Depois de terem sido premiados três homens na categoria de poesia da edição anterior do Prémio Livro do Ano Bertrand, o primeiro lugar do pódio foi finalmente ocupado por uma mulher. A honra coube a Natália Correia, essa que, segundo Soraia Chaves (que representou Natália na série da RTP 3 Mulheres de palavra fazem revolução) “não era uma só mulher, era muitas mulheres, tinha um universo gigante dentro dela”. A obra escolhida foi Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, um livro que causou polémica aquando da sua publicação em 1965, e que levou a que a autora fosse condenada a 3 anos de pena suspensa.
Após ter visto sucessivos livros seus apreendidos pela Censura do Estado Novo, Natália Correia aceitou o convite do editor da Afrodite, Fernando Ribeiro de Mello, para organizar esta Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. "Finalmente num único livro", prometia a cinta que acompanhava o volume, publicado em dezembro de 1965, "a poesia maldita dos nossos poetas", "as cantigas medievais em linguagem atualizada", "dezenas de inéditos" e "a revelação do erotismo de Fernando Pessoa". A obra causou escândalo e foi apreendida pela PIDE, com vários dos intervenientes julgados e condenados em Tribunal Plenário, num processo que se arrastou durante anos.
Foi republicada pela primeira vez em abril de 2019, quase três décadas após a morte da poetisa, pela editora Ponto de Fuga, incluindo as ilustrações originais de Cruzeiro Seixas, novos textos introdutórios e reproduções de documentos que contextualizam um marco histórico na edição em Portugal. Na sequência da votação feita pelos leitores e livreiros Bertrand, foi eleito como o melhor livro de poesia publicado em 2019.
Natália Correia nos anos 60 e o relatório da comissão de Censura que proibiu a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Dos cancioneiros medievais à atualidade
devido ao seu alegado “carácter pornográfico.” / Fonte: Expresso
O segundo lugar desta categoria coube ao livro póstumo do músico Leonard Cohen, A Chama, publicado pela editora Relógio d'Água. Para Francisco Vale, o diretor editorial, este livro foi uma despedida deliberada deste que foi um dos melhores compositores do nosso tempo:
"A Chama é um livro póstumo de Leonard Cohen, preparado para edição pelo seu filho, Adam Cohen. É um legado de poemas, canções, desenhos e versos dispersos, às vezes registados em cadernos de apontamentos e até guardanapos de papel.
É uma despedida deliberada, que evita os sentimentalismos.
Esta despedida de Cohen, que recolhe textos já publicados e inéditos, evidencia a variedade dos talentos de um romancista, poeta e cantor singular, lírico e filosófico, terno e corrosivo, feroz e generoso. Inclui novos poemas sobre a guerra, o arrependimento e a amizade, as letras das canções dos seus últimos quatro álbuns, fragmentos dos cadernos que guardou desde a adolescência e uma série de autorretratos e outros desenhos." — Francisco Vale (diretor editorial).
Ao livro Os Lugares do Lume, de um dos maiores poetas portugueses, Eugénio de Andrade, coube o terceiro lugar. Sobre este reconhecimento do poeta que nos deixou há já 15 anos, pronunciou-se Vasco David, da editora Assírio & Alvim:
"Embora Eugénio de Andrade nos tenha deixado em 2005 a sua poesia permanece radicalmente viva, continuando a tocar, a inspirar e, porque não dizê-lo, a comover quem o lê hoje. A prova é este livro, Os Lugares do Lume, publicado pela Assírio & Alvim em 2019, ter sido eleito pelos livreiros e pelos leitores da Bertrand como uma das melhores reedições de poesia feitas nesse ano. Noutro livro seu, Rosto Precário, podemos ler que «[…] o poeta vai nascendo com o poema para a mais efémera das existências; são as palavras, a luz e o calor que de umas às outras se comunicam, que o vão por sua vez criando a ele, acabando por lhe impor a mais dura das leis — a de que se extinga para dar lugar à fulguração do poema, a de que deixe de ser para que o poema seja, e dure, e o seu fogo se comunique ao coração dos homens». Palavras que adquirem um sentido redobrado com esta distinção, de que nos orgulhamos e que em nome da Assírio & Alvim agradeço." — Vasco David (editor)
Recorde os restantes vencedores do Prémio Livro do Ano Bertrand 2019.