Temos vivido tempos estranhos. Tão estranhos que algumas palavras ganham novos sentidos. Cancelado. Suspenso. Adiado. Anulado. São algumas das palavras que nos habituamos a ver às portas dos teatros, dos cinemas, dos museus e das salas de espetáculos. Enquanto as bibliotecas, as livrarias e outros espaços de socialização exibiam expressões como: Fechado por imposição legal. Voltamos em breve. Estamos online.
Há palavras fortes, amargas, delicadas, e palavras que, em tempos incertos, vemos começarem a enfraquecer, mas das quais não devemos desistir. Cultura é uma delas. Diz quem somos, nós e o nosso país, ensina-nos a ser. Na estranheza dos dias, na suspensão da liberdade, sobra sempre a leitura.
Cultura: Tudo o Que é Preciso Saber, de Dietrich Schwanitz, é um livro para aqueles que têm uma relação próxima com a cultura e que pensam que o conhecimento espartilhado não ajuda o Homem a conhecer-se melhor. É um convite a viajar pelas raízes da cultura ocidental: o Antigo e o Novo Testamento, a epopeia da modernização, as revoluções e a democracia — que influenciaram a Literatura, a Arte, a Música, através das suas obras maiores — e ainda os grandes filósofos, ideólogos, teorias e representações científicas do mundo. Um elogio aos livros, uma vez que “a cultura continua a depender dos livros ou, no mínimo, dos textos que lemos”.
Quando falamos de cultura, falamos de Homero. Ler a Ilíada, uma das obras fundamentais da cultura ocidental, é conhecer deuses e heróis, mas não só. É compreender a condição humana e as suas contradições, é refletir sobre o livre-arbítrio e pensar o Homem na sua esfera mais íntima e universal.
O poema épico de Homero, ao longo dos seus vinte quatro cantos, ensina-nos que a civilização encontra a sua razão de ser na diversidade.
"A cultura continua a depender dos livros ou, no mínimo, dos textos que lemos." — Dietrich Schwanitz
Jay Mendelsohn, aos 81 anos, decide inscrever-se no seminário para estudantes pré-universitários sobre a Odisseia que o seu filho Daniel leciona na Bard College. É neste momento que se inicia uma viagem profundamente emotiva que o levará às raízes da literatura ocidental e às raízes da sua própria vida. Uma Odisseia, Um Pai, Um Filho e Uma Epopeia é simultaneamente um livro de viagens e de memórias. Uma viagem através da vida. A procura de sentido, a construção de uma identidade serão dissociáveis da cultura?
Cervantes é um grande nome da cultura espanhola e, simultaneamente, da literatura ocidental. Salman Rushdie inspira-se em Dom Quixote, a grande obra de Cervantes, e escreve Quichotte, a autobiografia ficcionada de um escritor exilado, que narra as suas aventuras e desventuras num mundo em que a vida real é menos real do que a televisão. Numa escrita satírica, Salman Rushdie reflete sobre a cultura de massas, uma marca do seu tempo, e sobre um país à beira do colapso moral e espiritual.
Viajar também é cultura. Viajamos para entender o mundo que nos rodeia, para fomentar empatias e sensações inesquecíveis.
“O mundo, dizem, é um livro, E um livro também pode conter o mundo.” — afirmou Afonso Cruz na sua obra Jalan Jalan, onde cada página, cada pensamento, é uma descoberta de modos de ser e de estar diferentes, de lugares distintos, habitados ou desérticos, mas ricos em diversidade, complexidade, desordem e simplicidade.
As Mil e Uma Noites são histórias de puro encantamento que possibilitam uma viagem à cultura árabe através de aventuras, erotismo e magia. Xerazade casa com o rei Xariar, sabendo que o seu destino seria morrer após a noite nupcial; nessa noite, a pedido da irmã Dinarzade, que a acompanhava, contou uma história cujo final foi adiado para a noite seguinte. E assim sucessivamente, ao longo das noites, o final dos contos era adiado, como era adiado o destino fatal de Xerazade.
“O mundo, dizem, é um livro, E um livro também pode conter o mundo.” — Afonso Cruz
Por: Plano Nacional de Leitura
Artigo publicado na edição de abril de 2021 da revista Somos Livros. Disponível online ou em qualquer uma das nossas 58 livrarias.