No próximo dia 28 de junho é assinalado internacionalmente o Dia do Orgulho LGBTQIA+, sendo que todo este mês é tradicionalmente dedicado à comemoração das diversas identidades que se enquadram neste grupo. Em Portugal, tal como em muitos outros países, junho é um momento de alegria e celebração coletiva para todos os que pertencem a esta comunidade, mas também uma chance de recordar a dura luta pelos direitos conquistados.
Celebrado no aniversário dos motins de Stonewall, um momento marcante de confronto violento ocorrido em 1969, quando um bar frequentado pela comunidade queer em Nova Iorque foi alvo de uma rusga policial. A coragem das vítimas ao enfrentar e ripostar ativamente perante a injustiça desta intervenção repressiva, estimulou o debate público e mobilizou esta comunidade e os seus aliados numa luta militante pela igualdade e libertação, que mudou para sempre a sociedade americana.
Em Portugal, a história dos direitos LGBT está inevitavelmente ligada ao legado da repressão e censura do Estado Novo e a influência da Igreja Católica, destacando-se as ações de perseguição da Inquisição no longo período entre 1536 a 1821. Apesar da homossexualidade ter sido legalizada no século XIX, em 1852, voltou a ser criminalizada em 1886, e assim permaneceu durante quase 100 anos, até 1982. Só mesmo em ‘86, aquando da adesão à União Europeia, deixou de ser considerada uma doença mental passível de ser tratada, classificação concedida pelo polémico neurologista Egas Moniz no seu livro A Vida Sexual e Pathologia, publicado em 1931.
Felizmente, podemos hoje encontrar nas estantes de qualquer livraria obras atuais e esclarecedoras sobre este assunto tão importante para a manutenção da dignidade de todos nós. Mais do que ambicionar a assimilação é cada vez mais importante repensar os moldes ainda limitadores do nosso mundo, e abrir a nossa mente para a diversidade da experiência humana – conheça as nossas sugestões.
Ficção
O Quarto de Giovanni, de James Baldwin
Esta obra seminal de James Baldwin segue o percurso sinuoso de um jovem americano em Paris nos anos 50, onde mergulha no mundo clandestino da vida noturna desta cidade, e se envolve num caso tempestuoso com Giovanni, com quem partilha quarto. A linguagem evocativa de Baldwin conta uma história trágica inesquecível, que nos absorve na angustiante realidade da auto-repressão e demonstra as suas consequências mais duras.
Apartamento em Crise, de Bruno Leão
Neste romance Young Adult de Bruno Leão, editado pela Secret Society, seguimos a aventura de Tiago ao partilhar casa com os seus quatro amigos (talvez de forma mais permanente do que imaginava…) e do rapaz que não lhe sai da cabeça. Uma comédia romântica muito atual e cheia de humor e leveza, com a crise na habitação como pano de fundo, e muitas peripécias.
Lunário, de Al Berto
Publicado em 1988, este texto em prosa do poeta e artista Al Berto, explora sem pudor a vida urbana boémia, expondo a cumplicidade de uma geração libertina que partilha uma vida diletante e intensa, “numa febre constante, numa vertigem, num excesso permanente.” A vivência de uma sexualidade fluida e sem limites, no contexto da sociedade portuguesa destas décadas, é retratada de forma crua e evocativa, assim como a melancolia e isolamento experienciada por várias personagens do enredo.
Destransição, Baby, de Torrey Peters
Torrey Peters permaneceu durante anos cética em relação à publicação através de grandes grupos editoriais, com as suas novellas auto-publicadas na internet a ganhar popularidade dentro da esfera online da cena literária trans. Tudo mudou com a publicação de Detransition, Baby pela Penguin Random House em 2021, e a subsequente nomeação da autora para o Women’s Prize Award, que gerou polémica devido à identidade de género da autora. Este livro explora de forma humanizadora as complexidades da transição, destransição, parentalidade e perda.
Não Ficção
Irmã Marginal | Sister Outsider, de Audre Lorde
Esta coletânea de textos de Audre Lorde, uma das mais marcantes figuras do ativismo e dos estudos feministas, queer e anti-racistas, desconstrói a experiência de viver às margens da “mítica” heteronormatividade branca, pondo em causa a validade da mesma em se elevar sobre todos os que lhe escapam. Na sua análise, Lorde propõe que a diferença e alteridade nos campos da raça, sexualidade, género e idade opera como uma força central e valiosa na sociedade humana. Uma leitura essencial para olhar para o mundo com outros olhos.
Pageboy, de Elliot Page
A autobiografia de Elliot Page aborda o processo de descoberta do actor, da sua sexualidade e identidade de género, a par com o seu trajeto para o estrelato catalisado pelo sucesso do filme de culto Juno. Um relato intimista acerca da experiência trans, e de como Page se libertou da repressão carregada durante tanto tempo e agravada pela pressão sufocante do mundo de Hollywood e as suas expectativas para um jovem actor.
Manifesto Contra-Sexual, de Paul B. Preciado
Este clássico de culto do pensamento queer, publicado no ano 2000, une a filosofia à análise da cultura pop para propor um manifesto revolucionário “contra-sexual”, baseado numa ideia de ausência de género e desconstrução das estruturas normativas que guiam a nossa visão do próprio corpo e sexualidade. Um livro ousado e incisivo, em que a prática e a teoria se fundem para formular algo verdadeiramente novo.