A demora do livro na rapidez dos dias

Por: Joana Rodrigues Stumpo a 2026-07-09

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À ausência de ruído, chamamos silêncio. Permanecem apenas as oportunidades de redescobrir os sons há muito esquecidos. E, perante o sossego, conseguimos escutar. “Às vezes, o vento traz frases inteiras” — quando foi a última vez que ouvimos o que tem para dizer? Ler estas palavras de Carla Louro, com as quais arranca a sua estreia na poesia, Entra-se na casa pelo pátio, é ser recordada de que o silêncio também pode ser ensurdecedor. Mais do que tudo, é desejar voltar a ser atormentada por ele.

Entre acordar, pegar instintivamente no telemóvel, vestir um conjunto inspirado numa foto da internet, enfrentar o trânsito e chegar ao trabalho, os momentos de pausa escasseiam — e o mesmo vale para o fim desta rotina diária. “O movimento parece-nos fácil de viver”, entende José Tolentino de Mendonça, simplesmente porque “ocupa o tempo”. Em O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, explica que “fugimos do repouso porque não sabemos lidar com o incómodo do esvaziamento”. Parar significaria ser confrontado com o barulho estridente do vácuo e de todas as suas possibilidades. Evitar esse choque seria permanecer perpetuamente ausente, já que, nas palavras do autor, “a velocidade com que vivemos impede-nos de viver”. Homem da cultura e autor da lentidão, tem vindo a escrever e a pregar o que nos é tão difícil de aceitar: “Esperar não é uma perda de tempo. Muitas vezes, é o contrário.". Saber esperar é uma perícia que vem do fundo. Encarar a espera é estar face a face com todas as ânsias quantas cabem num coração. É ter medo, terror até, do vazio do aborrecimento.

Parar significaria ser confrontado com o barulho estridente do vácuo e de todas as suas possibilidades.

Ocupamo-nos apenas para que nos mantenhamos ocupados. Tarefa atrás de tarefa, fazemo-nos reféns de um ciclo atordoante. Mesmo na ação, seguimos inertes, máquinas de repetição. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Expulsão do Outro, explica que “o tédio de hoje acompanha a hiperatividade, mantém-se estupefacto e sem fala, emudece. É eliminado por meio da atividade seguinte. Mas estar-se ativo não significa ainda agir”. Talvez um princípio de agir seja parar. Pausar para depois retomar o caminho na rota certa. Segundo Tolentino de Mendonça, “nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital suspender do que continuar". Para isso, e como escreve em Uma Beleza que nos Pertence, “necessitamos de uma lentidão que nos proteja das precipitações mecânicas, do gesto cegamente compulsivo, da palavra repetida e banal”. Um vagar, uma folga, que pode ser o livro. Ou melhor, o poema. “Golos de água que nos tornam mais sedentos”, a poesia desvenda aquilo do que não temos memória de ter esquecido. “É um contributo fundamental para a audição do dizível e do indizível, do visível e do invisível”, dimensões que atingimos através do sossego, da serenidade. E, para lá chegar, temos as palavras: “Penso que a função da poesia é reabilitar o silêncio, é perfurar o ruído — o ruído que somos, o ruído que nos cerca — até encontrarmos camadas subterrâneas de silêncio.".

Para parar é preciso, antes de mais, parar. Arrumar os auscultadores, pôr o telemóvel no bolso, desligar a televisão. Abrandar o alucinante ritmo dos dias é uma escolha que tem de ser feita. Na verdade, uma grande sucessão de pequenas escolhas que, a pouco e pouco, nos salvam da agonia da rapidez. Para Tolentino de Mendonça, é um processo feito de renúncias. Saber quando abdicar da produtividade num ato de autopreservação: “Temos de ter coragem de perceber e aceitar os limites, pedir ajuda mais vezes e dizer 'basta por hoje' sem o sentimento de culpa a martelar.".

O meu telemóvel assombra-me. Faz-se fantasma, não me deixa em paz, nem mesmo quando está longe da minha vista. Por vezes, ouço-o vibrar. Estico o pescoço para olhar para a sua face ou corro para a divisão onde o pus de castigo, na aflição de precisar de saber. Com mais frequência do que gostaria de admitir, não há nenhuma notificação à minha espera. O som que juro a pés juntos ter ouvido soou apenas na minha cabeça. A ausência do meu apêndice faz-me alucinar. Como é possível competir um livro com esta dependência? Entre papel e digital, aquilo que se configura é um perfeito caso de concorrência desleal: enquanto o livro cria resistência, exige do leitor, além de concentração, uma disponibilidade para ser movido pelas palavras que lê, o ecrã é um espaço de conforto, desenhado para se adaptar a quem o tateia — fazendo-o crer que é o manipulador, e não o manipulado. Quando o livro está contra um smartphone, facilmente será preterido, pois compete com o que foi criado para viciar. Só que, quando optamos por um dispositivo pejado de uma distância incorpórea, afastamo-nos cada vez mais do que é palpável, do que é concreto. Sobre esta submissão ao digital, Byung-Chul Han diz que “intensifica a perda de sentido da realidade do mundo e descoisifica-o. As coisas perdem vida própria e tornam-se ferramentas complacentes para a solução de problemas. A própria vida é considerada solução de problemas” — não será esta constatação uma exemplar tradução de tantas vivências no contemporâneo? De vidas vividas à pressa, a saltar de contrariedade em contrariedade, num sufoco interminável que, por vezes, nem no sono dá tréguas. Como encaixa o tempo do livro nesta rotina? Como conseguiremos uma abertura para algo que permaneça, que se prolongue durante mais do que os poucos segundos em que estamos atentos? Talvez a resposta a esta pergunta passe ainda por uma outra questão: pelo pouco que, nestes moldes, nos é possível registar e guardar, valerá a pena manter o ritmo? Afinal, e como escreve o sul-coreano na obra Não-Coisas, “tudo o que se apressa está condenado a desaparecer”. Quando passaremos nós a fazer parte desta sina?

Não nos olvidemos de que as plataformas — especialmente, as sociais — são construídas para tirar da biologia humana o maior proveito possível. Com as notificações e as constantes novidades no scroll, o nosso cérebro reage com dopamina, tal como faria em situações de prazer ou satisfação. Ainda assim, a arquitetura da internet já vai além desta resposta química. Perante “as frustrações e ansiedades que vivemos em relação às identidades e à concentração, [...] o preconceito é a compensação emocional do tecnofeudalismo”. Quem o diz é Yanis Varoufakis, antigo Ministro das Finanças da Grécia e autor de Tecnofeudalismo, obra em que discorre sobre esta que concebe como a nova estrutura financeira e social sucessora do capitalismo. Este sistema é regido por um grupo restrito de indivíduos donos de grandes empresas tecnológicas das quais a maior parte da população depende (tomando como exemplo os grupos Meta, de Mark Zuckerberg, e Amazon, de Jeff Bezos). É nestas e noutras plataformas que passamos horas dos nossos dias, muitas vezes, ignorantes ao funcionamento dos algoritmos que decidem aquilo a que somos expostos e que, segundo Varoufakis, são paralelamente o motor da angústia que acumulamos e o veículo para a descarregar. “A moderação de comentários e legislação contra o discurso de ódio não conseguem impedir esta dinâmica, porque ela é inerente ao capital-nuvem”, termo que se refere à rede de hardware e software de que se fazem os impérios cibernéticos. Os algoritmos que os operam são feitos para maximizar a participação (ou, se quiserem, o engagement) — “a qual é tanto mais lucrativa quanto maior o ódio e o descontentamento”. É aí que rebenta a onda de dependência da internet, embora já estejamos enrolados nela muito antes desta tragédia sistémica. Porque, antes de nos querer fazer responder, partilhar, reagir, as plataformas precisam de nós como mais do que utilizadores — como consumidores.

“O mundo está poluído [...] pelo lixo da comunicação e da informação”, constata Byung-Chul Han, “está pejado de anúncios”. E a linguagem do anúncio é aquela que usurpa, o presunçoso e carente idioma que está disposto a tudo para dominar o nosso olhar. Não há humilhação possível, não há jogada que seja considerada baixa no universo do anúncio. Aliás, não há má publicidade.

A certa altura, e sem que nos tenhamos dado conta disso, uma boa parte do conteúdo digital que nos chega passou a ser publicitário. Patrocinado ou não (que diferença faz?), hoje, qualquer vídeo, fotografia ou até mesmo texto é, de certo modo, comercial. Há sempre um produto que muda a vida, um destino de viagem imperdível, uma marca revolucionária ou simplesmente o estilo de vida, uma doutrina ou religião. “O mundo está poluído [...] pelo lixo da comunicação e da informação”, constata Byung-Chul Han, “está pejado de anúncios”. E a linguagem do anúncio é aquela que usurpa, o presunçoso e carente idioma que está disposto a tudo para dominar o nosso olhar. Não há humilhação possível, não há jogada que seja considerada baixa no universo do anúncio. Aliás, não há má publicidade. Existe, sim, comunicação traiçoeira e exaustiva: “Tudo grita para chamar a atenção. O lixo da informação e da comunicação destrói a paisagem silenciosa, a linguagem discreta das coisas.". A literatura, na conceção do filósofo sul-coreano, constitui precisamente esse registo discreto e silencioso. A literatura não é impositiva e tão-pouco presunçosa. A literatura convida. Quer partilhar e abraçar. Existe gentilmente ao nosso redor, a aguardar o seu tempo. Por isso, também, requer de nós igual demora. O livro não pode ser apressado. As horas, contudo, são escassas, e as que permanecem livres são com frequência insuficientes para a dedicação que a leitura exige — e quem diz leitura diz igualmente teatro, cinema, música, atividades de nutrição cultural que, de modo que surtam efeito, necessitam de uma disposição próspera. Depois do trabalho e das inadiáveis tarefas diárias, o que sobra é o quanto basta para uma rápida recuperação. Um período de convalescência a que chamamos descanso, de restabelecer forças para mais uma longa jornada. É uma prática globalmente adotada cujos efeitos avassaladores, para o ensaísta britânico John Berger, estão previstos nos modelos sociais, não tivessem sido criados mecanismos para os quais o vazio de cada um de nós possa ser encaminhado: “A presença interminável de horas de trabalho sem sentido é 'equilibrada' por um futuro sonhado, no qual a atividade imaginária substitui a passividade do momento. No seu sonho acordado, o trabalhador passivo torna-se num consumidor ativo.". A publicidade passa a ser o mais próximo de uma forma de arte que ainda consegue ser olhada, noções de estética e storytelling pré-mastigadas, tornadas digeríveis. Tolentino de Mendonça enfrenta, assim como John Berger o fez em Modos de Ver, a impossibilidade de conciliar o sistema consumista e o verdadeiro alimento da alma. Desse conflito, entende que “quando o gozo, a paixão, a alegria se esgotam no consumismo desenfreado, seja de objetos, seja das próprias pessoas, chegamos à extinção da sede, à agonia do desejo”.

(...) quando o gozo, a paixão, a alegria se esgotam no consumismo desenfreado, seja de objetos, seja das próprias pessoas, chegamos à extinção da sede, à agonia do desejo.

O método do consumo, com frequência realmente “desenfreado”, continua a escalar: a cultura, em determinado momento, passou de apreciada, degustada, para ser consumida. E a linguagem reflete os nossos modos, as mudanças sentidas tanto nos costumes quanto no pensamento. A palavra diz qualquer coisa sobre o lugar em que nos encontramos, não é fruto do acaso, de um impulso inexplicável de um dicionário interior. Um termo adotado em esfera pública é, antes de mais nada, um sinal dos tempos. E empregar o verbo “consumir” para os atos de ver filmes, ler livros, assistir a espetáculos é, como denunciamos, os nossos deslizes. A cultura, a literatura são incompatíveis com a rapidez do devorar. Ainda assim, vergamo-nos às modas e cedemos às grandes pressões. Para ser leitor na contemporaneidade, não basta ler. É preciso que se saiba o que (e quanto) lemos, que as conquistas literárias sejam pavoneadas no Instagram, no TikTok — ou melhor, na rede criada para o efeito, o Goodreads. Além de servir como uma biblioteca pessoal, permite ainda ao utilizador interagir com amigos e fomentar hábitos de leitura. Todos os anos, é possível estabelecer um objetivo: quantos livros o leitor quer ler ao longo dos próximos 12 meses. Só que, quando a meta se prende apenas pelo número, pela quantidade, há qualquer coisa que é deixada para trás. É possível ler 100 livros num ano? Quer dizer, efetivamente lê-los? E que regime competitivo é criado sob este pressuposto da quantia como sucesso? Parece haver uma apologia do volume, só que, nas palavras de Byung-Chul Han, “os dados e a informação não seduzem”. Ainda assim, compactuamos com estes sistemas distorcidos que nos viciam na satisfação de completar uma lista, de registar um livro na estante dos lidos. Lemos não para ler, mas para ter lido.

Tolentino de Mendonça, em O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, concebe uma janela como “uma espécie de passagem para o olhar”. Penso que se a mesma definição fosse atribuída ao livro continuaria a ser verdadeira. Uma capa de um romance é exatamente esse ponto de acesso, essa “soleira próxima para o infinito. Uma janela debruça-nos sobre espanto. Quando abrimos uma janela, ela abre-se sobre o quê?". Quando abrimos um livro, ele abre-se sobre o quê? Abre-se, primeiramente, sobre o tempo. O longo formato, neste caso, o literário, constitui a possibilidade de suspensão: o universo contido dentro de um conjunto de páginas é paralelo ao nosso, existe indiferente às nossas noções de horas e espaço. O compromisso da leitura é o que leva a um momento alheio que persiste mesmo na ausência de um interlocutor. Ler Os Anos, de Annie Ernaux, é encontrar uma multiplicidade de instantes e sensações em que a autora nos permite tomar parte. É compreender como uma fotografia desdobrada em palavras se torna tão mais vasta; como é possível, de uma lembrança, criar mundo. Já Carta ao Pai, de Franz Kafka, é uma prova não só do poder terapêutico da literatura, mas também da sua completude. Oposta à fragmentação do digital, esta obra exemplifica como um texto pode ser inteiro e como uma mágoa é extensa e complexa, irredutível a uns quantos segundos. O mesmo exercício pode ser feito em relação à sétima arte, encontrando os pequenos sinais de luta contra a simplificação do digital. Numa altura em que vídeos se querem curtos e acessíveis, no cinema, a tendência tem vindo a ser contrariada, como pelo português Tiago Guedes. Em maio deste ano, estreou no Festival de Cinema de Cannes Aquí, filme com mais de 200 minutos, que adapta a Trilogia de Jesus, do Nobel da Literatura J.M. Coetzee — e não será essa a audácia? Resumir três grandes obras premiadas em menos de três horas e meia? Igualmente longos são O Brutalista e Assassinos da Lua das Flores, dois filmes que, apesar da extensão, conquistaram a atenção dos espectadores em salas de cinema.

Ainda existe algum apetite pelo demorado. Ele só precisa — ao contrário dos algoritmos que nos impingem e servem de mão beijada — de ser procurado.

Ainda existe algum apetite pelo demorado. Ele só precisa — ao contrário dos algoritmos que nos impingem e servem de mão beijada — de ser procurado. E um dos caminhos para lá chegar pode ser o do silêncio, segundo Tolentino de Mendonça, uma “disciplina do coração”; e, inevitavelmente, o da pausa. Diz o autor que “aprender a repousar verdadeiramente é libertar-se do imediatismo”, embora o descanso fi que frequentemente esquecido, soterrado por baixo de inúmeras outras prioridades. Regressando a Carla Louro, num poema em que pensa a rotina quotidiana, escreve “raramente me lembro raramente escrevo”. É necessário criar o momento de ler, em vez de esperar que ele queira aparecer. Criar um silêncio e dar tréguas à rapidez. Nesse instante, conseguiremos compreender o quanto precisamos dele. Ou, citando Samantha Harvey em Orbital, “O que poderemos fazer na nossa solidão abandonada senão olhar para nós próprios? Examinarmo-nos em assomos intermináveis de distração fascinada, apaixonarmo-nos por nós próprios, odiarmo-nos a nós próprios, fazer de nos próprios um teatro, um mito e um culto. Que mais podemos fazer?”. Saramago, antes de nos falar da cegueira dos homens, aconselhou: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.". Renunciámos ao poder da atenção e deixámos de reparar, tão-pouco vemos. Fazemos uso da visão apenas para fitar. Os olhos fixam-se na área de ação e escusam de voltar a mexer. Não precisam. A ponta do dedo em uníssono com o ecrã, como se de um só organismo se tratasse, fazem o trabalho todo. Fizemo-nos de livre vontade cegos e surdos. É hora de ver. É hora de reparar.

Joana Rodrigues Stumpo

Joana Rodrigues Stumpo é jornalista de cultura. Atualmente, trabalha em televisão na RTP e escreve sobre literatura, música, cinema e artes para meios nacionais e internacionais. Os seus textos têm passado por publicações como o Observador, a Comunidade Cultura e Arte, a plataforma Bandcamp Daily e a revista Dazed.


Artigo publicado na edição de verão de 2026 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas livrarias.

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