Entrevista | Álvaro Filho

Por: Marta Martins Silva a 2025-04-16

Álvaro Filho

Álvaro Filho é escritor e jornalista brasileiro radicado em Lisboa. É autor de sete livros, entre eles os romances Jornalismo para Iniciantes, O Diário de Viagem do Sr. A. e Meu Velho Guerrilheiro. Em 2018, foi semifinalista do Prémio Oceanos com a ficção Curso de Escrita de Romance, nível 2 e vencedor do Novos Talentos Escrita FNAC Portugal com o conto Otelo.

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O teu último livro, O Mau Selvagem, é uma crítica social à forma como a comunidade brasileira é vista e tratada em Portugal. Foi com este objetivo justiceiro que partiste para a escrita deste livro?

Foi. Há pessoas que acham que a literatura não é um campo para exercer um certo ativismo. Eu queria que o mundo fosse um lugar diferente e eu não precisasse de utilizar a literatura para falar de alguns temas, mas, como me sinto privilegiado, não só porque escrevo em jornais e sou publicado, sinto essa responsabilidade. Tento fazer isso no jornalismo também, mas aí é mais difícil porque as pessoas leem jornais de uma forma muito mais crítica porque acham que você está sempre comprometido com alguma coisa, e, na literatura, as pessoas ainda lêem muito desarmadas. Tento fazer na literatura aquilo que não consigo fazer no jornalismo, não é só no Mau Selvagem. No Velho Guerrilheiro, aproveitei uma história da família, porque o meu pai está a perder a memória, para refletir se um país também pode perder a memória numa alusão ao bolsonarismo; depois, fiz o Alojamento Letal para falar da questão imobiliária, que eu senti na pele porque o prédio onde eu vivia, em Alfama, explodiu e, embora não tenha tido diretamente que ver com a pressão imobiliária, houve, de certa forma, uma pressão para as obras não atrapalharem o turismo. Depois, quando começou a ficar mais tensa a relação dos brasileiros em Portugal, escrevi O Mau Selvagem.

Geralmente, espera-se do escritor estrangeiro que fale do seu quintal.

 

Porque esta relação ficou mais tensa?

É natural, nós somos a maior comunidade imigrante em Portugal, é raro o dia em que oiça alguém falar em português no Brasil, e é óbvio que isso ia resultar num momento de tensão. Ainda mais quando esta última leva de brasileiros, de que eu falo no livro, vem para rivalizar, para ocupar um espaço que não é o espaço que era esperado para um imigrante. É o cara que vai trabalhar como médico, que vai escrever um livro, que vai ser jornalista ou comentador de televisão; ou, quando fecha uma pastelaria para abrir uma loja de açaí, quando começa a andar num campo que ocupa muito mais espaço, essa relação fica muito mais tensa. Comecei a viver isso. Tenho um monte de amigos portugueses, mas também ando na rua  e oiço coisas que não quero ouvir, ou o meu filho ouve na escola. Eu próprio comecei a virar um Mau Selvagem no sentido de responder a isso. Comecei a responder nas crónicas, na rua e achei que devia começar a responder também na literatura. Então, criei essa fantasia. O que acontece dentro da livraria aconteceu em algum momento dentro de outras livrarias, restaurantes, coisas que ouvi ou pessoas que me contaram, fui fazendo essa pesquisa e fui guardando essas informações. No fim, precisava de saber um bocadinho mais sobre a rotina de livreiro porque eu nunca fui livreiro — e imagino que agora será muito mais difícil alguém contratar-me como livreiro (risos). Fui a livrarias perto de casa onde trabalhavam brasileiros, pagava um copo e eles contavam-me a história, até para entender como era a rotina deles e o funcionamento de uma livraria. A República dos Anjos também existe. Podia ser uma reportagem, mas é um policial. Não tem ninguém com boas intenções no livro, nem os brasileiros, nem os portugueses, talvez só se salve a psicóloga baiana, mas tudo o resto... eu não tenho uma fórmula de como a nossa relação [entre portugueses e brasileiros] deve seguir, mas quis trazer o debate. Quem não leu pode achar que é uma coisa do bem contra o mal, de os brasileiros prestam e os portugueses não, mas quem lê sabe que não é.

 

Mas a imigração é diferente de pessoa para pessoa.

As experiências de imigração são muito diferentes. O homem e a mulher migram de forma diferente. Temos lutado para que a importância do migrante não seja ser um número que vai garantir a aposentadoria dos portugueses ou mão de obra. Porque, assim, parece que o imigrante é um bem do Estado. Ele parece um bem do Estado e, se ele é um bem do Estado, os portugueses podem achar que têm domínio sobre aquele bem. E, para o homem, é o trabalho físico, na mulher, tem outra conotação, de ser dono do corpo. As migrações são feitas de forma diferente. Eu não tenho de reclamar da minha imigração, aqui tenho conseguido trabalhar na minha profissão, como jornalista, a minha experiência não é frustrante nem de insucesso. Mas não posso fechar os olhos para as outras coisas. Então, fui atrás de contar a história de quem realmente sofre e que passa por alguns dilemas para que essa história saísse do papel.

 

Há pessoas que acham que a literatura não é um campo para exercer um certo ativismo. Eu queria que o mundo fosse um lugar diferente e eu não precisasse de a utilizar para isso, mas (...)sinto essa responsabilidade.

 

O que podemos esperar do escritor Álvaro Filho num futuro próximo? Já estás a escrever o oitavo romance?

No próximo livro, vou voltar ao Brasil, vou tratar essa questão da extrema direita que saiu do poder, mas permanece. É a história do pós. Este ano também vão ser lançadas as crónicas da Mensagem de Lisboa, que tem o nome da rubrica Eu não falo brasileiro, e que é a coisa que mais me ofende aqui, quando alguém me diz que eu não falo português.

 

O escritor Gonçalo M. Tavares diz que tens a atenção e a escuta indispensáveis para quem escreve, ou seja, os teus livros terão sempre uma mensagem política ou social por trás.

Por enquanto. Eu queria muito fazer uma comédia mas a situação está muito difícil, está até piorando, não posso fazer uma comédia, eu até me considero bem-humorado, mas não posso, não me deixam. Ligo a televisão e tem um cara que roubou malas, tem um outro que quer fazer uma Rivieira em Gaza, infelizmente, parece que vai demorar até eu mudar de tom. Mas é cansativo. Eu inspiro-me muito no policial como género porque o policial consegue, nas entrelinhas, carregar uma questão social, e é por isso que ele sofreu muito como género nos países que conheceram algumas ditaduras. Mas o policial pode funcionar muito bem. Passei a conhecer a guerra colonial, que eu não vivi, através de Francisco José Viegas, por causa de uma personagem dele.

 

(...) o policial segura o leitor com o mistério e, por trás, contrabandeia um tema que o leitor, distraído, vai lendo.

 

É o género que usas para transmitir as tuas mensagens.

Porque o policial segura o leitor com o mistério e, por trás, contrabandeia um tema que o leitor, distraído, vai lendo.

 

Sentes-te um porta-voz dos brasileiros em Portugal?

Eu não queria ter esse papel, mas tenho sido chamado para isso, para contar a experiência. É muito difícil um brasileiro, um francês, um italiano que vive em Portugal escrever um livro sobre a experiência em Portugal. Geralmente, espera-se do escritor estrangeiro que ele fale do seu quintal. Ficou durante muito tempo a impressão de que o brasileiro só podia escrever as mazelas e as coisas ruins do seu país, você só pode falar da violência urbana, do fascismo no Brasil, aqui, não é esperado que o faça, é um susto... Dessa forma, eu sinto-me porta-voz porque são pouquíssimos os escritores que vão falar daqui. Não é uma função a que me obrigo, mas acaba por acontecer.

 

Mas, ao mesmo tempo, a comunidade brasileira já espera isso de ti.

Agora, sim. Mas eu tento também fazer com que o lisboeta perceba quem é esse brasileiro que está aqui. Quem é o brasileiro além dos clichés que o brasileiro já tem. Acho que os leitores do jornal e do livro esperam e reconhecem isso em mim.

 

A cultura no geral e a literatura em particular podem aproximar as comunidades? Ou seja, lendo as dores dos outros, podemos aproximar-nos deles?

Acontece com a música, aconteceu com o cinema — muita gente não sabia, antes do filme brasileiro Ainda estou aqui, que a ditadura do Brasil tinha sido assim. Mas, na literatura, é mais difícil. Porque Portugal é Camões, o idioma está muito ligado ao que significa ser português, por isso, enquanto a música brasileira circula muito bem em Portugal, e mesmo que seja um brasileiro a cantar o fado, não tem problema,  a literatura ainda tem dificuldade porque é como se estivessemos conspurcando o que é ser português. O dia de Portugal não é o dia de um herói de guerra português, é o dia de um escritor que escreveu a epopeia. Para nós ocuparmos esse espaço como esperaríamos, é dificil. Mas também acontece o contrário: os portugueses também gostariam de ter um lugar maior no mercado brasileiro, ainda no outro dia, um escritor português perguntou-me como poderia publicar no Brasil. Mas já há muitos portugueses que são conhecidos, como o Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, José Eduardo Agualusa, Afonso Cruz, José Luís Peixoto...

 

E achas que, quando falas dos imigrantes brasileiros em Portugal, imigrantes de outros países vão sentir-se identificados também com o que escreves?

Nós temos de cuidar dos imigrantes que não falam a mesma língua, porque nós ainda temos essa vantagem, de nos fazermos compreender. Tive uma crónica que ganhou um prémio nacional em 2023 e que falava de um vizinho meu do Bangladesh, que se chamava Omar Sharif — o mesmo nome do ator mas ele não sabia quem era o ator. Há pontos comuns nas imigrações, mas a gente se defende melhor por causa da língua. Hoje em dia, se quiser um advogado brasileiro, você encontra, e cheio de vontade. Quando falo de dificuldades nas minhas crónicas da Mensagem, no mesmo dia, recebo contactos de advogados nas minhas redes sociais a oferecerem ajuda.

 

Chegaste a Portugal há nove anos...

Já prescreveu (risos). Consegui a cidadania em 2022 por tempo de serviço, que eu saiba, não tenho nenhum parente ou não consegui fazer o rastreio de possível sangue português em mim.

 

Mas sentes-te um bocadinho português já?

Estive agora no Brasil a visitar o meu pai e, como o meu apartamento está arrendado e o meu quarto na casa dos meus pais agora é o quarto dos enfermeiros, tive de ficar numa pousada. E as pessoas perguntavam de onde eu era. E eu dizia: mas eu sou daqui! Então, era turista na minha terra. Mas também sou português noutras coisas: tenho abraçado as possibilidades da gastronomia portuguesa, temos cinco mil quilómetros de costa no Brasil, mas, por incrível que pareça, é mais complicado lá arranjar um peixe fresco para comer; como mais peixe, tomo mais vinho, tenho menos pressa — a gente chega aqui muito acelerado, no Brasil, tudo é para ontem. Eu cheguei aqui com essa pressa e um amigo disse-me: não venha com essa pressa do Novo Mundo para Portugal, você está no Velho Mundo (risos). Por isso, tenho um certo respeito pelo tempo das coisas, pela privacidade dos outros, não ligar a ninguém ao sábado ou domingo à noite para resolver um problema. Só não consigo gostar de fado, acho que é porque tem de se estar em silêncio e brasileiro não consegue ficar em silêncio. Eu vou no fado e quero fazer um comentário, mas não posso falar. Ou talvez ainda não tenha sofrido de amor em Portugal, deve ser isso (risos).

 

Seres jornalista e com uma publicação de proximidade, como é o caso da Mensagem de Lisboa, acelerou o teu sentimento de pertença ao país?

Eu tenho um grupo de amigos portugueses e, às vezes, falo de coisas que eles não sabem. Porque esta experiência de entrevistar as pessoas e andar pelas ruas é um privilégio. No outro dia, usei uma expressão que os portugueses usam muito e que, para mim, não faz sentido nenhum: "Sempre vamos hoje?", mas dei por mim a dizer isso e fiquei orgulhoso.

 

Viver aqui também alterou a tua forma de escrever...

E acho que para sempre. Eu nunca mais vou conseguir escrever da mesma forma que escrevia. Eu escrevo também para o Brasil e, de vez em quando, eles têm de editar algumas expressões. Quando dei entrevistas para o Brasil, houve uma jornalista que me perguntou porque decidi escrever o Mau Selvagem em português europeu. E eu disse-lhe: eu não escolhi, é assim que eu escrevo hoje. Não que eu ache que escrevo em português europeu, mas para o ouvido brasileiro, está diferente. Acho que perdi a cadência brasileira, a velocidade das palavras. Aquilo que antes resolvia numa linha, agora, é um parágrafo inteiro (risos).

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