A ideia surgiu há cerca de três anos e foi reforçada em 2019, por um artigo da revista Flow, onde uma jornalista relata a sua experiência num retiro de leitura nos Países Baixos. O conceito revelou-se fascinante e uma pesquisa online permitiu concluir que poucos são os países onde algo semelhante é regularmente promovido. Porque Portugal não fugia a esta regra, pareceu-nos que era o momento ideal para nos aventurarmos na realização de um primeiro retiro de leitura.
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Para que um retiro de leitura - tal como este foi concebido -, aconteça, não basta que o leitor, por iniciativa própria, escolha um conjunto de livros e se isole algures, durante uns dias, para se concentrar na leitura. Também não basta dispor de um bom alojamento, que garanta silêncio e a existência de livros — à semelhança do que alguns hotéis e outros alojamentos de pendor literário fazem. O objetivo principal foi claro, desde o início: proporcionar aos participantes uma experiência de leitura completa e, acima de tudo, assessorada e personalizada, com a biblioterapia, e o seu impacto comprovado no bem-estar do ser humano, como pano de fundo.
A ação foi precedida pelo envio de um breve inquérito aos participantes, para auscultar os seus hábitos de leitura e as suas atuais necessidades de leitura, de acordo com a fase da vida em que se encontram e os objectivos que almejam. As respostas permitiram recomendar, a cada leitor, um par de livros escolhidos especificamente para si (que poderão ser consultados na montra lateral). Com a informação recolhida, foi possível, ainda, traçar um perfil geral do grupo. Palavras como “mudança”, “tolerância”, “paz” ou “resiliência” foram escolhidas para descrever o seu momento presente; expressões como “calma”, “conforto”, “construir”, “harmonia” e “partilha” descreveram o futuro desejado. Honestidade, solidariedade e respeito foram os valores apontados, também, pela maioria.
A Quinta de Seves, perto da Covilhã, proporcionou o afastamento do ambiente urbano, a quebra da rotina, o ar puro, o silêncio, o conforto, a disposição ideal dos espaços interiores e exteriores (tão propícios ao isolamento e à leitura, como ao convívio em grupo e à partilha), a experiência gastronómica, a ocupação exclusiva (todos os quartos se destinaram aos leitores) e a simpatia dos proprietários. Tudo — até os dias lindos de sol — conjurou para que os participantes relaxassem e se focassem apenas na leitura e na partilha de experiências em torno dos livros.
Para que a leitura fosse proveitosa e eficaz, o primeiro dia arrancou com uma breve sessão de esclarecimento sobre biblioterapia — como se define, quando surgiu, como evoluiu, como funciona e quais são os seus benefícios. A partilha desta informação tornou os participantes conscientes do potencial transformador da leitura. As posteriores sessões de biblioterapia, permitiram abordar as realidades e as necessidades de cada um.
O segundo dia, contou com a presença do autor José Riço Direitinho. Ao partilhar detalhes sobre o seu percurso de autor e crítico literário, ao responder às questões colocadas por todos e ao fazer referência a autores e títulos que recomenda, envolveu o grupo numa tertúlia que encaixou perfeitamente no espírito da ação.
A dinâmica que se estabeleceu entre todos os participantes, que chegaram à Quinta de Seves como meros estranhos e regressaram às suas casas, certamente, com laços de afeto criados entre si, foi absolutamente comovente. A compreensível apreensão inicial, depressa se desvaneceu e deu lugar à certeza de que todos cooperariam para o sucesso do retiro (a enorme lista de livros a ler que foi coligida é uma das muitas provas disso). Nunca faltou assunto para conversar, rir, partilhar, aprender, em suma, para se enriquecerem mutuamente, para dar asas à sua humanidade, à sua faceta mais luminosa, ao que há de melhor em cada um. Que tudo isto tenha sido possível por causa dos livros, conferiu um sentido extra às suas vidas de leitores e imbui-os de alegria e esperança.
Sandra Barão Nobre, Biblioterapeuta.