O mês de junho é marcado em Portugal e a nível global pelas celebrações do Orgulho LGBTQIA+, com inúmeras marchas, festivais e eventos educativos a encher as ruas de cor e alegria. Para além de uma celebração, esta época relembra a história da luta pelos direitos civis e igualdade perante a lei e sociedade, uma luta contínua, pois infelizmente a homofobia, transfobia e outras formas de opressão continuam a afetar milhões de pessoas em todo o mundo diariamente.
O mês de junho foi escolhido por ser o aniversário da Revolta de Stonewall, que se deu em Nova Iorque, em 1969. No seguimento de uma rusga policial num local popular da comunidade LGBTQIA+ em Greenwich, vários jovens foram presos e agredidos sob premissas questionáveis, acabando por reunir o apoio de cerca de 400 pessoas que se juntaram em protesto durante quase 5 dias. Este acontecimento teve impacto não só nos Estados Unidos, mas por todo o mundo, impulsionando a construção de um movimento mais ativo movido por esta causa.
Neste mês emblemático, celebramos esta comunidade em toda a sua diversidade de perspectivas que, apesar de historicamente marginalizadas, estão presentes na literatura desde sempre. Os livros que sugerimos reflectem a experiência de autores e personagens cujas identidades se enquadram em categorias de género e sexualidade excluidas do que é considerado normativo, incluindo desde obras contemporâneas a clássicos da literatura.
As suas histórias são importantes não só para aqueles que pertencem a esta comunidade, mas para todos os que pretendem viver numa sociedade inclusiva. Sem estas vozes, corremos o risco de construir um mundo sem espaço para a diferença.
O Retrato de Dorian Gray – Edição não censurada de Oscar Wilde
Basil Hallward, um artista famoso, pinta o retrato de Dorian Gray, fascinado com este jovem elegante e educado que encanta a sociedade londrina do final do século XIX. É através deste pintor que Dorian conhece Henry Wotton, um homem rico, cínico e hedonista, por quem se vai deixar influenciar. Convencido de que procurar o prazer e beleza são as coisas para as quais vale a pena viver, Dorian comenta com os dois homens que faria tudo para permanecer eternamente belo e jovem. É então que começa a dar-se um estranho fenómeno: apesar do declínio moral e dos anos que passam por Dorian, ele permanece sempre com a mesma aparência juvenil e agradável. Porém, no quadro o seu retrato vai mostrando todas as marcas do tempo e da sua vida cheia de vícios. Durante anos, Dorian consegue esconder o quadro do olhar de todos, mas há um dia em que o estranho mistério chega finalmente ao fim.
Esta edição reproduz o texto original de O Retrato de Dorian Gray, enviado em março ou abril de 1890 por Oscar Wilde a J. M. Stoddart, diretor de uma revista literária de Filadélfia. Mas este publicou a novela que havia solicitado a Oscar Wilde apenas depois de retirar algumas centenas de palavras com referências homossexuais e que, na sua opinião, poderiam ofender as suscetibilidades dos leitores. Como é explicado na nota acerca do texto, de Paulo Faria, esta edição retoma o texto original, enviado para a Lippincott’s Monthly Magazine.
Género Queer de Maia Kobabe
Em Género Queer, Maia Kobabe criou uma autobiografia intensamente catártica sobre a sua jornada para se identificar como pessoa não binária e assexual, e para se assumir perante a sua família e a sociedade. Ao abordar questões sobre identidade de género — o que significa e como deve ser pensada —, a história também assume o papel de um guia muito necessário e comovente.
Originalmente editado nos EUA em 2019 pela Lion Forge Comics, esta obra em banda desenhada de Maia Kobabe recebeu, em 2020, o Alex Award da American Library Association, assim como o Stonewall Book Award. Apesar da sua inclusão em algumas bibliotecas escolares, foi também sujeita a proibição em algumas escolas, com Maia Kobabe a figurar em 2º lugar na lista de autores mais banidos nas escolas norte-americanas em 2022.
O Quarto de Giovanni de James Baldwin
O segundo romance de James Baldwin, uma obra de culto que o firmou definitivamente como um dos grandes escritores americanos do século XX.
David, um jovem nova-iorquino, vive ao sabor dos dias em Paris, cidade onde procura tomar rédeas da vida enquanto a noiva passa uma temporada em Espanha. Numa noite de farra num bar clandestino, David conhece Giovanni, um barman italiano, luminoso, sedutor, impertinente, e sente-se irremediavelmente atraído. Os dois homens entregam-se a uma relação intensa, confinada ao quarto de Giovanni, com a nuvem do retorno iminente de Hella a pairar sobre os amantes. O seu inevitável regresso exige que David escolha entre a normalidade de uma vida segura com Hella e a incerteza de um futuro ao lado de Giovanni, todo ele coração, força e instinto. A decisão do americano culminará numa tragédia inimaginável.
Impregnada de paixão, arrependimento e desejo, esta é a história de um trágico triângulo amoroso. E uma obra de culto merecido, que questiona a identidade de vários ângulos. Ao publicá-la em 1956, Baldwin quebrou mais do que um tabu: era um escritor negro a escrever sobre o amor entre dois homens brancos. O seu editor aconselhou-o a queimar o manuscrito, mas volvido este tempo O Quarto de Giovanni é uma das obras mais célebres de Baldwin.
Ara de Ana Luísa Amaral
Nesta obra de Ana Luísa Amaral, o formato de romance é interpretado pela lente particular da poetisa, tradutora e professora de literatura portuguesa, cujo trajeto passou pela edição da versão anotada de Novas Cartas Portuguesas, em 1972, e pela autoria, com Ana Gabriela Macedo, do Dicionário de Crítica Feminista em 2005.
Em Ara, encontramos um retrato de uma história de amor entre a narradora e outra mulher, contada num estilo fragmentado e contemplativo. Nas palavras de Maria Velho da Costa:
“Primeiro: a prosternação diante do altar. A hesitação diante da proliferação dos ritos: sacrifício, louvor, cântico, narrativa. Figuras e vozes, acólitos. Insurgências. Japoneiras e túneis do sentido. Discrepância a todas as vozes acumulando num sentido. Não único, mas unívoco. Desde a infância.
Segundo (como se diz de um andamento ou de um painel): o tríptico dentro do tríptico das DUAS IRMÃS: a narrativa oblatória e clara da paixão sáfica. Ardente e casta. Sem falso pudor. Vergonha é não te amar. A oferenda lírica.
Terceiro: não é coisa de rasgar como romance este romance. Assente na pedra do lar um prisma multifacetado e translúcido: o amor único, a palavra. A brisa do arado sobre a ara.”
No Meu Bairro de Lúcia Vicente e Tiago M.
No Meu Bairro tem como mote as diferenças que unem: um livro sobre inclusão e diversidade.
Este livro representa uma forma inspiradora de vida em comunidade. É um livro sobre cada um e sobre todos nós. Uma abordagem cheia de poesia à diversidade, ao respeito pela individualidade e à aceitação. Toma como missão mudar os estereótipos que existem na sociedade e assume, com orgulho, a diversidade, tornando-a visível para que se possa, finalmente, normalizar. Através de uma viagem pelas interrogações e vidas de doze crianças, fala-se de diversidade de género, familiar, racial ou de credo religioso, dando ferramentas a quem educa para abordar estes temas, cada vez mais presentes na vida das nossas crianças. A autora encontra nos livros a ferramenta ideal para a normalização de uma linguagem que represente de igual forma todas as pessoas e, nesse sentido, pela primeira vez em Portugal, assume a proposta do sistema gramatical neutro ELU.
Bloom N.º 1 – O verão em que o amor cresceu de Kevin Panetta; Ilustração: Savanna Ganucheau
Uma novela gráfica ao estilo de Heartstopper que nos apresenta a receita de um amor inocente e jovem, salpicado de humor e ilustrações belíssimas.
Agora que a escola acabou, o Ari sonha em mudar-se para a cidade e tocar com a sua banda. Para trás tem de deixar a padaria da família e os pais, que contam com a sua ajuda. Apesar de ter crescido com o cheiro do pão acabado de cozer, o Ari não consegue imaginar-se a passar o resto da vida entre fornos e sacos de farinha. Quando decide procurar alguém para o substituir, conhece o Hector, um rapaz simpático que adora cozinhar. À medida que trabalham juntos na padaria e se aproximam cada vez mais, o amor começa a fermentar… Se o Ari não deitar tudo a perder!