Roberto Bolaño nasceu em Santiago do Chile em 1953, mas a sua vida levou-o a viver em vários lugares, e a sua obra chegou indubitávelmente a todo o mundo. Na adolescência mudou-se para a Cidade do México com a família, e já nesta altura contava com um gosto voraz pela leitura – não limitado pela sua dislexia – e interessava-se especialmente por poesia, sendo um confessado ladrão de livros. Não acabou a escolaridade formal, mas depressa começou a trabalhar como jornalista e envolveu-se com movimentos políticos de esquerda. Voltou mais tarde ao Chile, em 1973, onde demomsntrou o seu apoio a Salvador Allende, o que lhe valeu a apreensão pela polícia aquando do assassinato do presidente. Viveu também em vários países europeus, tendo acabado por se instalar com a sua família em Espanha, onde continuou a escrever até à sua morte em 2003 com apenas 50 anos.
No mundo da literatura e cultura sul-americana, esteve na origem do Infrarrealismo, um movimento punk surrealista provocador, que se insurgia contra o status quo das humanidades latinas, tendo inclusive criticado alguns dos seus pares na cena intelectual como Isabel Allende e Octavio Paz. É um dos escritores latino-americanos mais importantes da sua geração, tendo sido reconhecido com vários galardões literários e com a captura do interesse de leitores a nível global. Conheça as nossas sugestões para conhecer melhor a escrita deste autor.
Os Detetives Selvagens
Começou a sua carreira no mundo da ficção sob a forma de novellas, mais curtas, sendo este o seu primeiro livro mais extenso. Um texto reflexivo, que explora a fundo a perspetiva das personagens e narradores, e aborda até a própria literatura como tema, misturando realidade com ficção ao estilo de Jorge Luis Borges. Segue os dois detetives Arturo Belano e Ulisses Lima, na sua busca durante 20 anos pela escritora Cerárea Tinajero, desaparecida no México logo após a revolução. Passando por vários continentes e através de um elenco de personagens marcantes e cheias de idiossincrasias, Bolaño conta esta história emblemática num dos seus livros mais imperdíveis.
2666
Considerado um dos mais importantes fenómenos literários das últimas décadas, esta obra publicada postumamente consumiu os últimos anos de vida do escritor. Concebida em parte com referência à sua própria vida e experiência, oferece um retrato vívido do mundo moderno, e do papel do artista neste mundo. As personagens de 2666 sofrem verdadeiramente pelo seu compromisso com a produção artística e com a autenticidade, levando vidas à margem, de rebeldia e desafio ao poder institucionalizado, sendo por vezes levadas à beira do precipício na sua missão.
A Literatura Nazi nas Américas
Neste livro Bolaño ficcionaliza uma série de autores pan-americanos, todos eles imaginados como fascistas e oportunistas do mais baixo nível. Escrito ao estilo de uma enciclopédia, com uma entrada detalhada para cada autor, e uma linguagem que mistura a formalidade deste tipo de texto com a ironia e crítica mordaz que não podiam faltar. Numa entrevista, Roberto Bolaño revela a intenção de retratar as contradições algo dúbias do mundo das letras, sendo estes autores imaginários uma metáfora para a oscilação entre heroísmo e o total rebaixamento moral e intelectual.
Estrela Distante
Contado sempre de forma indireta, sobre figuras muitas vezes ausentes, este livro vive das omissões e das histórias contadas indiretamente. A pedido de Arturo Belano, uma personagem que já conhecemos de Os Detetives Selvagens e que existe nesta narrativa apenas lateralmente, vamos conhecendo um homem misterioso. De vários nomes, mas inicialmente chamado Ruiz-Tagle, frequentava a cena literária do Chile nos anos 70, mas as suas convicções políticas eram alvo de suspeita, por estar sempre de alguma forma ligado a desaparecimentos no contexto do início da ditadura chilena. Explora mais uma vez as complexidades da vida de um artista a navegar um mundo moralmente comprometido, com o humor e visão peculiares do autor.