Livros curtos e vidas boas

Por: Maria Francisca Gama a 2026-07-10

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Revista Somos Livros n.º 43 - Verão 2026
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As Malditas
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E Então, Lembro-me
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Tudo na Natureza Apenas Continua
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Numa tarde em que estava sentada numa esplanada a beber um café e a ler um livro, fui interpelada por uma antiga colega de trabalho que apareceu sem eu dar conta: disse-me, em tom jocoso, que eu tinha uma boa vida, pois estava ali, sem fazer nada, "a ler um livrinho ao sol". Achei interessante esta ideia de que uma pessoa que está a ler ao ar livre tem uma vida ótima, porque eu estava de rastos nesse dia, exausta, a ter os meus primeiros trinta minutos sozinha depois de ter sido mãe. Ela tinha razão: ali, estava a viver uma boa vida, no entanto, não era por não estar a fazer nada — luxo a que todos deveríamos ter acesso —, mas, sim, por estar a ler.

A leitura faz parte da minha vida e da minha rotina: recuso--me a ir dormir sem folhear um livro, sem ler umas páginas. Sei que é um privilégio de quem trabalha com livros e os tem espalhados pela casa, mas também acredito que seja uma escolha: de cada vez que leio, não sei o que os meus amigos comeram ao pequeno-almoço ou em que cidade do país o meu cantor preferido esteve a atuar na noite anterior. Agarro num livro e deixo o telemóvel num canto da casa; despeço-me do mundo, afastando-me das urgências (Será mesmo tudo tão urgente quanto as notificações fazem parecer?) e mergulho num oceano de pessoas que não existem, de sítios povoados por desconhecidos, que não precisam de mim, que só me oferecem horizonte.

Nesta era veloz, imediata, sobrecarregada de estímulos e de solicitações, em que cobramos aos outros que nos deem uma resposta rápida, estar sentado numa esplanada ou deitado na cama a ler parece um ato de resistência contra o avanço, ainda que, creio, pudéssemos estar mais à frente se todos lêssemos, se nos entregássemos ao tempo e o abrandássemos para pensar, para calçarmos sapatos diferentes, para vermos o mundo que extravasa aquele a que temos acesso nas nossas vidas.

A leitura faz parte da minha vida e da minha rotina: recuso-me a ir dormir sem folhear um livro, sem ler umas páginas.

Construirmo-nos como leitores é uma caminhada vagarosa e que não tem fim à vista, pois arrogarmo-nos desse título, que não é vitalício nem nos coloca num pedestal, passa apenas e só por irmos lendo. Perguntar-me-ão "Como começo?" e eu respondo, sem grande ciência, "agarrem num livro e leiam cinco páginas por dia". "Em que altura do meu dia?" Nunca trabalhámos tanto quanto hoje, nunca fomos, aparentemente, tão produtivos, tão virados para a prossecução de um ideal de utilidade. "Ler é útil?" Creio que sim, que ler é importante, não faz de ninguém melhor, mas traz-nos mais perspetiva, oferece-nos a hipótese de pensarmos, de desligarmos o piloto automático, pode ser uma forma de autocuidado, de espaço para nos evadirmos. "E quando leio, afinal?" 

Em minha casa, antes dos telemóveis, levavam-se livros para a casa de banho: era a forma silenciosa que tínhamos de avisar que íamos demorar um pouco mais ali. Sempre que saio de casa, levo um livro na mala, e, feliz ou infelizmente, as minhas idas aos correios, ao supermercado e à farmácia, muitas vezes, são frutíferas em capítulos devorados. Nos transportes públicos, se tenho onde me sentar, tenho companhia das personagens que carrego. E no quarto, à noite, há uma regra: o telemóvel fica na casa de banho a carregar e a luz só se desliga depois dos dois termos lido qualquer coisa. Não parece assim tão difícil, pois não?

Deixo-vos cinco recomendações de livros — curtos, com menos de 300 páginas, que cabem na mochila ou na mala que passeiam ao ombro — e que eu acho que são excelentes pontos de partida para a vossa caminhada. Alguns fizeram de mim quem eu sou; outros foram companhia para dias difíceis, ou, até os pegar, aborrecidos; e também há aqueles que alimentaram a minha imaginação e contribuíram para que me tornasse escritora. Independentemente do papel que desempenharam, há uma característica comum: são livros que me fizeram ter uma "boa vida", como a minha ex-colega de trabalho disse e, agora que penso, muitíssimo bem.

As Malditas, de Camila Sosa Villada

Um livro para aqueles que querem sonhar em conjunto com uma irmandade de travestis e conhecer a sua luta para poderem existir como bem queriam. É uma obra de arte que, a mim, me fez rir e chorar.


Quem Matou o Meu Pai, de Édouard Louis                      

Um livro para aqueles que não têm medo de conhecer a realidade de uma das regiões mais pobres de França, onde a violência e as desigualdades socioeconómicas marcaram e continuam a marcar o futuro de milhares de crianças e jovens. Mais do que um manifesto político e de denúncia de um fosso social, é uma partilha profundamente generosa do autor, que tenta perdoar o pai e encontrar razões para ele ser como era.


E Então, Lembro-me, de Catarina Costa

Um livro distópico, difícil de largar pela premissa inquietante: uma mulher acorda na cama de um hospital de uma cidade sitiada, sem memória, rodeada por uma série de pessoas como ela. Todos estão ali para ser mão de obra num complexo fabril, mas não sabem o porquê, nem quem foram antes.


A analfabeta, de Agota Kristof

Um livro autobiográfico que reúne alguns dos episódios mais marcantes da vida da autora e a importância do domínio da língua. Recordo-me de o ler numa só noite, em duas horas, e de adormecer a admirar ainda mais a autora de Trilogia da Cidade de K


Tudo na Natureza Apenas Continua, de Yiyun Li

Um livro sobre o luto da autora, que perdeu, no espaço de poucos anos, ambos os filhos. Seria difícil acreditar, antes de ler, que existisse um relato autobiográfico desta tragédia que não fosse profundamente triste, e até lamechas, mas Yiyun Li foi capaz de, racionalmente, partilhar com os leitores como escolheu viver depois daquilo que lhe aconteceu. É de uma beleza impressionante, terminei o livro em lágrimas, mas serena.

Boas leituras.

Maria Francisca Gama

Nasceu em Leiria, em 1997. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e, mais tarde, estudou rádio, televisão e escrita para os meios audiovisuais. É autora d'A Profeta, publicado em 2022, d'A Cicatriz, publicado em 2024, e de Filha da Louca, publicado em 2025, pela Suma de Letras, chancela da Penguin Random House. Integra a lista da Forbes 30 under 30 de 2024, na categoria Artes.


Artigo publicado na edição de verão de 2026 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas livrarias.

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