Onde os livros nos levam

Por: Beatriz Sertório a 2026-07-10

10%

A Vida Nova
19,90€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

O Vício dos Livros
17,45€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

Manifesto pela Leitura
9,90€ 8,91€
PORTES GRÁTIS

10%

O Vício dos Livros II
17,45€ 15,71€
PORTES GRÁTIS

50%

A Livraria na Colina
16,60€
50% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

30%

A Metamorfose
13,30€
30% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

À Espera de Godot
14,00€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

10%

The Black Poets
10,29€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

20%

Ensaio sobre a Cegueira
18,85€
20% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

20%

O Retrato de Dorian Gray
11,50€
20% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

Chega-se aos livros como às ilhas mágicas das histórias, não porque alguém nos leva de mão dada, mas simplesmente porque surgem no nosso caminho. Isso é ler, chegar inesperadamente a um lugar novo.

— Gustavo Martín Garzo, Elogio de la Fragilidade

"Um dia, li um livro e toda a minha vida mudou." A frase é de uma personagem de um romance de Orhan Pamuk (A Vida Nova, Editorial Presença), mas qualquer leitor pode identificar-se com este sentimento. Um dia, há um livro que muda tudo — a nossa perceção da vida, de nós mesmos, do mundo. Entramos num livro de uma forma e saímos invariavelmente de outra. Em O Vício dos Livros (Companhia das Letras, 2021), Afonso Cruz descreve esta metamorfose própria da leitura: "Cada vez que lemos, saímos da leitura como um novo indivíduo que resulta da combinação anímica entre o livro e o leitor.". Umas vezes, essa alteração é subtil, quase impercetível, mas sempre presente. Outras, é verdadeiramente transformadora.

Nos melhores casos, um livro leva-nos a transformar o mundo à nossa volta. Numa altura em que, em todas as esferas da sociedade, somos impelidos a ser mais espectadores do que leitores, a consumir em vez de criar, ler pode ser um ato de resistência. Um livro instiga-nos, interpela-nos, arranca-nos do ritmo vertiginoso de todos os dias. Nas palavras de Guy Debord, que Irene Vallejo resgata no seu Manifesto pela Leitura (Bertrand Editora, 2026): "Ler não é um ato tão passivo como ouvir ou ver; é recriação e efervescência mental.".

Ainda que nos levem para lugares longínquos, e até imaginários, de Nárnia às ilhas visitadas por Gulliver ou à mítica aldeia de Macondo, os livros expandem o nosso conhecimento do mundo. Confrontam-nos com novas formas de estar, de ser, de fazer. Voltando a Afonso Cruz, que retoma a ideia do poder transformador da leitura em O Vício dos Livros II (Companhia das Letras, 2025): "Quando lemos, não nos alheamos verdadeiramente da sociedade, mergulhamos, sim, nas possibilidades de uma sociedade.". E de nós mesmos.

Permitindo-nos ser outros, os livros alargam as fronteiras da nossa existência. Através deles, "habitamos na pele de outros, acariciamos os seus corpos e afundamo-nos no seu olhar". Para o filósofo, Richard Rorty, uma "anomalia" na sociedade marcadamente individualista em que vivemos, mas também um superpoder. Tornamo-nos múltiplos, híbridos de todas as histórias que já lemos e de todas as personagens que conhecemos, como se de amigos se tratassem. Convertidos em "pessoas-livro", como as de Fahrenheit 451, ou O Bibliotecário, de Arcimboldo, resta-nos tentar converter as pessoas à nossa volta, como uma patologia contagiosa, para a qual não se conhece cura.

Esta patologia “quixotesca” está na origem do filme A Livraria (2017), de Isabel Croixet, uma adaptação do livro homónimo de Penelope Fitzgerald (Clube do Autor, 2016). Nele, Florence Green, a protagonista, procura um novo propósito após a morte do marido e encontra-o numa paixão anteriormente partilhada pelos dois: os livros. Numa pequena vila costeira de Inglaterra, onde parece que ninguém lê, Florence arrisca tudo para abrir uma livraria, mas é constantemente confrontada com a oposição dos moradores.

Profundamente conservadores, os habitantes de Hardborough criam entrave atrás de entrave, provocando até um escândalo pela venda de Lolita, de Nabokov, um livro que consideram imoral. Apesar da resiliência da livreira, o desfecho é inevitável. Contudo, o fim do filme não deixa de ser um testemunho da natureza contagiosa do amor pelos livros, quando percebemos que Christine, a criança que em tempos ajudara Florence na livraria, e que, na altura, insistia que não gostava de ler, abriu a sua própria livraria no futuro. Um livro leva a outro livro. Um leitor leva a outro leitor — nos casos mais graves, abre uma livraria.

É o caso de Alba Donati, alguém que sabe bem o efeito real que os livros podem ter num lugar onde os leitores não abundam, mas também como eles podem servir de escape para as dificuldades da vida. Fundadora da livraria Sopra la Penna, em Itália, e autora do livro A Livraria na Colina (Pergaminho, 2024), é ainda uma das protagonistas do livro A Mais Bela Maldição (Porto Editora, 2026), de Rui Couceiro, uma compilação de histórias de pessoas apaixonadas por livros.

Com 59 anos, decidiu deixar Florença e o seu emprego numa grande editora italiana em busca de uma fuga do stresse e da rotina diária. De volta a Lucignana, a aldeia toscana que a viu crescer, perseguiu um sonho de infância e, em 2019, com o apoio da família e de uma campanha de crowdfunding, abriu as portas da livraria. Embora a ideia de inaugurar uma livraria numa aldeia com apenas 180 habitantes tenha sido recebida com ceticismo, valeu-lhe também o título de “livreira mais destemida de Itália”, elogiosamente atribuído por Rui Couceiro.

Nem a pandemia, nem um incêndio que obrigou à reconstrução da livraria foram suficientes para a demover, e, em 2023, escreveu o livro que faria a sua história chegar aos quatro cantos do mundo. Hoje, de todas as partes de Itália e mais além, chegam excursões de autocarros para conhecer a pequena livraria na colina, um espaço onde, desde 2025, se realiza também o festival literário Little Lucy, promovendo encontros com escritores, eventos culturais e a atribuição de prémios literários.

Separado por milhares de quilómetros, mas unido pela paixão pelos livros e por ser outro dos protagonistas de A Mais Bela Maldição, Jacques-Dominique Benoist instala-se em São Tomé e Príncipe com um sonho semelhante. Tal como Donati, tinha um trabalho particularmente exigente como socioeconomista em França, quando visitou este país da África Central pela primeira vez. Atraído pelo estilo de vida mais simples e pela filosofia do “leve-leve” que se tornou numa das imagens de marca deste povo, foi para lá que decidiu mudar-se quando se reformou, aos 68 anos.

Leitor devoto desde jovem, deu por si a viver num país com uma única livraria (aberta apenas desde 2021) e onde o hábito da leitura é ofuscado por uma dependência séria do telemóvel, especialmente entre os mais jovens. Não obstante, determinado a meter os são-tomenses a ler, fundou, em 2019, uma editora a que chamou de Publicações Quatro Cervejas, numa alusão humorística à constatação de que o preço dos livros não poderia ser superior ao equivalente a quatro cervejas, num país em que 13 % da população é extremamente pobre. Por essa razão, apostou em edições de baixo custo, agrafadas e impressas por encomenda, consoante a necessidade, e em textos do domínio público, isentos do pagamento de direitos de autor.

Foi assim que Benoist levou para um país isolado e cercado pelo mar livros como A Metamorfose, de Kafka, os Sonetos de Camões ou os contos de Machado de Assis. Aos clássicos, seguiram-se livros sobre a História de São Tomé e Príncipe, e do mundo, bem como ensaios, com a missão de armar um povo marcado pelo colonialismo e pela escravatura com o conhecimento da sua História. Sem conhecimento, não pode haver reivindicação ou reparação histórica, e, sem memória, estamos condenados a repetir o passado. Em qualquer parte do mundo, os livros como a arma mais poderosa de todas, mas também como repositórios inestimáveis da memória coletiva de um povo.

Parafraseando o poeta brasileiro Mário Quintana, os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Mas os livros mudam as pessoas. Essa ideia está presente no filme Obrigado, Rapazes (2023), de Riccardo Milani, inspirado numa história verídica. Passado num estabelecimento prisional, narra a história de um ator fracassado, contratado para dar aulas de teatro aos reclusos. Mas aquilo que deveria ser apenas uma forma de pagar as contas, para o professor, e de passar o tempo, para os alunos, torna-se numa experiência transformadora de renascimento pessoal e coletivo.

No centro de tudo, está um livro: a peça À Espera de Godot, de Samuel Beckett, escolhido por tratar de um tema que os reclusos conhecem melhor do que ninguém — a espera. A sua dramatização leva o elenco numa digressão por todo o país, entre eles, um recluso que, apesar de mal saber ler e escrever, memoriza um dos monólogos mais emblemáticos do dramaturgo irlandês. E o próprio professor, no interior do qual volta a acender-se a chama da paixão pelo teatro. Depois do cair da cortina, ainda que as circunstâncias externas se mantenham inalteradas, nunca mais nada poderá voltar a ser o mesmo.

Esta singularidade própria dos livros, de nos permitirem viajar quando o corpo se encontra confinado, torna a prisão terreno fértil para a leitura, e os livros numa ferramenta poderosa de reforma e reinserção social. Um exemplo real disso mesmo é Reginald Dwayne Betts, um ex-recluso norte-americano, detido aos 16 anos por car-jacking, cuja vida foi mudada para sempre por um livro. Durante os nove anos que passou na prisão, incluindo um período na solitária, descobriu o prazer da leitura, depois de perceber que era possível contrabandear livros para as celas. Foi aí que uma antologia poética chamada The Black Poets lhe abriu os horizontes para o mundo de possibilidades que se encontrava lá fora.

Decidiu, então, que seria escritor, mas também que queria proporcionar a outros reclusos a possibilidade de se redescobrirem através da leitura. Além de múltiplos livros publicados desde que reconquistou a sua liberdade, entre eles, um laureado do American Book Awards (Felon: Poems, 2019), fundou a Freedom Reads (inicialmente chamada Million Book Project), uma associação que instala bibliotecas em estabelecimentos prisionais.

Com um catálogo do qual constam títulos como Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, já instalou mais de quinhentas bibliotecas em prisões um pouco por todos os EUA, influenciando um número incontável de vidas. Foi também graças aos livros, na livraria onde trabalhou pouco depois de ser libertado, que conheceu aquela que viria a ser a sua esposa e onde começou a sonhar com voltar a estudar, um sonho que concretizou ao licenciar-se em Direito na Universidade de Yale — tornando-se, assim, num testemunho vivo de até onde um único livro nos pode levar.

A poucas horas da cidade onde a Freedom Reads instalou a sua sede, umas décadas antes, a História de outra comunidade desenrolou-se às portas de uma livraria. Antes dos tijolos que foram arremessados durante os protestos que ficaram conhecidos como a Revolta de Stonewall, houve a livraria Oscar Wilde Memorial e os seus livros, igualmente capazes de derrubar muros. Fundada em 1965, em Nova Iorque, pelo ativista Craig Rodwell, o nome desta que foi a primeira livraria queer do mundo prestava homenagem ao autor de O Retrato de Dorian Gray, condenado à prisão por ser homossexual.

No livro How Queer Bookshops Changed The World (One-world Publications, 2026), o jornalista A. J. West relata a história desta e doutras livrarias que estiveram na frente de combate pelos direitos da comunidade LGBTQIA+. Fundadas numa época em que a American Psychiatric Association ainda listava a homossexualidade como uma doença mental, e em que a epidemia da sida alastrava, foram determinantes para garantir o acesso desta comunidade ao conhecimento de que tanto precisavam para se manter em segurança.

Mais do que espaços de venda de livros, tornaram-se refúgios, pontos de encontro e centros de resistência cultural. Através de uma seleção cuidada de livros, ajudaram a construir um sentido de pertença e de comunidade, oferecendo representações positivas e complexas de vidas queer numa altura em que a literatura homossexual disponível parecia escassa e, frequentemente, marcada pela condenação moral, pela tragédia inevitável ou pela fetichização. Para muitos leitores, encontrar estas obras significou, pela primeira vez, encontrar-se a si mesmos nas páginas de um livro.

Como escreve Antonio Bassanta, em Leer Contra La Nada: "Ler é sempre uma mudança, uma viagem, partir para se encontrar.". Como faróis na escuridão, os livros e as livrarias ajudam-nos a navegar e a compreender melhor o mundo, e a nós mesmos. Nas palavras de C. S. Lewis, "lemos para saber que não estamos sozinhos". Falamos, tal como as personagens de À Espera de Godot, para abafar o silêncio ensurdecedor do absurdo que é viver. A certo ponto, na peça de Samuel Beckett, pergunta Estragon: "Encontramos sempre qualquer coisa para nos dar a impressão de que existimos, hã, Didi?". Ao que Vladimir responde: "Pois, pois, somos mágicos.". E os livros a nossa forma de magia mais poderosa.

"[...] os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Mas os livros mudam as pessoas."


Artigo publicado na edição de verão de 2026 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas livrarias.

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