Itália, 1986. Num mosteiro, entregue aos cuidados dos monges que ali habitam, um homem encontra-se às portas da morte. "Mas desde quando é que os mortos não podem contar a sua história?", questiona. É a partir desta premissa que se desenrola a ação de Velar por Ela, obra vencedora do Prémio Goncourt 2023. Da autoria do escritor, realizador e argumentista francês Jean-Baptiste Andrea, é um romance que se lê como um filme, sobre a revolução silenciosa da amizade, do amor e dos livros, perante as garras afiadas do fascismo.
“Estendeu-me a mão e eu peguei nela. Assim, sem mais nem menos, transpondo de uma só vez insondáveis abismos de convenções, de impedimentos de classe. Viola estendeu-me a mão e eu peguei nela, uma proeza de que nunca ninguém falou, uma revolução silenciosa.”
Mais do que meio século de História de Itália e do mundo, Velar por Ela é a história, contada na primeira pessoa, de Michelangelo Vitaliani — também conhecido como Mimo —, e da sua amizade com Viola Orsini. Ele, um escultor prodígio de origens humildes, diagnosticado com nanismo à nascença. Ela, a filha rica de uma família poderosa, que devora livros e sonha voar. Os dois encontram-se na pequena aldeia de Pietra d’Alba, depois de a mãe de Mimo o abandonar e deixar a cargo do “zio” (tio em italiano) Alberto, e aí desenvolvem uma improvável amizade.
Com Viola, que partilha com o jovem escultor os livros da enorme biblioteca da família Orsini, Mimo fica a conhecer um “mundo de infinitas matizes”, que lhe abre portas para a sua ascensão social e profissional. Por sua vez, o apoio inabalável de Mimo dá a Viola a coragem necessária para seguir as suas ambições numa época em que certos sonhos estavam reservados apenas para os homens. Ambos párias à sua própria maneira, encontram na relação um com o outro uma forma de se insurgirem perante as convenções que lhes eram impostas, e um abrigo seguro do tumulto do mundo na primeira metade do século XX.
“Cresci num mundo onde se resmungava muito. Falar era, quando muito, um luxo, e na maior parte das vezes, uma frivolidade. Resmungávamos para agradecer, resmungávamos para expressar a nossa satisfação, resmungávamos para resmungar. E quando não resmungávamos, acenávamos com as mãos, «passa-me o sal», não era preciso falar para isso. O meu pai era assim, o zio era assim. Uma coisa de homens. Viola, em oposição, dizia muitas vezes, «neste caso não» ou «não obstante». Ela mostrou-me um mundo de infinitos matizes. Se eu dissesse «está vento» ela respondia, «não é vento, é o áfrico». Viola sabia o nome de todos os ventos.”
Para o autor Jean-Baptiste Andrea, esta é uma história que “teve dez meses de preparação, na minha cabeça, num caderno”, com a intenção de ser “uma homenagem à Itália, o país dos meus antepassados" (in Diário de Notícias). O resultado foi a aclamação dos leitores e da crítica, tendo vencido o Prémio Goncourt em 2023, e o Choix Goncourt du Portugal em 2024, cujo júri o descreveu como “um apelo à liberdade, à democracia e à emancipação feminina".
No final das quase 400 páginas de Velar por Ela, é inevitável que Viola e Mimo assumam um lugar cativo no imaginário do leitor. A sua amizade, contra todas as probabilidades, convenções e o ódio que então proliferava no mundo, faz-nos acreditar que não há revolução mais poderosa do que a do amor. Por sua vez, a condição de nanismo que sempre fez com que Mimo se sentisse diferente, ensina-nos verdadeiramente como não existem diferenças aos olhos de quem ama. Afinal, como escreve Afonso Cruz em O Pintor debaixo do Lava-louças: “o amor aproxima as pessoas e ficamos todos do mesmo tamanho.”
"Seremos sempre tu e eu, o Mimo e a Viola. O Mimo que esculpe e a Viola que voa.”