Uma das cantautoras mais importantes no panorama musical português, Luísa Sobral, acaba de se estrear na ficção, com o seu primeiro livro, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé (D. Quixote, 2025). Em conversa para o blogue Somos Livros, falou-nos dos livros da sua vida, dos que a fizeram rir e chorar, e daquele que morou dentro de si como canção até renascer em romance. Porque na Bertrand, somos livros, e partilhamos a convicção de Afonso Cruz de que “somos feitos de histórias, não de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias” (Os Livros Que Devoraram o Meu Pai). Estas são as histórias de que é feita Luísa Sobral.
Lembra-se de qual foi o primeiro livro que despertou em si o amor pela leitura?
Eu sempre gostei de ler, e lia muito Uma Aventura… também me lembro de ler uma coleção que se chamava Dietas e Borbulhas… Mas assim o livro que eu me lembro que me prendeu mais na adolescência, por exemplo, foi Os Filhos da Droga. Lembro-me que adorei esse livro. Provavelmente, hoje, se voltasse a ler, não gostaria da mesma forma, mas lembro-me que me prendeu muito – talvez, por falar sobre um mundo que eu desconhecia totalmente, assim um mundo perigoso.
E pela escrita? Houve algum livro ou autor que a tenha influenciado¿a dar os primeiros passos como escritora?
Houve um livro do João Tordo sobre a escrita de que eu gostei muito (Manual de Sobrevivência de um Escritor) e também o livro do Miguel Esteves Cardoso (Como Escrever). São dois livros muito interessantes e que me deram muita vontade de escrever.
Qual o livro ao qual volta sempre, aquele que levaria consigo para uma ilha deserta?
Eu não volto muito aos mesmos livros porque tenho uma sede tal de ler coisas novas… mas, acho que se tivesse de escolher um do passado para voltar, e um livro a que provavelmente já voltei várias vezes, é Os Maias.
Um livro que a fez rir, e outro que a levou às lágrimas?
Houve um que me fez rir muito, que foi um livro da Tati Bernardi que se chama Você nunca mais Vai Ficar Sozinha, sobre a maternidade. Gosto muito da maneira dela de escrever, é muito divertida. Um livro que me fez chorar, talvez, O ano do pensamento mágico, da Joan Didion. Mas também Somos o Esquecimento que Seremos, do Hector Abad Faciolince, e O meu pai voava, da Tânia Ganho. Foram assim os últimos livros que me fizeram chorar.
Como leitora, anota os livros ou prefere mantê-los intactos?
Sim, anoto muito os livros. Eu acredito mesmo que aquilo que eu sublinho e anoto é como se deixasse uma parte de mim nos livros que leio, e deixo isso também propositadamente para os meus filhos. Acho que são assim pedaços de mim que eles vão poder continuar a conhecer após a minha morte. Por isso, tento manter-me eterna nos meus livros, para que os meus filhos continuem a ter pedaços de mim espalhados. Mas também porque gosto de anotar.
Qual o cenário de leitura ideal? Em silêncio, no conforto da sua casa, ou num espaço público — com ou sem ruído de fundo?
Não tenho um cenário de leitura ideal, porque aproveito qualquer momento para ler. Mesmo quando os meus filhos estão a brincar e a fazer barulho, eu leio na mesma. Ou seja, tenho um ideal, mas normalmente não acontece. O ideal seria mesmo em casa, sozinha, a olhar lá para fora, a ver aquele verde todo, e estar ali sossegadita a ler. Esse é o ideal. No entanto, leio em todo lado — transportes públicos, carro, tudo. Tudo serve.
Que livro (ou livros) tem atualmente na sua mesinha de cabeceira?
Há pouco tempo tirei os livros da minha mesa de cabeceira, mas tinha A Paixão segundo G.H., da Clarice Lispector, que comecei a ler, achei muito confuso e larguei. E tinha também uma novela gráfica sul-coreana que me disseram que era muito boa, Erva [de Keum Suk Gendry-Kim], que fui folheando mas não cheguei a ler até ao fim. Agora, está na minha mesa de cabeceira o livro que estou a ler atualmente, que é o Manual para Mulheres de Limpeza, da Lucia Berlin.
Qual foi o último livro que ofereceu ou recomendou a um amigo?
O Retorno, da Dulce Maria Cardoso, porque eu adoro esse livro. E também o Revolução [de Hugo Gonçalves], que ofereci há pouco tempo a uma amiga.
E a sua última descoberta literária?
A Lucia Berlin, que estou a ler e estou fascinada. Adoro a escrita dela, estou a adorar este livro. E em português foi o Norberto Morais, que adorei também.
O que gostaria que os leitores soubessem sobre o seu primeiro livro?
Gostaria que soubessem que é baseado numa história verdadeira, ou seja, o final da história é um final verdadeiro, mas tudo o resto é ficção. E que é um livro que mistura prosa, poesia e até ilustração. E espero que gostem!
Qual a banda sonora perfeita para acompanhar a leitura de Nem Todas as Árvores Morrem de Pé?
Eu não sei bem, porque não consigo ouvir música e ler ao mesmo tempo. Portanto, para mim é um bocadinho difícil dizer. Mas há uma música que veio antes do livro e que fala sobre o mesmo assunto, que é uma canção que eu escrevi e que se chama Maria Feliz. Aliás, há um QR Code no início do livro para ouvir essa canção. Mas como não consigo ouvir letra e ler ao mesmo tempo, talvez algo mais instrumental fizesse mais sentido… se calhar, música clássica.