Viagem ao interior do cérebro leitor

Por: Marisa Sousa a 2021-04-23

Sandra Barão Nobre

Sandra Barão Nobre

Sandra Barão Nobre nasceu em França, em 1972. Em 1980 volta para Portugal com a família e vive em Portimão, no Algarve, até ao fim dos estudos secundários. Em 1995 licencia-se em Relações Internacionais, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa. Desempenha funções na Telecel, na Câmara de Comércio Uruguaio-Portuguesa (em Montevideu), na Fundação de Serralves e na livraria on-line WOOK, onde trabalha entre 2003 e 2015. Nos entretantos, nunca parou de viajar. Em 2011, cria o Acordofotografico.com — um site onde homenageia o ato de ler — e em 2014 parte de mochila às costas para fazer uma volta ao mundo.

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"Almoço de domingo" | "Ser patriarca é, em grande medida, sobreviver”

Nas entrelinhas do novo romance de José Luís Peixoto, provamos o Alentejo. As páginas têm jeito de fumeiro, cada linha semelhante ao varão onde se apresentam as farinheiras, os chouriços, as morcelas, os paios e as paiolas. Almoço de Domingo é uma biografia a pedir para ser saboreada, um romance escrito com o paladar entre a língua. É a história do menino que levou as fêveras do porco, morto no dia anterior, até à casa do doutor. Do homem que sonhou “fazer uma casa como é devido”, e que acabou a construir um império com gosto a torrões de café. A história de um marido, pai, avô e bisavô, chefe de família e empresário, que não desistiu de si mesmo nem da terra onde nasceu.

Ouça(-os) com atenção | 11 podcasts que tem de conhecer

As probabilidades de se interessar por este artigo até ao fim aumentariam se o disponibilizássemos em versão áudio — apesar de não prometermos a voz melodiosa de Morgan Freeman ou de Bob Ross. Pelo seu formato e flexibilidade, os podcasts são a opção ideal para quem gosta de se manter informado e, de preferência, se prefere fazê-lo enquanto desempenha outras tarefas. De entre a imensa oferta que o mercado já apresenta, fomos descobrir alguns podcasts, com selo português, que alimentam, alto e em bom som, o amor pela literatura e espicaçam a descoberta de novos autores e livros. Ouça com atenção e prepare a sua lista.

8 curiosidades sobre a língua portuguesa

No dia em que celebramos esta pátria tão mais rica e extensa do que o limite das nossas fronteiras que é a da língua portuguesa, partilhamos consigo oito curiosidades sobre a nossa língua que pode encontrar nos livros Almanaque da Língua Portuguesa e História do Português desde o Big Bang, de Marco Neves.

"Um dos problemas mais graves de que sofremos agora é terem-nos convencido que a velocidade é um mérito. A cultura é lentidão. O prazer da leitura exige disponibilidade. Até porque ler nos leva a todo o tipo de lugares proibidos e perigosos. A leitura é, largamente, um lugar de transgressão. Muitas vezes, felizmente, estamos a atirar-nos a um abismo, um abismo em que ninguém se perde e muita gente se salva."

— Alberto Manguel

 

A biblioterapeuta Sandra Barão Nobre já faz parte da família. Temos vindo a realizar, há já alguns anos, diversas ações relacionadas com a biblioterapia e foi pela sua mão que levámos a bom porto o sonho de fazer o primeiro Retiro de Leitura em Portugal — aconteceu em 2020, um mês antes de uma pandemia nos colocar, a todos, os planos em suspenso. De cada vez que conversamos, há um contágio inevitável que nos trespassa a pele e, invariavelmente, a lista de leituras cresce. Porque a Sandra é bem mais do que biblioterapeuta, é uma espécie de raio de luz que nos ilumina as páginas por descobrir. Desta vez, a conversa fez-se a propósito da leitura em tempos de confinamento. O ponto de partida é uma mão cheia de dúvidas.


Lemos cada vez menos ou lemos como nunca, para nos salvarmos da realidade? A leitura, neste último ano, foi mais fragmentada e adiada ou foi o pão-nosso dos dias suspensos?

No quadro da União Europeia, Portugal foi o país onde menos se leu, desde que fomos assolados por esta pandemia. Aquando do primeiro confinamento, houve quebras em todos os países, mas, depois da primeira vaga, todos recuperaram. Independentemente das políticas, independentemente dos respetivos governos terem ou não considerado o livro um bem prioritário. É um pouco desanimador olhar para o panorama português. Curiosamente, há pouco tempo, a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas divulgou o resultado do inquérito anual que faz junto das bibliotecas. Em 2019, comparativamente com 2018, aumentou o número de pessoas que requisitaram livros. Não sei concretamente a que se deve este aumento, mas é positivo. Mas, depois, vemos os dados referentes às vendas de livros; as tiragens das novidades que são cada vez mais pequenas; olhamos à nossa volta, na rua, na nossa família, no grupo de amigos, e é um facto que as pessoas estão a ler menos.

Em Portugal, o último estudo transversal sobre hábitos de leitura é de 2007. Desde então, não sabemos quem lê ou o que andamos a ler. Agora que começamos a preocupar- nos com os impactos da pandemia na nossa saúde mental, é muito importante saber o que as pessoas andam a ler, para a definição de estratégias. Para mim, enquanto biblioterapeuta, ou para qualquer pessoa que trabalhe nesta área, esta inexistência de dados é muito frustrante. Em setembro de 2020, foram revelados os resultados parciais de um estudo encomendado pelo PNL (Plano Nacional de Leitura). Apesar de preliminares, os resultados não auguram nada de bom: cerca de 60 % das famílias portuguesas tem uma relação fraca com a leitura e com o livro. A esmagadora maioria das pessoas tem entre 0 a 100 livros em casa. Pode parecer muito, mas não é. Eu gostava de ser mais otimista, mas preocupa-me o impacto deste afastamento da leitura em profundidade e feita por prazer.

 

Profundidade que é precisamente o oposto das leituras fragmentadas de que falávamos.

Não é por acaso que a história se divide entre pré-história, antes da escrita e da leitura, e história, depois da invenção dos sistemas de escrita, e que foi quando começámos a ler. Aquilo que somos, hoje em dia, o grau de sofisticação que atingimos enquanto espécie, a capacidade de olhar o mundo, de o classificar, de o arrumar, vem dessa competência para escrever, para ler em profundidade e passar o conhecimento de geração em geração. Acaba por ser irónico que a espécie que descobriu esta coisa fascinante que é o prazer de ler e de viajarmos dentro da nossa cabeça, para fora de nós mesmos, tenha chegado a um grau de sofisticação tal que inventou as novas tecnologias que, agora, nos estão a fazer reverter.

 

Essa leitura em profundidade acaba por não ser compatível com este excesso de estímulos que, por exemplo, as redes sociais nos oferecem.

Nós precisamos de novidades, o nosso cérebro está particularmente alerta ao que é diferente e novo. Estamos absolutamente deslumbrados com as novas tecnologias — que fazem coisas maravilhosas na nossa vida —, de que não queremos prescindir de maneira alguma. No entanto, estamos a acordar para o lado b desta vida atrás dos ecrãs e estamos a  começar a correr atrás do prejuízo. É óbvio que as tecnologias vieram para ficar e ninguém quer viver sem elas, mas temos de fazer um esforço tendo em vista o seu uso saudável e equilibrado. Esta questão da hiperestimulação não é nova. Migramos do zapping por 200 ou 300 canais, para a internet, que é infinitamente maior em termos de poder de hiperestimulação e de capacidade para nos apresentar, a cada microssegundo, uma coisa nova.

 

SEREMOS INATAMENTE DISTRAÍDOS?


Não me canso de recomendar o livro Os Superficiais, de Nicholas Carr. Há cientistas que defendem que este interregno de evolução do homo sapiens, em que fomos leitores em profundidade, capazes deste exercício espantoso de estarmos parados a fazer só uma coisa, focados nesse exercício de ler em profundidade e de fluxo dentro da leitura, foi, provavelmente, uma anormalidade. Porque o nosso cérebro, dizem esses cientistas, é inatamente muito atento aos estímulos que vêm de fora, como se fôssemos inatamente distraídos, com défice de atenção constante, mas natural. Através da leitura, teremos conseguido dominar, durante algum tempo, esse estado natural, e agora, por ironia do destino, estamos a voltar atrás.

 

Ao nosso estado natural?
Sim, e que é um estado de alerta constante. Quem está por trás destas novas tecnologias explora muito bem essa nossa caraterística biológica. Todas as grandes plataformas estão a trabalhar com cientistas, com neurocientistas, com psicólogos da cognição, que sabem exatamente como é que o nosso cérebro está ligado, como é que ele funciona e em que armadilhas pode cair, e preparam, e preparam as plataformas para nos agarrar por aí. É óbvio que, comparada com o exercício intelectual pouco exigente que nos propõem estas plataformas (ligar o ecrã e navegar), a leitura é algo muito mais exigente. Ler é um exercício intelectual exigente.
 

"Voltou-se, como na sociedade grega, à centralidade do monumento — o computador. Diz-se que ele permite que sejamos leitores interativos. Schubert era o verdadeiro leitor interativo. Na sua biblioteca só tinha livros que amava: as páginas de que não gostava, arrancava-as. Isso é interatividade."
— Alberto Manguel

 

OLEAR O CÉREBRO LEITOR


Ler, sobretudo ler em profundidade, é exigente quando não temos o cérebro leitor oleado. Quem lê todos os dias não sente esforço algum. O que exige disciplina e esforço é chegar a esse grau. Temos de ler todos os dias. A partir daí, o processo passa a ser natural, inconsciente. Quem não tem esse hábito e, um dia, decide ler, o mais certo é aperceber-se que não se consegue focar ou concentrar-se, e que dá por si a pensar outras coisas. O mais certo é ler duas páginas e adormecer e, no dia seguinte, já não se lembrar do que leu. Porque não está a trabalhar a memória a curto prazo, porque as ligações entre a memória a curto prazo e a memória a longo prazo não se fazem — e é aí que são guardados os conceitos. O nosso cérebro simula tudo o que lemos. A leitura confronta-nos com imensas coisas que, por vezes, não são agradáveis. Num livro podemos ver os nossos preconceitos espelhados, os nossos erros e atitudes. Também talvez por isso haja pessoas que fogem da leitura.

 

Também não terá ajudado o facto de se ter proibido a venda de livros.
Foi um tremendo tiro no pé. Até consigo compreender, na teoria, as preocupações, mas num país como o nosso, em que nunca houve multidões nas livrarias, não havia o perigo de haver ajuntamentos. Qual era o perigo? Não foi permitido folhear os livros, mas era permitido folhear jornais e revistas…

 

©Sofia Costa.

 

Sandra Barão Nobre trabalhou na TVI, passou por Serralves e pela Porto Editora. Em 2011, criou o Acordo Fotográfico, um site sobre livros, pessoas e fotografias, que homenageia o ato de ler. Em 2014, pôs a mochila às costas e foi conhecer o mundo. É autora de Uma Volta ao Mundo com Leitores (Relógio D’Água), é formadora, biblioterapeuta, e acredita que os livros certos nos podem mudar.

 

"Estamos a perder leitores — gente que lê por prazer — em todo o mundo."


FAZER LEITORES


A descoberta da leitura tem de ser feita em família, desde o primeiro momento, quando as crianças ainda não sabem ler ou escrever. É necessário falar com o bebé, com a criança, cantar para ela, comunicar e ler em voz alta, expô-la ao maior número de palavras possível, apresentar-lhe o livro, criar essa relação de afeto e de amor com o livro e com a leitura. É aí que se cria o prazer de ler, é aí que nos fazemos leitores sem esforço.

 

Acredita que fornecer essa base no início é uma garantia de que, no futuro, a criança se tornará um adulto leitor? Qual o papel das chamadas leituras obrigatórias que, tantas vezes, afastam as crianças dos livros? Que geração de leitores se está agora a formar?
Isso é também um debate muito aceso. Eu tenho a certeza que quem cresce nesse ambiente familiar, onde se lê e onde existe uma relação forte com a leitura, mais tarde perceberá a riqueza desse exercício de ler e vai voltar a ele — ainda que durante a adolescência, e eventualmente durante os primeiros anos da vida adulta, possa não procurar tanto os livros. Eu acredito que sim. O que me preocupa são todas as crianças e jovens que não vão ter acesso a esse caldo primordial. E, tal como referi, em Portugal, cerca de 60% das famílias tem uma relação fraca com a leitura. Neste caso, para crianças que cresçam sem essa ligação à leitura, mais tarde vai ser mais complicado fazerem-se leitoras. É possível, claro, há inúmeros exemplos disso, mas é mais custoso. Muitos investigadores nesta área apontam o papel determinante da família, como primeira mediadora da leitura, para desfazer este nó górdio e termos mais leitores no futuro. E não é só Portugal que está a perder leitores, estamos a perder leitores — gente que lê por prazer — em todo o mundo, mas em Portugal já partimos para esta corrida muito atrás, fruto dos anos em que não vivemos em democracia, e fruto das elevadas taxas de analfabetismo que tínhamos. Agora que estávamos a tentar a fazer um esforço enorme para recuperar, enfrentamos estes desafios que são as plataformas digitais.

Em relação às leituras obrigatórias, a escola fez um esforço muito grande, também apoiada pelo PNL. Nos primeiros dez anos do programa, a leitura orientada em contexto escolar foi a principal atividade levada a cabo, sobretudo no pré-escolar e no primeiro ciclo. Isto para além das chamadas leituras obrigatórias. O ideal seria que os professores tivessem tempo. O ideal seria que se pudesse adequar a leitura à realidade de cada criança e ao conhecimento que esta tem da vida, porque é a partir daí que ela vai observar o mundo, compreendê-lo e compreender os livros que lhe são postos à frente. Se ela não consegue construir uma ponte entre a sua realidade, aquilo que ela é e o meio de onde vem, com a história que aquele livro lhe apresenta, é difícil que venha a gostar daquela história e que venha a identificar-se com o livro. Ao professor, cabe facilitar este processo, mas este trabalho individual e muito personalizado de recomendação de leituras consome tempo e há programas curriculares extensos para cumprir. Há professores absolutamente excecionais, mas não chega.
 

 

"Há professores absolutamente excecionais, mas não chega."

 

A UTILIDADE DO INÚTIL


O que temos pela frente? Como é que se recuperam leitores?
Precisamos de nos assumir como país que tem na cultura algo prioritário. Isso nunca foi feito. As perspetivas não são positivas por diversas razões: não somos um povo leitor, nunca fomos, embora sejamos um povo extremamente criativo, e quem manda e quem financia, quem nos orienta, nunca teve a cultura como prioridade. A cultura continua a ser vista como aquela coisa que não faz dinheiro. Este é um assunto que é discutido, desde sempre, por filósofos e por artistas, há muitos ensaios sobre a utilidade do inútil. O que teria sido de nós, fechados em casa, sem tudo o que há na Netflix, por exemplo? Uma série é cultura, uma música é cultura, um concerto é cultura, um livro é cultura, um bom texto publicado num blogue é cultura, tudo isto é cultura, é produção intelectual. O que teria sido de nós? Definharíamos. Nem só de pão vive o homem e nós precisamos que nos alimentem a alma, a emoção e a imaginação.


A forma como lemos também está a mudar. A forma como se lê nas plataformas digitais, em ziguezague, à procura de palavras-chave, e com pouca persistência e paciência — ninguém lê um texto com mais de dois parágrafos nasredes sociais, passa-se à frente —, está contaminar a forma como se lê no papel. Para muitos, os livros volumosos já assustam. A Maria do Rosário Pedreira falou há dias sobre isto, no podcast A Beleza das Pequenas Coisas, e na forma como esta tendência se reflete nos originais que recebem para publicação. A maioria dos originais é escrita como se fossem guiões. A forma como escrevemos online está completamente condicionada pelas regras impostas pelas grandes plataformas, e os motores de pesquisa têm uma série de regras que se refletem na apresentação dos resultados. Tudo isto está a condicionar a forma como escrevemos noutros suportes, fora do online.


A Maryanne Wolf, uma investigadora na área neurociência da leitura que eu não me canso de citar, levanta a hipótese de livros da envergadura d’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, por exemplo, publicado no início do século xx, terem menos hipóteses de serem publicados hoje em dia. Provavelmente, os editores iriam questionar-se até que ponto uma obra extensa e exigente do ponto de vista da persistência leitora, como aquela, teria público.


 

Obras prescritas pela biblioterapeuta:

 

 


Artigo publicado na edição de abril de 2021 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas 58 livrarias.

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