Há artistas cuja criatividade parece recusar limites. Conhecemo-los pelos álbuns, pelos concertos e pelas canções que marcaram gerações, mas alguns encontraram também na literatura uma forma de explorar novas histórias, ideias e emoções. Entre romances, poesia, memórias e livros infantis, estes músicos provaram que o talento para contar histórias não se fica pelas letras das canções.
Dos palcos às livrarias, reunimos 7 músicos que somaram o microfone à caneta e provaram que a criatividade não conhece fronteiras.
Chico Buarque
Chico Buarque é um caso raro de artista que é, em simultâneo, um dos maiores nomes da música brasileira e um romancista premiado. Estreou-se na ficção em 1991 com Estorvo, e seguiram-se títulos como Budapeste (2003) — talvez o seu romance mais conhecido, sobre um ghostwriter brasileiro perdido entre línguas e identidades — que recebeu, em 2009, uma adaptação cinemática, e Leite Derramado (2009), que acompanha, num monólogo comovente, a memória de um homem centenário e a decadência da sua família ao longo de um século de história do Brasil. Em 2019, foi distinguido com o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra.
Curiosidade
Antes de se tornar romancista, Chico já demonstrava o seu fôlego de escritor nas canções. Construção (1971) é considerada uma das letras mais sofisticadas da música popular brasileira: usa sistematicamente o hipérbato (inversão da ordem natural das palavras) e termina cada verso com uma palavra esdrúxula, criando um efeito de estranheza e tensão que espelha o tema da canção — a rotina desumanizadora e a morte de um operário de construção civil. É, ainda hoje, estudada em escolas e universidades como exemplo de virtuosismo poético aplicado à canção.
Sérgio Godinho
O "homem dos sete instrumentos" também é, há muito, homem das palavras escritas fora da pauta. Sérgio Godinho estreou-se na ficção em 2014 com Vidadupla, um conjunto de contos, a que se seguiu o seu primeiro romance, Coração Mais Que Perfeito (2017). Mais recentemente, publicou o romance Vida e Morte nas Cidades Geminadas (2024). Godinho tem também uma obra infantojuvenil, O Pequeno Livro dos Medos (2009) que o próprio ilustrou, e um livro de poesia, O Sangue por Um Fio (2009).
Patti Smith
Patti Smith, a Madrinha do Punk, é também uma das memorialistas mais respeitadas da literatura americana contemporânea. Apenas Miúdos (2010), vencedor do National Book Award, recorda a sua amizade e cumplicidade artística com o fotógrafo Robert Mapplethorpe na Nova Iorque das décadas de 60 e 70. Seguiram-se M Train, em 2015, um retrato mais fragmentado e contemplativo da vida quotidiana e da escrita, e O Ano do Macaco, em 2019, sobre perda e passagem do tempo.
Bob Dylan
Prémio Nobel da Literatura em 2016, Bob Dylan tem uma relação antiga e pouco convencional com a palavra escrita fora das canções. Tarântula (1971) é um livro experimental, quase de escrita automática, dos seus anos mais psicadélicos. Décadas depois, Crónicas - Volume I (2004) surpreendeu por ser uma autobiografia lúcida e bem construída sobre os seus primeiros anos em Nova Iorque. Já A Filosofia da Canção Moderna (2022), o primeiro livro que publicou após receber o Nobel, é uma coleção de 66 ensaios curtos sobre canções e artistas que o marcaram — desde Little Richard a Elvis Costello, a Judy Garland e Nina Simone — e uma reflexão sobre o que faz uma “boa canção”.
Leonard Cohen
Antes de enveredar no mundo da música, Leonard Cohen já era reconhecido como poeta e romancista. Publicou o romance O Jogo Favorito em 1963 e, três anos depois, antes de lançar o seu primeiro álbum de estúdio, Vencidos da Vida, uma obra vanguardista e muito controversa para a época. A poesia acompanhou-o a vida inteira, com obras como Livro do Desejo (2006), publicado já perto do final da sua carreira musical. Pode encontrar vários dos seus poemas, bem como as ilustrações de Cohen, nas Blackening Pages, do site The Leonard Cohen Files.
Luísa Sobral
Depois de ter assinado Amar Pelos Dois, a canção que deu a Portugal a sua primeira vitória na Eurovisão, bem como diversas outras célebres canções, Luísa Sobral tem construído também um percurso como autora. Publicou os livros infantis Quando a Porta Fica Aberta (2022) e O Peso das Palavras (2024) e, em 2025, estreou-se na ficção com o romance Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, vencedor do Prémio Livreiros Bertrand Autores Lusófonos e do Prémio Livro do Ano Bertrand - Ficção Lusófona. Este ano publicou ainda Da Minha Janela, o seu primeiro livro de crónicas.
Michelle Zauner
Vocalista e guitarrista da banda indie Japanese Breakfast, Michelle Zauner escreveu um dos livros de memórias mais aclamados dos últimos anos: Lágrimas no Mercado (2021), baseado no seu renomado ensaio escrito em 2018 para o The New Yorker. O livro aborda o luto pela perda da mãe, a sua identidade coreano-americana e a forma como a comida preserva memórias e afetos. A obra tornou-se um autêntico fenómeno, chegando a passar mais de um ano na lista de bestsellers do New York Times, e recomendado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Lágrimas no Mercado está também no processo de ser adaptado para os ecrãs, com guião da própria autora.
Uma curiosidade final: Madonna também escreveu livros
A Rainha do Pop tem uma faceta pouco conhecida enquanto autora de livros infantis. Em 2003, publicou As Rosas Inglesas, que se tornou um fenómeno de vendas em mais de 100 países, explorando temas como a amizade, a empatia, a autoestima e a generosidade. Seguiram-se outros títulos como Pipas de Massa (2005), ilustrado pelo artista português Rui Paes, com o seu primeiro lançamento ocorrendo em Portugal, seis dias antes de estrear em outros países.
Afinal, muda apenas o formato
Canções e livros parecem pertencer a mundos diferentes, mas partilham a mesma essência: ambos vivem das palavras e das histórias.
Nestes artistas, a passagem da música para a literatura não representa uma mudança de rumo, mas, antes, uma continuação natural de um percurso criativo. Porque, quando existe vontade de contar uma boa história, nem sempre três minutos chegam. E, felizmente para os leitores, há histórias que encontram nas páginas o espaço de que precisam para ganhar uma nova vida.
Da poesia ao romance, das memórias aos livros infantis, estes músicos mostram que a criatividade raramente cabe só num formato.