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Temos vivido tempos estranhos. Tão estranhos que algumas palavras ganham novos sentidos. Cancelado. Suspenso. Adiado. Anulado. São algumas das palavras que nos habituamos a ver às portas dos teatros, dos cinemas, dos museus e das salas de espetáculos. Enquanto as bibliotecas, as livrarias e outros espaços de socialização exibiam expressões como: Fechado por imposição legal. Voltamos em breve. Estamos online.Há palavras fortes, amargas, delicadas, e palavras que, em tempos incertos, vemos começarem a enfraquecer, mas das quais não devemos desistir. Cultura é uma delas. Diz quem somos, nós e o nosso país, ensina-nos a ser. Na estranheza dos dias, na suspensão da liberdade, sobra sempre a leitura.
"Uma Ida ao Motel e outras histórias", de Bruno Vieira Amaral, uma coletânea dos contos anteriormente publicados no Expresso Diário, é para gente grande. Aponta-nos a vida com um letreiro néon onde algumas letras teimam em não acender. Acabou de valer ao autor o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, no valor pecuniário de 7500 euros, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).
“Quando éramos novas, Rosa e eu estávamos a meio da loja, ao lado da mesa das revistas, e conseguíamos ver mais de metade da montra.” É na monotonia de um dia comum que tem início Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro. Klara e Rosa são Amigas Artificiais (AA), androides situados algures entre o boneco e o robô, concebidos com o objetivo de acompanhar o dia-a-dia de uma criança. A narrativa parece-nos familiar, relembrando Nunca Me Deixes (2019), em que a protagonista é um clone destinado a doar os seus órgãos até morrer, e Os Despojos do Dia (2017), uma narrativa sobre um mordomo que pondera sobre a sua vida ao serviço de um lorde. A partir do olhar desses protagonistas, percebemos que as diferenças entre a nossa realidade e a ficção de Ishiguro não são mais do que ímanes que se atraem um ao outro.
Julia Powers dirige-se para o hospital de Dublin sem máscara. Já havia sido vencida pela gripe, meses antes, tal como muitos dos seus colegas enfermeiros, acabando por sobreviver a essa praga de vários nomes. Grande gripe, gripe caqui, gripe azul, gripe negra ou, simplesmente, a doença. Outros chamam-lhe também a doença da guerra, associando-a a uma maldição oriunda das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a retribuição de algo superior, após quatro anos de matança.
Patrícia Campos Mello é jornalista no Folha de S. Paulo. Visitou a Síria, o Iraque, a Líbia e o Quénia. Foi a única jornalista brasileira a cobrir a epidemia do vírus ébola na Serra Leoa. Recebeu vários prémios, entre eles o Prémio Internacional de Liberdade de Imprensa e o Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha. Em 2018, publicou uma reportagem sobre a utilização do WhatsApp como forma de disseminar notícias falsas e controlar o resultado das eleições. Em troca, foi rotulada de “vagabunda sem vergonha” e “jornalistinha comunista”. Ao procurar a verdade, iniciou uma guerra aberta contra a corrupção e a manipulação no Brasil.
Vivemos tempos estranhos. Temos a sensação que a História se repete e que estamos a passar por algo a que os nossos antepassados (sobre)viveram. Hoje, muitos são os que se agarram à literatura como forma de enfrentar a atualidade. Não apenas pela companhia que um livro nos faz, numa vida confinada, mas também porque recordamos, com a ajuda da ficção, que não estamos sozinhos. E que podia ser muito, muito pior.
Nas entrelinhas do novo romance de José Luís Peixoto, provamos o Alentejo. As páginas têm jeito de fumeiro, cada linha semelhante ao varão onde se apresentam as farinheiras, os chouriços, as morcelas, os paios e as paiolas. Almoço de Domingo é uma biografia a pedir para ser saboreada, um romance escrito com o paladar entre a língua. É a história do menino que levou as fêveras do porco, morto no dia anterior, até à casa do doutor. Do homem que sonhou “fazer uma casa como é devido”, e que acabou a construir um império com gosto a torrões de café. A história de um marido, pai, avô e bisavô, chefe de família e empresário, que não desistiu de si mesmo nem da terra onde nasceu.
As probabilidades de se interessar por este artigo até ao fim aumentariam se o disponibilizássemos em versão áudio — apesar de não prometermos a voz melodiosa de Morgan Freeman ou de Bob Ross. Pelo seu formato e flexibilidade, os podcasts são a opção ideal para quem gosta de se manter informado e, de preferência, se prefere fazê-lo enquanto desempenha outras tarefas. De entre a imensa oferta que o mercado já apresenta, fomos descobrir alguns podcasts, com selo português, que alimentam, alto e em bom som, o amor pela literatura e espicaçam a descoberta de novos autores e livros. Ouça com atenção e prepare a sua lista.
Não foi apenas em Ravka que Alina Starkov prometeu dissipar a escuridão. Se também ficou rendido(a) à imaginação de Leigh Bardugo, descubra estas sugestões que o vão fazer esquecer, ainda que por breves momentos, o quotidiano banal em que vivemos
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