Quando parar é essencial: o sono numa vida acelerada

Por: Tiago Sá a 2026-07-20

Tiago Sá

Tiago Sá

Nasceu em Braga, estudou Medicina em Coimbra e formou-se em Pneumologia no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Pelo meio tem uma paixão desmedida pelos Açores, onde agora exerce parte da sua atividade clínica, no Hospital Internacional dos Açores. Este percurso ajudou-o a conhecer bem o país e a sua realidade na área da saúde. Especializou-se em Medicina do Sono, obtendo o título de Expert in Sleep Medicine, atribuído pela European Sleep Research Society e a Competência em Medicina do Sono pela Ordem dos Médicos. Em 2019, fundou a Sleeplab. Acredita que a abordagem dos problemas do sono deve ser multidisciplinar e é isso que pratica neste espaço, juntamente com uma equipa de especialistas prontos a ajudar pessoas com as mais diversas patologias do sono. É pai do João Amaro.

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Passamos aproximadamente um terço da nossa vida a dormir. À primeira vista, pode parecer um desperdício, uma vez que durante o sono não realizamos nenhuma atividade associada à nossa sobrevivência, não comemos, não procriamos, não trabalhamos, nem produzimos nada de concreto. No entanto, do ponto de vista evolutivo, seria pouco provável que esta necessidade se mantivesse ao longo do tempo, se o sono não desempenhasse uma função essencial para o nosso organismo, pelo menos, tão importante como todas as coisas que deixamos por fazer para poder dormir.

O sono é um estado de repouso fundamental, com repercussões na nossa saúde física e mental, bem-estar e qualidade de vida. É indispensável para o desenvolvimento do cérebro, da memória e muitas outras funções do organismo. Por outro lado, a privação de sono pode ter consequências negativas em todos os sistemas do nosso corpo. Hipertensão arterial, diabetes, depressão, demência, a lista de doenças que o sono pode condicionar é infindável. Vários autores descrevem o sono como um pilar essencial para uma vida saudável, a par da dieta e do exercício físico. Ainda assim, vários estudos demonstram que a maioria da população dos países industrializados dorme menos do que o recomendado. Porque será?

Provavelmente, porque sentimos que as horas do dia não chegam para cumprir todas as tarefas e obrigações a que nos propomos e, muitas vezes, acabamos por diminuir o número de horas que nos permitimos dormir. Na verdade, este é um dos grandes erros da sociedade dos nossos dias. Dormir sete a nove horas por noite não é um luxo! Este tempo é fundamental para a nossa saúde física e mental, e um fator essencial para que possamos desempenhar os objetivos a que nos propormos.

If sleep does not serve an absolutely vital function, then it is the biggest mistake the evolutionary process ever made.

Allan Rechtschaffen

Grande parte do mundo ocidental vive o dia a dia a uma velocidade voraz e com uma intensidade e ritmo alucinantes. As exigências são constantes, os prazos apertados e os níveis de stresse elevados. A determinado momento, mesmo que as nossas obrigações estejam cumpridas, passamos a viver obcecados com o nosso desempenho. Achamos sempre que podemos fazer mais, mesmo que já tenhamos feito muito. Nesta correria constante, perdemos o controlo do ritmo do nosso dia, não damos pelo tempo a passar e, de repente, já são horas de jantar e ainda estamos a enviar aquele último email.

Quando achamos que já está tudo feito, ainda falta a outra parte. O que será que aconteceu hoje? Pegamos no telefone e vamos ler as notícias, distraímo-nos e já estamos a ver o vídeo de mais uma receita que nunca vamos fazer ou a descobrir como foi o dia do nosso vizinho. A facilidade com que somos atropelados por todos estes acontecimentos, dos mais relevantes aos mais desinteressantes, é assustadora.

Neste mundo de ecrãs em que vivemos, costumo defender, perante os meus doentes, as virtudes do livro. Em primeiro lugar, o livro não toca. Ao contrário dos dispositivos feitos para chamar a nossa atenção, o livro espera por nós. Quando estamos preparados e pegamos nele, leva-nos a vigiar, mas podemos sempre decidir em que paragem queremos sair. O nosso telefone, não. Às vezes, já fechamos os olhos e há sempre mais uma notificação que teima em aparecer para nos pedir, mais uma vez, a nossa atenção.

Não deixa de ser interessante perceber que, felizmente, a consciência da importância do sono para a saúde é cada vez maior na sociedade. A procura por consultas de medicina do sono é crescente e a capacidade de resposta, muitas vezes, insuficiente. Se, no século passado, o sono era frequentemente encarado como uma perda de tempo, hoje, é cada vez mais raro ouvir este discurso. No entanto, muitas vezes, recebo em consulta pessoas à procura de uma solução milagrosa para o sono. Um comprimido, uma almofada ou um qualquer dispositivo especial que, por magia, resolva todos os problemas. Mas, na verdade, sabemos que esse não é o caminho a percorrer.

O sono é um processo biológico natural, regulado por mecanismos complexos que, em condições normais, tendem a funcionar bem. Condicionar o sono de forma artificial, nomeadamente através de medicamentos, acaba, muitas vezes, por perpetuar, ou mesmo agravar, o problema. Para promover um sono de qualidade, é fundamental criar espaço no nosso dia para desacelerar e proporcionar ao nosso corpo e à nossa mente momentos de tranquilidade e prazer. Digo aos meus doentes que devemos começar a preparar uma boa noite de sono ao acordar. A forma como organizamos o nosso dia, como criamos momentos de relaxamento e introspeção e como nos defendemos das solicitações constantes são essenciais para conseguirmos uma boa noite de sono.

Assim, vou continuar a defender as virtudes do livro como uma forma simples e eficaz de promover uma boa noite de sono e de resistência ao mundo acelerado em que vivemos.

Tiago Sá

Nasceu em Braga, estudou Medicina em Coimbra e formou-se em Pneumologia no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Especializou-se em Medicina do Sono, obtendo o título de Expert in Sleep Medicine, atribuído pela European Sleep Research Society e a Competência em Medicina do Sono pela Ordem dos Médicos. Em 2019, fundou a Sleeplab. Acredita que a abordagem dos problemas do sono deve ser multidisciplinar e é isso que pratica neste espaço, juntamente com uma equipa de especialistas prontos a ajudar pessoas com as mais diversas patologias do sono.


Artigo publicado na edição de verão de 2026 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas livrarias.

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