Patrícia Reis: “Haverá muita coisa para publicar” de Maria Teresa Horta, assegura a biógrafa

Por: Maria João Costa a 2025-07-08

Patrícia Reis

Patrícia Reis

Patrícia Reis nasceu em Lisboa, em 1970. Estudou História e é mestre em Ciências da Religião. Começou a sua carreira no semanário O Independente, tendo trabalhado posteriormente no Expresso, Público, Marie Claire, Elle, RDP e RTP. É autora de vários romances e de alguns volumes infantojuvenis, tendo a coleção O Diário do Micas o selo do Plano Nacional de Leitura. É editora e curadora da multipremiada revista Egoísta e coapresentadora do podcast Um Género de Conversa. Escreveu biografias de Vasco Santana, de Maria Antónia Palla (em coautoria com esta jornalista), de Simone de Oliveira e de Maria Teresa Horta, livro publicado pela Contraponto que mereceu o selo Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos 2024. No início de 2026, regressou ao romance com O Lugar da Incerteza.

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Foram sempre "conversas" e não entrevistas as que Patrícia Reis manteve com a poetisa Maria Teresa Horta e que resultaram na biografia A Desobediente (Ed. Contraponto) com que venceu o Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos.

O galardão foi entregue na Feira do Livro de Lisboa, onde decorreu esta entrevista em que a escritora confessa que "nunca poderia escrever tudo" o que Maria Teresa Horta lhe contou. Olho para uma biografia como um olhar pela fechadura. É um ângulo", aponta Patrícia Reis, que recorda o momento em que Maria Teresa Horta quis desistir da biografia. "Para ela, também não foi fácil", explica Patrícia Reis sobre esta viagem à memória de uma escritora que diz, nas suas palavras, uma "revolução na poesia" portuguesa. A Maria Teresa Horta, falecida em fevereiro deste ano, diz Patrícia Reis, as "mulheres escritoras" têm uma "dívida de gratidão imensa". "Colecionadora de palavras", a poetisa, para quem a "escrita foi salvadora", nunca deixou que "ninguém" lhe metesse "a mão em cima", dona de uma liberdade alimentada pela "raiva".


Este livro, vencedor do Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos, é um corredor de fundo, tem vindo a conquistar leitores. É um livro sobre uma vida, mas que tem muitas outras vidas dentro dele. Diz que era impossível ser imparcial nesta biografia. Como jornalista, como é que resolveu essa questão, e, pergunto como foi ser biógrafa, mas também amiga e confidente?

Obrigada a todos, obrigada à Bertrand e, sobretudo, obrigada aos livreiros. Os livreiros são fundamentais. Tudo isto para mim é muito comovente e muito inesperado. Fico muito contente e tenho a certeza de que a Teresa, que morreu em fevereiro deste ano, ficaria felicíssima com este prémio, porque era uma pessoa muito especial para mim. Não se pode dizer que a Teresa fosse uma pessoa fácil, e o grande exercício de equilíbrio era saber como é que eu conseguia contar a história da Teresa sem ela se zangar comigo, mantendo o meu papel como jornalista, como escritora, como amiga dela, e sabendo qual era a fronteira que poderia, ou não, atravessar.


A Maria Teresa Horta entregou-se a este livro?

A Teresa não leu o livro antes de ser publicado, o que é um gesto de uma imensa generosidade da parte dela. E sei que ela estava contente com o livro, porque a Teresa tinha o hábito de pôr as coisas que lhe eram mais queridas ao seu lado no sofá, e o livro aí esteve. Ela teve essa alegria, e eu tive a alegria de saber que ela estava contente. Ela nunca escreveria a sua biografia desta maneira. Nós escrevemos de maneiras muito diferentes, e a biografia sofreu muitos altos e baixos, até porque houve uma pandemia pelo meio.


Foram muitos anos de conversas?

Foram muitos anos de conversas.


Não foram entrevistas?

Não foram entrevistas. Foram conversas entre duas amigas. Depois, havia todo o trabalho de pesquisa. Tentar ser a Patrícia escritora, a Patrícia jornalista, a Patrícia amiga, às vezes, era um pouco desesperante. Há pessoas que levaram com as minhas angústias, uma delas é a minha mãe, a outra é o meu filho mais novo, o Henrique, e a outra é a Madalena Mota. A Madalena e o Henrique ajudaram-me muito na pesquisa para o livro. São dois jovens, e isso deu-me um contentamento enorme ao verificar que dois miúdos conseguem aderir às coisas da Teresa com tanta facilidade. Foi incrível.


Mas foi para si uma missão, ou seja, já sabia o desafiante que seria a Maria Teresa Horta. Conhecia a sua obra, mas havia sombras, lugares desconhecidos? Houve muita coisa nessas conversas que não está nesta biografia?

É muito engraçado porque a maioria das pessoas acha sempre que deixei o melhor de lado. Eu deixei o melhor de lado. Não escrevi tudo, nunca poderia escrever tudo, como é evidente, eu era amiga dela. Olho para uma biografia como um olhar pela fechadura. É um ângulo. Não dá para a vida inteira, e há que manter a privacidade e a intimidade. Eu tive mesmo muito cuidado com isso, mas é evidente que há muita coisa que ficou de fora, até porque a Teresa tem uma vida muito extensa como poetisa, como escritora, como jornalista, como ativista do feminismo. É preciso não esquecer esse lado da Teresa, e, portanto, era um bocadinho difícil.


O que mais a surpreendeu neste processo, além da generosidade dela ao se entregar a ser biografada?

Tenho e confidenciar que a determinada altura ela disse: "eu acho que não quero fazer isto", e tivemos ali uns meses. O meu filho Henrique dizia-me: "não te preocupes, isto é o planeta Teresa. Dá uma rotação e ela volta". E, de facto, passado um mês e meio, dois, disse-me: "Então, quando é que retomamos as nossas conversas?" Para ela, também não foi fácil em algumas coisas. Ela estava muito confortável em falar da infância, juventude e da primeira idade adulta. Típico de uma pessoa com a idade dela, claro! Mas tinha menos interesse em falar de outras coisas.


Por exemplo?

Tinha menos interesse em falar de algumas polémicas que gerou, como não receber o Prémio D. Dinis das mãos do então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, ou de recusar o Prémio Oceanos. Tudo isto, para ela, era um fait-diver, e já não queria falar do assunto. O que mais me surpreendeu foi, se eu percebesse a Terezinha, percebia a Teresa, o vulcão que era a Teresa, a revolta da Teresa, o sentimento de traição, de abandono, e aquela dor, porque a Teresa era carente e dizia que era carente.
 

Olho para uma biografia como um olhar pela fechadura. É um ângulo. Não dá para a vida inteira, e há que manter a privacidade e a intimidade.


Isso está tudo, e percebemos nesta biografia, na marca da infância. São determinantes os primeiros anos de vida dela? Acabam por ser condicionantes daquilo que ela foi, para o bom e para o mau sentido?

Foi uma infância muito difícil, muito dura. Os episódios da infância da Teresa são tão duros emocionalmente, tão difíceis, que uma pessoa, às vezes, pensa, "isto é matéria para um romance, isto não vai ser verosímil!"


Pode dar algum exemplo?

A biografia começa com o episódio em que a mãe, com uma depressão pós-parto, a pendura pela janela por uma perninha. Eu não tenho ninguém para corroborar esta história. Ela tinha 4 para 5 anos. Não sei o que é que ela construiu e mitificou, mas tinha de tomar uma decisão. Ou aceitava a verdade da Teresa, relativamente à memória que tinha da sua infância, construída ou não — e a Teresa era uma poetisa e uma ficcionista, portanto, a construção e a invenção fazem parte da sua geografia natural —, ou aceitava isso, ou, então, ia pôr tudo em causa.

Era muito difícil. E a história é muito pesada, porque é uma menina que, aos 9 anos, a mãe abandona a casa de família, deixando as filhas para trás, porque há outro homem. E estamos a falar dos anos 1940, em Lisboa.

A Carlota de Mascarenhas fazia parte de uma família aristocrata. É preciso não esquecer que a penta-avó da Maria Teresa Horta era a Marquesa de Alorna, Leonor de Almeida. Daí para a frente, tudo lhe acontece. A avó, que era o seu grande refúgio, morre de mão dada com ela. O pai fica num grande despeito e numa grande desilusão.

Ela tinha 9 anos e as pessoas dizem-lhe "tu vais ser igual à tua mãe. Tu vais ter muitos amantes!". Isto é impensável dizer-se a uma criança com 9 anos! E, portanto, o que a Teresa fez foi, em vez de se rebelar e se amotinar contra a mãe, fez o processo exatamente contrário.


Protegeu a mãe?

Protegeu a mãe. Chamou a mãe para si. Eu acho que este é o início do seu feminismo. É aqui que ela diz: "A minha mãe tem tanto direito, como qualquer homem, de fazer o que entender. De ir à praia e tomar banho de biquíni, de ter um homem, ter dois, ter três, o que ela quiser".

Claro que, aos 9 anos, não era feminismo. Ela demorou algum tempo a chegar a esta palavra. Mas acho que isto tudo foi fundamental. Mas, na verdade, quem conhece bem a obra da Teresa sabe que a vida dela está lá toda. Ela escreveu sempre sobre a vida dela.


Foi ela quem fez a sua "biografia", através da sua obra poética e ficcional? Cita a Inês Pedrosa no livro que disse que "a escrita da Maria Teresa Horta é um curso intensivo de liberdade". Porquê?

A Inês tem toda a razão. A palavra mais importante na vida da Teresa é liberdade. E a Teresa percebeu isso muito cedo. Percebeu também que seria uma pessoa diferenciada, se apostasse nessa ideia de fazer o que entendesse.


Quando a liberdade não era ainda evidente.

Sim, porque a Teresa nasceu em 1937 e, portanto, é nos anos 40 que a mãe sai de casa. É nos anos 40 que ela percebe que tem de se livrar de uma série de amarras e tem de reconstruir toda a sua solidez emocional nela própria, porque não tem ninguém. E este sentimento é um sentimento que ela leva a vida inteira.


Apesar de ter os seus amores e o seu filho, sente-se só?

Apesar de ter os seus amores. Ela tem uma paixão imensa pelo marido, o Luís de Barros, que foi o seu "muso", digamos assim. Mas, de facto, ela é um curso intensivo de liberdade, porque, para ela, nada era impossível. Havia uma perceção limitada daquilo que era possível. 


Esse é um lastro para uma geração de escritoras como a sua ou da Francisca Gama? Essa liberdade é uma herança que ela deixou a todas as mulheres escritoras? 

Acho que nós temos todas, como mulheres escritoras, uma dívida de gratidão imensa à Teresa. Para já, porque ela nos devolveu o corpo feminino. Só isso, é uma dádiva imensa. Mas também temos, como mulheres jornalistas, uma dívida enorme a uma mulher como a Maria Teresa Horta, que foi pioneira no jornalismo. É preciso não esquecer que as mulheres entraram nas redações dos jornais só na década de 1960. Ela começou a escrever para o República tinha 18 anos. E foi chefe de redação da revista mais importante, logo a seguir ao 25 de Abril, a revista Mulheres, propriedade da editora Caminho. Aí, ela procurou realmente dar voz a todas as mulheres.


Cruzou-se com ela nas redações?

Cruzei-me com ela na Marie Claire. A Inês [Pedrosa] era a diretora da Marie Claire e eu tinha muito medo dela.


Da Inês ou da Maria Teresa?

Das duas! Não, estou a brincar. A Inês é a minha melhor amiga. Comparada com a Maria Teresa, a Inês é um anjo! (risos) É um anjo de liberdade, mas é um anjo. Eu gosto de mulheres fortes! Eu gosto de mulheres livres e, portanto, obviamente, ambas se inserem nisto, mas eu também conhecia a Natália Correia, também morria de medo da Natália Correia e também era uma mulher livre! Era também um curso intensivo de liberdade. Acho que nós devemos muito a estas mulheres. Aliás, é à Natália Correia devemos a publicação das Novas Cartas Portuguesas. Devemos a publicação das Novas Cartas Portuguesas, devemos a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, devemos tanto à Natália! Devemos-lhe várias intervenções no Parlamento numa altura em que, se calhar, estávamos, talvez, de uma maneira diferente, a precisar da mesma liberdade de que precisamos agora. Uma Natália fazia-nos muito jeito, agora!
 

A palavra mais importante na vida da Teresa é liberdade. E a Teresa percebeu isso muito cedo. Percebeu também que seria uma pessoa diferenciada se apostasse nessa ideia de fazer o que entendesse.


Imagino que já lhe tenham feito esta pergunta muitas vezes, depois de publicar A Desobediente. As Novas Cartas Portuguesas continuam envoltas em grande segredo, sobre quem é que escreveu o quê. Isso é hoje importante?

Passaram-se 50 anos. Já não interessa, elas já cá não estão. Há exercícios engraçados de se fazer. Quando se conhece muito bem a escrita de outra pessoa, pode olhar-se para algumas cartas e dizer: "isto é claramente a Teresa".

Mas, é uma coisa empírica. Não há aqui nenhuma ciência, não há nenhuma prova. Elas fizeram este pacto e eu acho que nós temos de respeitar o pacto. Também fizeram o pacto para se protegerem. Ao dizer, nós escrevemos tudo e somos responsáveis por tudo, é para se protegerem. E elas tinham noção que era preciso essa proteção. Tanto que a Maria Velho da Costa e a Maria Isabel Barreno, na Polícia Judiciária, são ambas confrontadas com esta ideia. "Se vocês disserem que as piores cartas foram escritas pela Maria Teresa, está tudo bem." Porque a Maria Teresa é que era a rebelde. A Maria Teresa já tinha tido peças de teatro e livros censurados. A Maria Teresa já tinha levado um enxerto de pancada na rua. Aliás, é por causa dessa pancadaria que se escrevem as Novas Cartas Portuguesas. Portanto, nesse sentido, eu acho que hoje já não interessa. Agora, é um livro fundamental, e é, porventura, um dos maiores livros, se não mesmo o maior livro da literatura portuguesa do século XX. Isso é inegável. Mas, mais uma vez, na sua vida, a Maria Teresa Horta sente-se abandonada quando vai a tribunal. Ou seja, o sentimento da infância, de abandono está sempre presente? É um sentimento que ela tem a vida inteira. Está sempre a batalhar, está sempre contra a maré. É sempre algo que lhe é devido e que está em falta. Verdadeiramente, é evidente que há muita coisa que esteve em falta na vida da Teresa. Só para começar, esta ideia: os dois são da mesma geração, Manuel Alegre e Maria Teresa Horta. Manuel Alegre tem palmarés, prémios, homenagens, menções honrosas, essas coisas todas. A Teresa não, porque é mulher, porque é chata, porque não se cala, tem sentido de liberdade, porque tem memória e porque diz que as mulheres podem, seja lá o que for.


Foi sempre A Desobediente, no fundo?

Foi sempre a desobediente, sim.


Há pouco dizia que gosta de mulheres fortes. Este título é bastante forte. Foi evidente desde o início?

Eu comecei a escrever já com o título. Não podia ser outro. Não havia outro. Insubmissa também daria, mas A Desobediente é mais a Teresa.


Falou já de a vida da Maria Teresa Horta estar na obra. Queria olhar para a poesia, em particular. De que forma é que ela se expõe na poesia?

A Isabel do Carmo diz uma coisa que acho muito interessante, que é: "nós devemos à Teresa a inteireza do corpo feminino na poesia portuguesa". Porque, até lá, as mulheres existiam até à cintura. Eram os seios. O resto já não interessava nada. E a Teresa devolve-nos isso, e um sentido de desejo, de paridade no desejo. Devolve-nos o corpo inteiro. Estamos a falar dos anos 1960, quando ela faz esta ousadia de dizer as palavras como elas são. Não fazer rodriguinhos. É uma revolução na poesia. É uma revolução contida por um regime que censura a obra, obviamente. Minha Senhora de Mim é imediatamente retirado. É dito à Snu Abecassis, que era a dona das publicações de Dom Quixote, que publicou o livro, que, se publicasse qualquer coisa da Maria Teresa — poderia ser a história da Carochinha —, iriam tirar o livro de circulação. Ela estava marcada, e isso também se percebe na ficha da PIDE e no tipo de perseguição. Só que isso só lhe deu mais força. Porque ela, como todas as mulheres fortes de quem eu gosto, alimentava-se da raiva.


Manteve sempre a cabeça à tona d'água?

Em apneia, às vezes (risos). Mas, sim! Pelo menos, tinha a consciência de que ninguém lhe iria meter a mão em cima.


Diz na biografia que escrever para a Maria Teresa Horta era uma "ferramenta de sobrevivência". Foi em alguns momentos determinante para ela conseguir seguir com a vida, quando a vida amorosa, por exemplo, só a fazia tropeçar?

Eu acho que a escrita foi salvadora para a Teresa desde sempre, porque era um espaço só dela. E porque ela era uma colecionadora de palavras. Começou por colecionar palavras quando era pequenina. As palavras fascinavam-na. Ela encontrou nas palavras um escape, por um lado, mas também uma resolução.


Eram uma forma de incomodar os outros, e de os provocar, porque a Teresa era provocadora, mas também desafiar-se no sentido de dizer até onde é que eu posso ir? Até onde é que eu exponho os meus sentimentos?

Há muitas coisas na escrita da Teresa que me lembram a crueza e, às vezes, até a maldade, da Marguerite Duras relativamente a ela própria e aos outros. A Teresa também tem isso. Acho que, quando o Luís de Barros morreu, em novembro de 2019, antes da pandemia, inesperadamente, no velório, a Teresa disse à editora, à Cecília Andrade: "eu vou escrever um livro e o livro vai se chamar Paixão". E, portanto, naquele momento de profundo sentimento de sofrimento, o que ela faz é dizer: "eu vou escrever um livro".


A escrita ia salvá-la. A escrita era uma coisa constante. Foi até aos últimos dias? Haverá ainda muita coisa para publicar?

Haverá muita coisa para publicar. Não sei o que é que a família vai decidir fazer. Posso dizer que a Biblioteca Galveias, que era um espaço que ela adorava e onde passou muitos dias, vai ter uma sala Maria Teresa Horta. É uma coisa que me dá um grande contentamento. É evidente que a obra da Teresa tem de ser estudada e é evidente que a família tem decisões a tomar. É tudo muito cedo. A Teresa morreu a 4 de fevereiro deste ano. Portanto, temos de ir devagarinho.


Depois da morte da Teresa, já foi diversas vezes entrevistada por causa desta biografia. Há um lado de missão de perpetuar a memória dela além desta biografia?

Quer que seja completamente sincera? Vou fazer à Teresa! Por um lado, devo muito à Teresa, como é óbvio, senão não estaria aqui. E eu amava a Teresa, amo a Teresa! Por outro, eu espero um dia livrar-me da Teresa. Desculpem dizer isto assim, mas há um momento em que eu vou ter de fazer outra coisa na vida. Porque sou uma escritora, por um lado, porque, por outro, sou uma jornalista e porque há outras coisas para fazer na vida. Acho que a Teresa é uma bandeira que eu carrego. Mas não sou só eu. Há outras mulheres que a carregam também. É uma bandeira muito boa de carregar.


E neste contexto político atual, precisávamos de muitas bandeiras dessas?

É preciso carregar a bandeira das mulheres. Várias bandeiras! E, sim, eu vou continuar a falar da Teresa. Até porque incomoda muita gente neste momento falar da Teresa. Portanto, quanto mais se falar dela, melhor. Tudo isto começou por causa de um mestrado que fiz sobre a Teresa. E, agora, estou a fazer um doutoramento sobre a Teresa. Portanto, não me vou livrar da Teresa! Vou continuar.


A Desobediente é um livro que conta também a vida de um país. Uma geração mais nova que leia esta biografia fica com um retrato daquilo que já fomos e dos lugares onde não queremos voltar. Em que medida isso é importante?

Acho que é muito importante, porque a História é muito importante. Porque nós, para percebermos para onde é que queremos ir, temos de saber de onde é que chegámos. Onde estivemos? O que vivemos? O que nos deixaram fazer? O que conquistámos? E, nesse sentido, a História deste país é fundamental para as novas gerações.


Tem tido jovens leitores?

Tenho tido muitos jovens leitores, rapazes e raparigas, homens e mulheres. E isso é muito comovente. Porque a Teresa tinha muitas leitoras mulheres. De uma grande fidelidade. Mas a biografia tem muitos leitores homens e novos. As pessoas, às vezes, chegam ao pé de mim e dizem assim: "eu não sabia que nós não podíamos sair do país sem a autorização do pai ou do marido" ou "eu não sabia que nós só votámos muito tarde", ou ainda "não sabia que não podíamos ter conta bancária", ou "não podia ser juiz", ou que "se fosse enfermeira ou professora, não podia casar". "eu não sabia de nada disto!", dizem-me. É importante olhar para a História. E, portanto, a moldura da História é também a moldura do caminho da Teresa e da sua singularidade.
 

As mulheres fortes de quem eu gosto têm todas um grande sentido de humor.


É essa consciência?

É ter a consciência de ser tão fora da norma e de que é preciso ir por aquele caminho, porque aquele caminho é melhor para nós.


Mas quem era a pessoa que encontrava quando chegava lá a casa para estas conversas? Quem era a pessoa a quem telefonava diariamente?

É sempre a Teresinha. Nos últimos anos, foi sempre a Teresinha. Já não era a Maria Teresa, não era a Teresa, era a Teresinha.


Com esta biografia, quer dar novos leitores à obra da Maria Teresa Horta?

Esse é o objetivo. Leiam a Teresa! Mantenham a obra da Teresa viva. Os escritores morrem e nós precisamos de manter as obras vivas. Mas não é só a Teresa. Leiam Nuno Júdice. Leiam os poetas e os escritores que se foram embora. Leiam-nos, por amor de Deus, não os deixem morrer! Cada vez que alguém pega num livro de alguém que já cá não está, é uma nova vida, um novo fogo. E essa é a essência da grande literatura. É deixar um recado, um incómodo, como diria a Agustina. Leiam a Agustina. 


Outra figura. 

Outra mulher grande. Não muito alta, mas gigante. E com sentido de liberdade e de humor. As mulheres fortes de quem eu gosto têm todas um grande sentido de humor. A Teresa também tinha esse sentido de humor.

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