120 anos do Prémio Goncourt: curiosidades e vencedores notáveis

Por: Beatriz Sertório a 2023-11-21 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Criado em 1903, o prémio Goncourt não é apenas o mais antigo prémio literário francês mas também o mais prestigiado. Atribuído anualmente por um júri de dez escritores ao melhor romance em língua francesa publicado em cada ano, já distinguiu grandes nomes da literatura francesa, tais como Marcel Proust, Marguerite Duras ou Simone de Beauvoir. Em 120 anos de História, muitas foram as controvérsias e as surpresas; apesar de tudo, continua a ser um reconhecido selo de qualidade que contribui significativamente para a promoção da literatura francesa no mundo inteiro. Fique a conhecer algumas curiosidades sobre este prémio e alguns dos seus vencedores mais notáveis.

 

Les Dix: um grupo muito exclusivo

A Academia Goncourt, ou “Les Dix” como são frequentemente apelidados, é composta por dez escritores que todos os anos elegem as melhores obras publicadas em língua francesa. De acordo com a tradição, reúnem-se no restaurante Drouant, em Paris e, após várias rondas de votação, chegam aos finalistas nos quais votam depositando as suas escolhas num balde de champanhe. Para ser jurado, não é obrigatório ter nacionalidade francesa, mas deve necessariamente escrever em francês (o que possibilitou, no passado, a eleição do espanhol Jorge Semprún). Sendo um cargo com título vitalício, só após a morte ou saída voluntária de um dos membros, é eleito um novo escritor para ocupar a vaga.

O facto de o júri original ser composto exclusivamente por homens deu origem a muita controvérsia e, como resposta, surgiu, em 1904, o Prémio Femina, cujo júri é composto exclusivamente por mulheres. Atualmente, fazem parte da Academia Gouncourt escritores como Éric-Emmanuel Schmitt, autor de A Professora Pylinska e o Segredo de Chopinl, ou Camille Laurens que ganhou o prémio Femina por Dans Ces Bras-Là.

 

Um prémio transformador de… 10€

Acredite ou não, o montante do prémio literário mais importante de França é apenas de 10€. No entanto, o seu prestígio é tanto que a obra vencedora se torna, inevitavelmente, num bestseller, com venda garantida de pelo menos 300 mil exemplares. A Anomalia, de Hervé Le Tellier, obra vencedora do Prémio Goncourt 2020 e Finalista do Prémio Livro do Ano Bertrand 2021 vendeu mais de um milhão de cópias em França, tendo sido o livro mais vendido desde O Amante, de Marguerite Duras, publicado em 1984.

 

O único autor a ganhar duas vezes

Uma das regras do prémio Goncourt, e que o torna tão especial, é que os escritores não podem ganhá-lo mais do que uma vez. Contudo, esta regra foi quebrada numa única ocasião quando Romain Gary, prémio Goncourt 1956 pelo livro Les Racines du Ciel, voltou a ser homenageado em 1975, desta vez pela obra La Vie Devant Soi que escreveu sob o pseudónimo, Emile Ajar. Durante algum tempo, o filho do primo de Gary, Paul Pavlowitch, fez-se passar pelo autor, mas mais tarde, Romain Gary revelou a verdade no livro póstumo Vie et mort d'Émile Ajar.

Julien Gracq, por sua vez, foi o único autor a recusar o prémio, em 1951.

 

A primeira mulher a ganhar o Goncourt

Acusado por muitos de ser um prémio machista, foram precisos mais de quarenta anos até a Academia Goncourt homenagear uma mulher. Elsa Triolet, escritora e tradutora nascida em Moscovo, na Rússia, tornou-se na primeira mulher a ser reconhecida com o prémio em 1944, pela obra Le premier accroc coûte 200 francs. Neste romance notável, quatro histórias interligam-se tendo como cenário França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial, e a experiência pessoal da autora enquanto membro da Resistência Francesa.

 

O Prémio Goncourt dos estudantes

Desde 1987, o Prémio Goncourt ganhou uma espécie de irmão mais novo intitulado Prix Goncourt des Lycéens, cujo vencedor é escolhido por alunos do liceu. Todos os anos, os dez membros da Academia Goncourt selecionam doze obras literárias que vão a votos entre cerca de dois mil alunos do liceu. O vencedor da edição passada foi Beyrouth-Sur-Seine, de Ghoussoub Sabyl, e o desta edição será anunciado em Rennes no dia 23 de novembro. Pode consultar os 16 livros nomeados aqui.

 

Os mais recentes laureados

Desde 1903, só houve um ano em que o prémio Goncourt não foi atribuído, devido ao início da Primeira Guerra Mundial em 1914. Jean-Baptiste Andrea (Prémio Goncourt 2023), Brigitte Giraud (Prémio Goncourt 2022) e Mbougar Sarr (Prémio Goncourt 2021) foram os mais recentes nomes a juntar-se à longa lista de laureados.

Em 2021, A Mais Secreta Memória dos Homens foi aclamado como “um hino à literatura” e foi finalista de todos os grandes prémios literários franceses do ano, tendo acabado por arrecadar o mais importante de todos. Epopeia extraordinária, conta a história de um escritor obscuro que desapareceu sem deixar rasto, cruzando geografias e gerações, as grandes tragédias da História, e a vida e a obra dos escritores.

Já no ano seguinte, o júri foi arrebatado por Viver Depressa, um relato autobiográfico sobre o acidente de mota que custou a vida ao marido de Brigitte Giraud no dia 22 de junho de 1999. Vinte anos depois, ataca uma última vez as perguntas que ficaram sem resposta, regressando àqueles dias que se precipitaram numa série de perturbações imprevisíveis, até desembocarem no inelutável.

Este ano, por sua vez, o prémio foi atribuído ao romance Veiller sur elle, o quarto romance do autor de 52 anos Jean-Baptiste Andrea, ainda sem tradução para português. Sob o pano de fundo do fascismo em Itália, conta a história de amor de Mimo, um escultor pobre e talentoso, e Viola, a filha de um marquês rico, e demasiado ambiciosa. Didier Decoin, um dos jurados considerou o livro "extremamente refrescante", "como um "jacinto que surge na vegetação rasteira"" numa manhã de primavera, e que oferece aos leitores uma pausa de um ciclo de notícias sombrio.

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