A julgar pela quantidade de menções de jovens a Osamu Dazai no TikTok e redes sociais vizinhas, poderíamos assumir que se trata de um novo escritor de literatura Young Adult, com um futuro promissor. Mas o fenómeno de viralização deste autor japonês, que escrevia sobre alienação, mágoa e a sua obsessão com o suicídio, chegou mais de setenta anos após a sua morte. Quem foi Osamu Dazai? Na semana do seu 115º aniversário, respondemos a esta e a outras perguntas sobre este autor que, contra todas as expetativas, conquistou uma nova geração de leitores e tornou-se uma sensação viral.
Um homem em declínio
O título do livro que o tornou célebre — Um Homem em Declínio, originalmente publicado em 1948 —, seria um título igualmente adequado para a sua biografia. Nascido no Japão em 1909, Shuji Tsushima, que mais tarde adotou o pseudónimo Osamu Dazai, viveu uma vida atribulada, marcada por inúmeras tentativas de suicídio. De origens aristocráticas, mas de espírito rebelde, dedicou-se à atividade política, ingressando em movimentos de esquerda, porém, sem nunca conseguir integrar-se ou partilhar plenamente dos seus ideais. A guerra, um pai ausente, a doença da mãe e a morte do seu ídolo por suicídio (o autor de Rashomon, Ryunosuke Akutagawa), levaram-no a uma profunda crise existencial, tendo trocado os estudos pela escrita e caído numa dependência crescente de álcool e estupefacientes.
A 13 de junho de 1948, pôs término à sua vida, afogando-se no Canal Tamagawa, juntamente com a sua namorada, Tomie. Os seus corpos só foram descobertos seis dias mais tarde, a 19 de junho, data em que o autor comemoraria o seu 39º aniversário.
Histórias de mágoa e vergonha
“Bem vindos à Magoa. Habitantes: um." Assim começa As Flores do Riso, romance que publicou em 1935, e que, tal como Um Homem em Declínio, é um dos expoentes do “watakushi shosetsu”, um estilo literário japonês em que o romance é escrito na primeira pessoa, incorporando elementos autobiográficos. Se em Um Homem em Declínio, mergulhamos nos recessos obscuros da consciência humana, em As Flores do Riso, Dazai experimenta os mesmos temas, mas mergulha-os numa dose inesperada de comicidade. Ambas integram um conjunto de mais de duas dezenas de obras escritas pelo autor que o consagraram como o “bad boy da literatura japonesa” (Japan Times), embora até ao momento apenas estas duas tenham sido publicadas em Portugal.
Altamente influenciado por autores como Ryunosuke Akutagawa, Murasaki Shikibu e Fiódor Dostoiévski, Osamu Dazai tornou-se um símbolo de uma geração, a que deixava a guerra para trás e via já os alvores de uma sociedade pós-moderna. Por sua vez, Um Homem em Declínio, o seu magnum opus, é hoje reconhecido como como um dos mais importantes romances japoneses do século XX.
Do declínio à ascensão nas redes sociais
Embora já fosse um autor respeitado no Japão, a fama de Osamu Dazai demorou a chegar ao resto do mundo. Para isso, contribuíram bastante as múltiplas adaptações das suas obras para anime e manga — entre elas, a adaptação para manga de Um Homem em Declínio pelo mestre do terror japonês Junti Ito, em 2017, e Bungo Stray Dogs, de Kafka Asagiri, uma série de manga e anime, na qual o próprio Osamu Dazai dá nome a uma das personagens.
Com a publicação de uma nova edição portuguesa de Um Homem em Declínio em 2023 e uma nova tradução para inglês em 2024, o clássico japonês alcançou uma nova geração de leitores e tornou-se viral no universo do BookTook: a hashtag #Osamudazai gera mais de 195 mil resultados na plataforma. Apesar da aparente distância temporal e cultural, Dazai encontrou uma nova geração de leitores no Ocidente, mais de sete décadas após o seu suicídio, provando, uma vez mais, a capacidade singular da literatura de atravessar e romper todas as fronteiras.