Trabalho doméstico não remunerado: livros que dão voz ao trabalho invisível

Por: Maria João Viegas a 2026-07-22

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Kim Jiyoung, nascida em 1982
16,65€
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O Ponto Zero Da Revolução
10,99€
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Longbourn
15,90€
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Orgulho e Preconceito
18,85€ 16,97€
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Criada
18,50€
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Mulheres Invisíveis
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Há trabalhos que não aparecem no currículo. Não recebem salário, nem contam para promoções, mas, ainda assim, sem eles, nenhuma casa — e, por extensão, nenhuma sociedade — conseguiria funcionar.

Preparar refeições, limpar, tratar da roupa, fazer compras, cuidar dos filhos ou acompanhar familiares mais velhos são tarefas essenciais ao quotidiano de milhões de pessoas. Estas tarefas continuam, em muitos casos, a cair de forma desproporcional sobre as mulheres e permanecem, em grande medida, invisíveis.

Assinalar o Dia Internacional do Trabalho Doméstico Não Remunerado é reconhecer este trabalho e questionar porque continua, tantas vezes, a ser encarado como uma obrigação "natural" e não como aquilo que verdadeiramente é: trabalho. Trabalho que traz consigo uma carga física evidente, mas também uma elevada e ainda menos reconhecida carga mental.

É esse peso emudecido que podemos observar em Kim Jiyoung, Nascida em 1982, da autora sul-coreana Cho Nam-joo:

“Kim Jiyoung está deprimida. Kim Jiyoung está furiosa. Kim Jiyoung é dona de si. Kim Jiyoung é todas as mulheres.”

É esta a passagem que termina a sinopse que figura na contracapa da edição inglesa do livro — e resume bem o efeito que a obra teve, com o The Times chegando a descrever a sua história como “um uivo de raiva disfarçado de romance.”

À primeira vista, Kim Jiyoung leva uma vida comum. Estuda, trabalha, casa e, depois de ser mãe, acaba por deixar a carreira para assumir a maior parte das responsabilidades familiares. À medida que a pressão se acumula, começa a falar como se fosse outras mulheres da sua vida: a mãe, uma amiga, uma antiga colega. Quem a rodeia diz que “enlouqueceu”. O leitor, porém, percebe que aquelas vozes dão forma a uma experiência partilhada por muitas mulheres.


Publicado em 2016, tornou-se um rapidamente fenómeno na Coreia do Sul, vendendo mais de um milhão de exemplares. Mas gerou também uma enorme polémica. Para muitas leitoras, o livro colocou em palavras uma exaustão que já conheciam bem; para outros, foi lido como um ataque aos homens e uma ameaça aos papéis de género tradicionais.

A dimensão desta controvérsia tornou-se particularmente visível em 2018, quando a cantora Irene, do grupo Red Velvet, revelou durante um encontro com fãs que estava a ler Kim Jiyoung. Nos dias seguintes, um número de “admiradores” masculinos anunciaram que deixariam de a apoiar, multiplicaram-se os comentários hostis e ameaças nas redes sociais e chegaram mesmo a ser divulgadas imagens de fotografias da cantora rasgadas e queimadas. O caso tornou-se um dos exemplos mais conhecidos da forma como o debate em torno do feminismo e dos papéis de género se polarizou na Coreia do Sul, onde até a leitura de um romance podia ser interpretada como uma declaração política.

Esse episódio, contudo, é apenas uma das faces mais visíveis de um fenómeno mais amplo. No próprio romance surge a expressão coreana mam-chung, um termo depreciativo — literalmente algo próximo de "mãe-praga" ou "mãe-barata" — utilizado para ridicularizar mães, sobretudo as que ficam em casa a cuidar dos filhos, retratando-as como um peso para a sociedade que vive à custa do rendimento dos maridos. O próprio facto de existir uma palavra para este estigma diz muito sobre a forma como o trabalho doméstico e de cuidado continua a ser desvalorizado. Talvez por isso tenha bastado um romance dar voz a esse cansaço para provocar tanta fúria.

Mas este cansaço já tinha sido nomeado muito antes. Desde a década de 70, autoras e ativistas como Silvia Federici, uma das figuras centrais no movimento Wages for Housework, ajudaram a transformar o trabalho doméstico e de cuidado num tema central da teoria feminista, questionando porque continuava a ser visto como uma obrigação privada, em vez de um dos pilares invisíveis da economia. Em O Ponto Zero da Revolução, Federici recupera precisamente essas reflexões, mostrando que aquilo que acontece dentro de casa nunca foi apenas uma questão doméstica.

Se o pensamento feminista procurou tornar este trabalho visível no campo político e social, a literatura encontrou outras formas de lhe dar um rosto.


Em Longbourn, Jo Baker regressa ao universo de Orgulho e Preconceito para contar a história que Jane Austen deixou fora de cena. Enquanto Elizabeth Bennet percorre grandes salões, dança em bailes e protagoniza uma das histórias de amor mais conhecidas e celebradas da história da literatura — e do cinema —, há vestidos para lavar, lareiras para acender, refeições para preparar e quartos para arrumar.

Baker desloca o foco para os criados e criadas da casa Bennet e lembra-nos que, por detrás das grandes histórias literárias, existiram sempre outras vidas, sustentadas por trabalho árduo e raramente reconhecido que, durante séculos, ficaram de fora da narrativa. Em vez de seguir a família que encabeça o clássico incontornável, neste romance, quem lava, cozinha, serve e mantém a casa a funcionar deixa de ser mero pano de fundo para ocupar, finalmente, o centro da história.

No fundo, Longbourn faz o mesmo aos clássicos que Kim Jiyoung faz ao presente: dá nome a um cansaço que a história muitas vezes prefere não registar — ou que não considera digno de reconhecimento.


É precisamente essa realidade que Stephanie Land expõe em Criada. Nesta autobiografia, Land relata os anos em que trabalhou como empregada de limpeza para sustentar a filha depois de abandonar uma relação abusiva. Entre casas impecavelmente arrumadas e dificuldades financeiras constantes, revela um paradoxo difícil de ignorar: o de que, quanto mais essencial é o trabalho de cuidar e limpar, menos valorizado tende a ser. E o trabalho doméstico é, tipicamente, um dos quais apenas se dá conta quando deixa de ser feito

As suas memórias recordam-nos que limpar, cuidar e manter uma casa a funcionar nunca são gestos "simples". Exigem tempo, energia e competência — mesmo quando a sociedade insiste em tratá-los como se fossem apenas uma expetativa, uma obrigação ou um talento feminino inato.

Muito mais do que, como alguns podem achar, um relato sobre pobreza ou precariedade, Criada é uma reflexão sobre dignidade, resiliência e sobre o valor de um trabalho sem o qual o quotidiano de tantas famílias simplesmente não seria possível. Embora neste caso se fale de trabalho remunerado, a questão central permanece a mesma: porque é que continuamos a tratar o trabalho doméstico como algo menor quando tanto do nosso dia a dia depende dele?

O trabalho doméstico não remunerado não é invisível apenas dentro de casa. Em Mulheres Invisíveis, Caroline Criado Perez mostra como a experiência das mulheres foi, durante décadas, omitida dos dados que orientam decisões políticas, económicas, sociais e até mesmo médicas e científicas. Entre muitos exemplos, a autora aborda precisamente o trabalho doméstico e de cuidado, demonstrando que aquilo que não é contabilizado acaba, muitas vezes, por não ser reconhecido — nem em orçamentos de Estado, nem em políticas públicas, e muito menos na conceção social sobre o que conta como "trabalho a sério", e, por isso, persiste a ideia de que não existe.

"Não existe uma mulher que não trabalhe. Existe apenas uma mulher que não é paga pelo seu trabalho."

 

— Caroline Criado Perez

Porque é importante falar sobre isto?

O trabalho doméstico não remunerado continua a ser uma realidade para milhões de pessoas em todo o mundo e, na maioria dos casos, são as mulheres que dedicam mais horas às tarefas da casa e aos cuidados familiares.

A literatura não resolve as desigualdades, mas pode fazer algo igualmente importante: dar-lhes um rosto, um nome e uma história. Ao acompanharmos estas personagens e pessoas reais, percebemos que cozinhar, limpar, cuidar, organizar ou apoiar emocionalmente quem nos rodeia não são apenas pequenas tarefas do dia a dia. São formas de trabalho que sustentam famílias, comunidades e sociedades inteiras.

Porque, por vezes, a maior força de um livro não está em oferecer respostas, mas em ensinar-nos a reparar naquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos. E, durante demasiado tempo, o trabalho doméstico e de cuidado foi precisamente uma dessas realidades.

Resta dizer que nenhum destes livros exige que o trabalho doméstico ou o cuidado devam ser vistos como como atos de heroísmo. O que todos pedem é algo muito mais simples: que sejam vistos, reconhecidos e valorizados pelo que são.

Porque talvez a invisibilidade nunca tenha resultado da falta de histórias, mas, antes, de não lhes termos prestado a devida atenção.

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