Em 1968, o romance Bound to Violence, do escritor malaio Yambo Ouologuem, ganhou o segundo prémio literário mais prestigiado de França, o Renaudot. Acusado de plágio, Ouologuem parou de escrever e voltou para o Mali. Este acontecimento foi a inspiração de Mohamed Mbougar Sarr, para escrever A Mais Secreta Memória dos Homens, aclamado como “um hino à literatura”, que por figurar entre os finalistas de todos os grandes prémios literários franceses e arrecadar o mais prestigiante de todos, o Goncourt.
O romance conta a história de dois escritores: um jovem senegalês aspirante a escritor, Diégane Latyr, e um escritor obscuro (um “Rimbaud Negro”), Elimane, que desaparece após a publicação de seu livro, O Labirinto do Inumano, em 1938. Antes de seu súbito desaparecimento, Elimane tornara-se uma sensação literária, em França, tendo ganho um prestigiado prémio. Segue-se uma epopeia que cruza geografias, gerações, tragédia e vida e obra de escritores.
“De um escritor e da sua obra, podemos pelo menos saber isto: um e outro percorrem juntos o labirinto mais perfeito que possamos imaginar, um longo caminho circular, cujo destino se confunde com a sua origem: solidão.”
Mohamed Mbougar Sarr empunha, de forma hábil, a linguagem poética e pictórica para descrever a busca de Diégane Latyr, enquanto se questiona sobre o sentido da literatura — forma suprema de vida e redenção — e sobre a sua necessidade visceral de escrever um livro libertador (“(….) num acesso de loucura ou de lucidez, queimei as páginas do meu manuscrito”). Simultaneamente, oferece-nos uma entrada para a primeira fila das suas reflexões sobre a solidão e sobre o exílio.
Sarr, 31 anos, é o mais jovem vencedor do Goncourt desde 1976 e o primeiro escritor da África subsaariana a receber esta distinção. Numa entrevista ao The New York Times diz que se questiona se o prémio será, efetivamente, um reconhecimento ou “uma forma de o silenciar”, ciente que está das “questões políticas que podem estar por trás de um prémio como este”.
Mohamed Mbougar Sarr não esconde que o seu ídolo literário é Roberto Bolaño (1953-2003), que descreve como “um mestre da escrita, um mestre da leitura”, que lhe mudou a vida enquanto leitor e escritor. E é precisamente uma citação de Os Detetives Selvagens, (romance de Bolaño), que abre o romance e que lhe empresta o título.
“E a Obra segue a sua viagem para a solidão.”