Ana Paula Ribeiro Tavares: História, Poesia e Identidade Angolana

Por: Cláudia Oliveira a 2025-10-13

Ana Paula Tavares

Ana Paula Tavares

Ana Paula Tavares é Doutorada em Antropologia da História pela Universidade Nova de Lisboa (2010), Mestre em Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Lisboa (1996), Bacharel e Licenciada em História pela Universidade de Lisboa (1982). Investigadora Integrada do CLEPUL, Colaboradora do AHNA (Arquivo Histórico Nacional de Angola, Professora Convidada da Universidade Agostinho Neto (Luanda), Colaboradora da RDP-África, Escritora. São suas principais áreas de Investigação a História e a Literatura do Continente Africano e de Angola. Possui livros, capítulos de livros publicados. Tem várias publicações no domínio da ficção e poesia.
Recebeu o Prémio Camões 2025.

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Ana Paula Tavares, poeta e historiadora angolana, recebeu no dia 8 de outubro o Prémio Camões 2025, reconhecimento máximo da literatura lusófona, reafirmando-se como uma das vozes mais influentes da poesia e da escrita angolana.

Nascida no Lubango, província da Huíla, a 30 de outubro de 1952, é uma das mais destacadas vozes da literatura angolana contemporânea. Escritora, historiadora e investigadora, construiu uma obra que articula o rigor histórico e antropológico com uma poesia profundamente enraizada na experiência feminina, na memória coletiva e nas tradições culturais de Angola. A sua relevância ultrapassa o campo literário, afirmando-se também na reflexão sobre identidade, património e reconstrução simbólica do país no pós-independência.

O reconhecimento com o Prémio Camões reforça a importância da sua obra no panorama literário lusófono, celebrando não só a profundidade poética da sua escrita como o seu papel na valorização da cultura angolana. Ana Paula Tavares junta-se a Jorge Amado, Mia Couto, Lygia Fagundes Telles, José Saramago e Chico Buarque, previamente galardoados. Em 36 anos de história, o Prémio Camões foi atribuído maioritariamente a autores do Brasil e de Portugal, e apenas oito mulheres foram distinguidas.

 

Entre história, antropologia e poesia

Iniciou a sua formação superior em História, no Lubango, prosseguindo os estudos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde concluiu a licenciatura. Posteriormente, obteve o grau de mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela mesma instituição, em 1996, com uma dissertação centrada na relação entre oralidade, género e memória na literatura angolana.

Concluiu o doutoramento em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com uma tese dedicada às dinâmicas culturais e simbólicas das sociedades Lunda e Cokwe, abordando questões de identidade, ritual e património imaterial. Esta formação sólida e interdisciplinar é determinante para compreender a natureza híbrida da sua escrita, que transita entre o ensaio histórico e a lírica simbólica.

De regresso a Angola, entre 1983 e 1985, Ana Paula Tavares exerceu funções como chefe do Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica (Luanda), instituição responsável pela recolha e preservação de fontes históricas do país. Participou ainda na organização de exposições e programas de valorização do património cultural.

Foi membro do júri do Prémio Nacional de Literatura de Angola e colaborou em várias comissões técnicas ligadas à UNESCO, ao ICOM e ao ICOMOS, contribuindo para o desenvolvimento das políticas culturais e museológicas angolanas.

Radicada em Portugal desde os anos 1990, lecionou em instituições de ensino superior, nomeadamente na Universidade Católica Portuguesa, mantendo um papel ativo na difusão da literatura africana em língua portuguesa e na investigação sobre o legado histórico e antropológico de Angola.

A obra literária de Ana Paula Tavares é vasta e multifacetada, abrangendo poesia, prosa, crónica, ensaio e romance, sempre marcada pela fusão entre o imaginário feminino e o património oral africano, pela evocação de ritos, genealogias e memórias, e pela reflexão constante sobre o papel da mulher na sociedade angolana.

O seu primeiro livro de poesia, Ritos de Passagem (1985), assinalou o início de uma carreira marcada pela reflexão sobre as transformações sociais e os rituais culturais do país.

Seguiram-se obras como O Lago da Lua (1999), que aprofunda a ligação à tradição oral, e Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos (2001), galardoado com o Prémio Mário António de Poesia, pela sua capacidade de conjugar a experiência feminina com a memória histórica de Angola.

Ao longo do tempo, explorou também a crónica e o romance, com títulos como O Sangue da Buganvília (1998), Manual para Amantes Desesperados (2007) e A Cabeça de Salomé (2004), obras em que a reflexão sobre a identidade, as relações humanas e as dinâmicas de poder se fundem com uma escrita profundamente sensorial e simbólica.

 

Preservar memórias e culturas

Ana Paula Tavares é uma figura fundamental da literatura e da cultura angolanas. O seu percurso académico e literário consolidou a presença feminina na produção intelectual do país, desafiando modelos patriarcais e coloniais de representação. Através da poesia, resgata a voz das mulheres como mediadoras da memória e, através da investigação histórica e antropológica, contribui para a preservação das identidades culturais angolanas.

A sua escrita, traduzida e estudada em várias universidades, integra o cânone das literaturas africanas de língua portuguesa e constitui hoje uma referência incontornável para o estudo da literatura angolana contemporânea e da poesia de autoria feminina.

 

Prémios e distinções

  • Prémio Mário António de Poesia (Fundação Calouste Gulbenkian, 2004), pelo livro Dizes-me coisas amargas como os frutos.
  • Prémio Nacional de Cultura e Artes de Angola (2007), na categoria de Literatura.
  • Prémio Camões (2025), o mais importante galardão literário da língua portuguesa, atribuído pelo conjunto da sua obra, reconhecendo a profundidade poética e o contributo para a valorização da língua e da cultura angolana.

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