Fevereiro é o Mês da História Negra, um mês dedicado a reconhecer, celebrar e aprofundar o conhecimento sobre as histórias, lutas e contribuições das pessoas e comunidades negras em todo o mundo.
Esta celebração remonta aos anos 1920 nos Estados Unidos, quando o historiador Carter G. Woodson instituiu a Semana da História dos Negros com o objetivo de integrar o legado de pessoas negras na narrativa histórica. Fevereiro foi escolhido por coincidir com os aniversários de Frederick Douglass, abolicionista e pensador essencial na luta contra a escravatura, e de Abraham Lincoln, presidente durante a Guerra Civil e o processo de abolição da escravatura.


Porquê celebrar este mês em Portugal?
A relação entre Portugal e África é profunda, complexa e indissociável da nossa história. Durante séculos, o colonialismo português marcou territórios e vidas, deixando um legado que não pode ser ignorado. Essa história colonial criou uma dívida de reconhecimento, reparação e memória.
Mas essa relação vai além da opressão: é também uma história de trocas culturais profundas que moldaram a nossa cultura de formas que muitas vezes nem reconhecemos. Da morna cabo-verdiana ao kizomba angolano, das palavras que enriquecem o nosso vocabulário aos sabores que temperam a nossa gastronomia: muitos dos elementos que consideramos "portugueses" têm raízes africanas. São costumes, saberes e práticas culturais que trouxemos de África e que, ao longo dos séculos, se entrelaçaram na nossa cultura.
Em Portugal, ao contrário de países como os Estados Unidos, o Reino Unido ou o Canadá, o Mês da História Negra não está oficialmente instituído, o que torna ainda mais importante criar espaços de visibilidade e reflexão sobre a presença africana e afrodescendente na nossa sociedade. É reconhecer o passado colonial e as suas consequências, honrar a dívida que temos para com África e, simultaneamente, celebrar a herança cultural africana que está enraizada em nós.
Escritores negros que transformaram a literatura
Os escritores e escritoras negros revolucionaram a literatura, desafiaram cânones estabelecidos e deram forma a narrativas essenciais sobre a experiência humana. Desde os pioneiros que escreveram contra a escravatura e o colonialismo até às vozes contemporâneas que continuam a redefinir fronteiras literárias, estes autores construíram e constroem um património literário indispensável.
Na literatura de língua portuguesa, autores africanos têm sido fundamentais na renovação da própria língua. Mais recentemente, escritores afrodescendentes em Portugal têm vindo a conquistar espaço, trazendo perspetivas essenciais sobre identidade, diáspora e pertença. Estas vozes são centrais para compreender o mundo em que vivemos.
Vozes afro-americanas essenciais
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James Baldwin disseca o racismo americano em obras como Da próxima vez, o Fogo com clareza cortante e prosa lírica inigualável.
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Frederick Douglass oferece em Narrativa da vida de Frederick Douglass um testemunho fundador sobre a escravatura e a luta pelos direitos humanos.
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Toni Morrison, Prémio Nobel da Literatura, explora identidade e memória em obras-primas como Beloved e A canção de Salomão.
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Alice Walker conquistou o Pulitzer com A cor púrpura, abordando temas como racismo, sexismo e resiliência com uma sensibilidade exímia.
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Brit Bennett explora identidade racial e família em A outra metade e As mães com uma escrita emocionalmente devastadora.
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Percival Everett desafia as convenções literárias em obras provocadoras como Erasure e o recente James, uma reimaginação de Huckleberry Finn aclamada internacionalmente.
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bell hooks é uma pensadora fundamental nos estudos de género e raça. Os seus ensaios, como Não serei eu mulher? ou Teoria Feminista, são leituras transformadoras sobre as estruturas de poder.
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Angela Davis, ativista e académica, moldou debates sobre justiça social. Em Mulheres, Raça e Classe antecipa o conceito que viria a ser conhecido como interseccionalidade, mais tarde cunhado em 1989 por Kimberlé Crenshaw.
A literatura africana de língua portuguesa tem sido decisiva para ampliar o alcance, a diversidade e a vitalidade do português. Autores como Pepetela trouxeram para a língua a história e a memória de Angola, fazendo do romance um espaço de reflexão política e pós-colonial. Ondjaki, com a sua escrita marcada pela musicalidade e pela oralidade infantil, renovou o português literário ao captar o quotidiano e a sensibilidade de Luanda com humor e ternura.
Esse mesmo impulso transformador atravessa a obra de José Eduardo Agualusa, que expandiu os limites narrativos da língua ao cruzar história, identidade e imaginação, e de Mia Couto, cuja escrita reinventou o português através de neologismos e ritmos próprios, transformando-o num instrumento poético profundamente enraizado na realidade moçambicana.
A importância destas vozes estende-se também à afirmação de novas perspetivas. Paulina Chiziane abriu caminho ao colocar no centro da literatura em português as experiências femininas em Moçambique, enquanto Conceição Lima, a partir de São Tomé e Príncipe, consolidou uma poesia marcada pela memória, pela identidade e pela herança histórica da lusofonia.
Num contexto mais contemporâneo, Djaimilia Pereira de Almeida, Kalaf Epalanga e Dino D'Santiago contribuem para a renovação da língua portuguesa e cruzam literatura, oralidade e música, explorando temas como identidade, diáspora e experiência afro-portuguesa, afirmando o português como um território vivo, plural e em constante transformação.
Outras vozes essenciais
A literatura contemporânea de autores negros tem sido igualmente fundamental para alargar as narrativas literárias e históricas. Escritoras e escritores como Chimamanda Ngozi Adichie, Ta-Nehisi Coates, Colson Whitehead, Bernardine Evaristo e Yaa Gyasi têm contribuído para uma compreensão mais profunda das experiências negras, cruzando história, vivência pessoal e crítica social.
Como celebrar o Mês da História Negra
Celebrar o Mês da História Negra vai muito além da leitura individual. É um convite à escuta, à partilha e ao envolvimento com narrativas que ajudaram a moldar a nossa história comum. Esse compromisso pode assumir várias formas:
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Participar em eventos, encontros de leitura e debates dedicados a temas negros e afrodescendentes.
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Promover fóruns de reflexão em escolas, bibliotecas e espaços culturais.
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Partilhar nas redes sociais obras, autores e recomendações que ampliem vozes negras.
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Apoiar autores e autoras negras, valorizando o seu trabalho através da compra das suas obras.
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Explorar a música, o cinema, as artes visuais e outras expressões culturais negras.
Neste mês de fevereiro, convidamo-lo a descobrir ou redescobrir estas vozes. Celebrar o Mês da História Negra é também uma oportunidade para (re)conhecer a riqueza e a complexidade de uma história partilhada, construída a partir de múltiplas vozes e experiências.