o livro deu a conhecer Cervantes a um público sofisticado. As últimas edições em espanhol surgiram em Lisboa, em 1590, e em Paris, em 1611. Na mesma altura, durante a "idade de ouro" do teatro espanhol, também se dedicou ao drama. Em 1585 foi contratado para escrever peças para Gaspar de Porras. A que mais se destacou foi "La Confusa", considerada por Cervantes a melhor que alguma vez criou. Escreveu cerca de vinte ou trinta peças teatrais, mas apenas duas sobreviveram: "El Trato de Argel" e "La Numancia". Seguiu-se uma pausa na sua carreira literária. Depois de falhar como dramaturgo e de verificar que não conseguiria viver apenas da literatura, tornou-se comissário de aprovisionamento da Armada Invencível, em 1587.
Em 1604 Cervantes vendeu os direitos da primeira parte da novela "El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha". Em Janeiro do ano seguinte, a obra foi publicada e tornou-se um sucesso imediato. Em Agosto do mesmo ano, foram realizadas várias edições: duas em Madrid, duas em Lisboa e uma em Valência. Num curto espaço de tempo, o nome de Miguel de Cervantes passou a ser tão conhecido em Inglaterra, em França e em Itália, como em Espanha.
Em 1613 foram publicadas doze pequenas histórias, à maneira italiana, as "Novelas Ejemplares", cujo prólogo continha a única imagem autêntica do autor. No mesmo prólogo, Cervantes reivindica-se como o primeiro a escrever novelas originais em castelhano. Em 1614 foi publicado a "Viage del Parnaso", com o objetivo de glorificar um grande número de poetas contemporâneos e satirizar outros. É um longo poema alegórico, de escárnio mitológico e escrito em forma satírica, com um pós-escrito em prosa. Em 1615, depois de perder todas as esperanças de ver as suas peças em palco, oito delas foram publicadas em conjunto com oito interlúdios cómicos, com o título de "Ocho Comedias y Ocho Entremeses Nuevos". Posteriormente, esta obra foi reconhecida como uma das melhores do género. Em 1615 Alonso Fernández de Avellaneda, admirador de Lope de Vega, publicou, em Tarragona, a "Segunda parte del ingenioso Cavallero Don Quixote de la Mancha". No prólogo, Avellaneda insultou Cervantes que, como era esperado, lhe respondeu de uma forma mais comedida. Em 1616 a obra foi publicada em Bruxelas e em Veneza e, um ano depois, em Lisboa. A grande maioria das pessoas consideram esta segunda parte mais rica e mais profunda do que a primeira.
Nos últimos anos de vida, Cervantes trabalhou em várias obras, tais como "Bernardo", o nome lendário de um herói épico espanhol; "Semanas del Jardín", uma coleção de fábulas; e a continuação de "La Galatea". A única publicada postumamente foi "Los Trabajos de Pérsiles y Segismunda, história setentrional", em 1617. Nessa obra, Cervantes procurou renovar os romances heróicos de aventura e de amor, à maneira de "Aethiopica" de Heliodorus. Explorou, assim, o potencial mítico e simbólico do romance. Na dedicatória, escrita três dias antes de morrer, Cervantes despediu-se comovidamente, dizendo-se "com um pé já no estribo". Miguel de Cervantes morreu em 1616, possivelmente vítima de hidropisia, de arteriosclerose ou de diabetes, parecendo ter alcançado uma serenidade final de espírito.
© 2003 Porto Editora, Lda.

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No ano em que se assinalam 420 anos da publicação da obra-prima de Miguel de Cervantes, o Portal Oficial de Turismo de Espanha convida os leitores de D. Quixote de la Mancha a seguir os seus passos. Segundo a Real Academia Española, a jornada do Cavaleiro da Triste Figura e do fiel Sancho Pança terá durado cerca de cinco meses e doze dias, mas pode recriá-la em apenas sete, numa viagem de carro que atravessa 13 vilas e cidades do interior espanhol. Descubra este roteiro literário no dia em que se cumprem 409 anos da morte de Cervantes, e guarde-o para as suas próximas férias.
 
Dia 1: Alcalá de Henares

Faz apenas sentido começar o roteiro onde tudo começou, isto é, o local onde nasceu Miguel de Cervantes, no dia 29 de setembro de 1547. Alcalá de Henares fica a pouco mais de 30 km de Madrid e o seu centro histórico foi classificado como Património da Humanidade da UNESCO – fique com alguns pontos imperdíveis para a sua viagem “quixotesca”:
 

  • Calle Mayor: é uma das ruas mais emblemáticas da cidade e a mais longa da Europa com arcadas contínuas de ambos os lados. Nela, encontra-se o Museu Casa Natal de Cervantes e, à entrada, uma escultura de D. Quixote e Sancho Pança.

  • Praça de Cervantes: além do nome que homenageia o autor, abriga ainda uma estátua de Cervantes e é um dos pontos de interesse da Semana Cervantina, uma festa que todos os anos celebra o legado do autor. Aqui fica também o Corral de Comedias, um dos teatros mais antigos da Europa ainda em funcionamento.

  • Museu Casa Natal de Cervantes: situado na Calle Mayor, é uma reconstrução da casa onde o autor terá nascido e vivido em criança. O seu acervo abriga uma coleção de edições importantes da sua obra, incluindo exemplares raros como uma edição portuguesa de 1605 e a primeira edição ilustrada em espanhol, de 1674.

 
Dia 2: Madrid

A capital e a maior cidade de Espanha está repleta de referências a Dom Quixote e ao seu criador, Miguel de Cervantes. Daria facilmente para passar uma semana inteira a explorá-las, mas se quiser focar-se apenas nos mais emblemáticas, estes são paragens obrigatórias:
 

  • Igreja e Convento das Trinitárias Descalças: localizada no coração do Bairro das Letras, na rua Lope de Vega, é o local onde se acredita que estejam os restos mortais de Cervantes e da sua esposa.

  • Taberna Casa Alberto: fundada em 1827, esta tradicional taberna madrilena está instalada no edifício onde, segundo se crê, Cervantes viveu enquanto escrevia Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda, bem como a segunda parte de Dom Quixote.
     
  • Sociedade Cervantina: funcionando atualmente como centro cultural, está situada no edifício onde funcionava a gráfica de Juan de la Cuesta, o impressor responsável pela primeira edição de Dom Quixote, publicada em 1605.
     
  • Biblioteca Nacional: localizada no Paseo de Recoletos, o seu acervo inclui um valioso exemplar da primeira edição de Dom Quixote.
     
  • Praça da Espanha: um dos pontos mais fotografados de Madrid, esta praça abriga um grande monumento em homenagem a Miguel de Cervantes e à sua obra.

 
Dia 3: Esquivias – Toledo

A cerca de 40 km de Madrid, encontramos Esquivias, na província de Toledo, terra natal de Catalina de Salazar y Palacios, esposa de Miguel de Cervantes. Foi aqui que o casal viveu por algum tempo, na atual Casa de Cervantes — hoje transformada em museu.

Seguindo viagem, em apenas meia hora de carro chegamos a Toledo, cidade Património da Humanidade da UNESCO, conhecida como a "Cidade das Três Culturas", e que também não pode deixar de visitar.
 

Dia 4: Consuegra (Toledo) – Alcázar de San Juan (Ciudad Real)

A 60 km de Toledo, chega-se a Consuegra, famosa pelos seus moinhos de vento, que inspiraram um dos episódios mais emblemáticos de Dom Quixote. Suba até o morro para apreciar a vista e conhecer os 12 moinhos bem preservados, com destaque para o Moinho Sancho, que conserva a maquinaria original do século XVI, e o Moinho Bolero que está aberto para visitação.

A cerca de 30 minutos de carro, fica Alcázar de San Juan, cidade que escolheu Cervantes como seu filho predileto e que reivindica ser o verdadeiro local do seu batismo. Não deixe de visitar estes pontos de interesse:

  • Igreja de Santa María la Mayor: onde se encontra uma certidão de batismo de um Miguel de Cervantes, levando alguns estudiosos a defender que o escritor teria nascido em Alcázar e não em Alcalá de Henares.
     
  • Molinos de Alcázar de San Juan: no Cerro de San Antón, encontrará mais quatro moinhos bem preservados, com excelentes vistas panorâmicas sobre a cidade.
     
  • Museu Casa do Fidalgo: instalado numa casa senhorial típica do século XVI, este museu oferece uma recriação fiel da vida quotidiana de um fidalgo da época, permitindo compreender melhor o contexto social da obra de Cervantes.
     
  • Centro de Interpretação Cervantino: um espaço dedicado à vida e obra do autor, com exposições interativas, documentos e edições históricas do Dom Quixote.

 
Dia 5: Campo de Criptana (Ciudad Real) – El Toboso (Toledo)

A menos de 10 quilómetros de Alcázar de San Juan, chegamos a Campo de Criptana, outra das famosas “terras de gigantes”, onde os moinhos de vento dominam a paisagem.

E a apenas 20 minutos de carro fica El Toboso, vila associada à personagem Dulcineia, o grande amor de Dom Quixote. Aí, não pode deixar de visitar:

  • Museu Casa de Dulcineia: instalado num casarão típico manchego do século XVI, acredita-se que terá sido a casa de Ana Martínez Zarco de Morales, conhecida como “dulce Ana”, a inspiração de Cervantes para a personagem de Dulcineia.
     
  • Plaza Mayor: localizada no coração da vila, é onde pode encontrar o monumento que El Toboso dedicou a Dulcineia e ao seu eterno apaixonado.
     
  • Museu Cervantino: abriga uma impressionante coleção de edições de Dom Quixote em mais de 70 línguas, muitas delas assinadas por personalidades do mundo da política e da cultura.

 
Dia 6: Argamasilla de Alba (Ciudad Real) – Ossa de Montiel (Albacete) – Villanueva de los Infantes (Ciudad Real)

A cerca de 50 quilómetros de carro, chegamos a Argamasilla de Alba, onde não pode faltar uma visita à Casa de Medrano. Afinal, é lá que se encontra a famoso Caverna de Medrano, onde Cervantes ficou prisoneiro e onde se acredita que terá iniciado a escrita de Dom Quixote.

Daí, seguimos para Ossa de Montiel, onde dois locais ocupam um lugar especial no imaginário quixotesco:

  • Caverna de Montesinos: onde D. Quixote desceu através do tempo numa das passagens mais misteriosas da obra (é necessário agendar a visita com antecedência).
     
  • Ruínas do Castelo de Rochafrida: uma antiga fortaleza medieval em ruínas, igualmente mencionada em Dom Quixote.


A partir de Ossa de Montiel, vale a pena seguir cerca de 50 quilómetros até Villanueva de los Infantes para visitar a casa de Dom Diego de Miranda — personagem tradicionalmente associado ao Cavaleiro do Verde Gabão, cujas façanhas são frequentemente recordadas por Dom Quixote ao longo da obra.

Por fim, siga até Ciudad Real, onde pode pernoitar.
 

Dia 7: Ciudad Real – Almagro (Ciudad Real)

Neste último dia de viagem, aproveite a manhã para explorar Ciudad Real e visitar o Museu do Quixote, um espaço que combina arte e multimédia em homenagem à imortal personagem criada por Cervantes.

À tarde, conduza durante 30 minutos até Almagro, uma das vilas mais encantadoras da região, e termine o roteiro visitando alguns dos seus principais pontos turísticos:

  • Plaza Mayor: considerada uma das praças mais bonitas de Espanha, é o coração da vila e um excelente ponto para relaxar e apreciar a atmosfera local.
     
  • Corral de Comedias: um teatro do século XVII ainda em funcionamento – vale a pena assistir a uma visita teatralizada.
     
  • Museu Nacional do Teatro: um museu imperdível para todos os amantes da arte dramática.

 
Se preferir prolongar a sua viagem pelo universo de Cervantes e D. Quixote, há ainda muito por descobrir. Em Valladolid, por exemplo, encontra-se o Museu Casa de Cervantes, e a região de La Mancha oferece inúmeros roteiros inspirados no autor e na sua obra. Ao longo do ano, existem também várias datas especiais que celebram Cervantes, como a Semana Cervantina em Alcalá de Henares, ou o Dia Mundial do Livro, também conhecido como Dia de Cervantes, comemorado por todo o país.

Além disso, pode sempre regressar às páginas de Dom Quixote de la Mancha e reviver a viagem do Engenhoso Fidalgo e do seu fiel escudeiro quantas vezes quiser – essa que em vez de começar com “era uma vez” começa com “num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me”…

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