"Klara e o Sol" | O que faz de nós seres humanos?

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2021-05-25 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasáqui, no Japão, em 1954, e vive na Grã-Bretanha desde os cinco anos. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 2017 e a sua obra está traduzida em mais de quarenta línguas. Entre as outras distinções que reconhecem o seu mérito literário contam-se o grau de Oficial da Ordem do Império Britânico e a condecoração francesa como Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres. A sua obra é editada em Portugal pela Gradiva tendo publicados os seguintes livros do autor: Os Despojos do Dia (1989, vencedor do Booker Prize; adaptado ao cinema); Os Inconsolados (1995, vencedor do Cheltenham Prize); Quando Éramos Órfãos (2000, nomeado para o Booker Prize); Nunca me Deixes (2005, nomeado para o Booker Prize, adaptado ao cinema); Nocturnos (2009, contos); O Gigante Enterrado (2015); Um Artista do Mundo Flutuante (2018).

VER +

10%

Klara e o Sol
17,50€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

Últimos artigos publicados

Na estranheza dos dias, na suspensão da liberdade, sobra sempre a leitura

Temos vivido tempos estranhos. Tão estranhos que algumas palavras ganham novos sentidos. Cancelado. Suspenso. Adiado. Anulado. São algumas das palavras que nos habituamos a ver às portas dos teatros, dos cinemas, dos museus e das salas de espetáculos. Enquanto as bibliotecas, as livrarias e outros espaços de socialização exibiam expressões como: Fechado por imposição legal. Voltamos em breve. Estamos online.Há palavras fortes, amargas, delicadas, e palavras que, em tempos incertos, vemos começarem a enfraquecer, mas das quais não devemos desistir. Cultura é uma delas. Diz quem somos, nós e o nosso país, ensina-nos a ser. Na estranheza dos dias, na suspensão da liberdade, sobra sempre a leitura.

"Uma ida ao motel e outras histórias" | Palavras adultas de engano e redenção

"Uma Ida ao Motel e outras histórias", de Bruno Vieira Amaral, uma coletânea dos contos anteriormente publicados no Expresso Diário, é para gente grande. Aponta-nos a vida com um letreiro néon onde algumas letras teimam em não acender. Acabou de valer ao autor o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, no valor pecuniário de 7500 euros, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

"A Dança das Estrelas" | Vita, Gloriosa Vita

Julia Powers dirige-se para o hospital de Dublin sem máscara. Já havia sido vencida pela gripe, meses antes, tal como muitos dos seus colegas enfermeiros, acabando por sobreviver a essa praga de vários nomes. Grande gripe, gripe caqui, gripe azul, gripe negra ou, simplesmente, a doença. Outros chamam-lhe também a doença da guerra, associando-a a uma maldição oriunda das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a retribuição de algo superior, após quatro anos de matança.

“Quando éramos novas, Rosa e eu estávamos a meio da loja, ao lado da mesa das revistas, e conseguíamos ver mais de metade da montra.” É na monotonia de um dia comum que tem início Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro. Klara e Rosa são Amigas Artificiais (AA), androides situados algures entre o boneco e o robô, concebidos com o objetivo de acompanhar o dia-a-dia de uma criança. A narrativa parece-nos familiar, relembrando Nunca Me Deixes (2019), em que a protagonista é um clone destinado a doar os seus órgãos até morrer, e Os Despojos do Dia (2017), uma narrativa sobre um mordomo que pondera sobre a sua vida ao serviço de um lorde. A partir do olhar desses protagonistas, percebemos que as diferenças entre a nossa realidade e a ficção de Ishiguro não são mais do que ímanes que se atraem um ao outro.


"Os dois taxistas lutavam como se a coisa mais importante fosse infligir o maior dano possível um ao outro. (...) Tentava sentir na minha própria mente a raiva que os taxistas tinham experimentado. Tentava imaginar eu e Rosa tão zangadas uma com a outra que começássemos a lutar daquela maneira, tentando realmente danificar os corpos uma da outra.”

 

Kazuo Ishiguro recorre a um olhar distanciado — essa desfamiliarização que se apodera da literatura para alienar a realidade em que vivemos — e reflete sobre as grandes questões que nos apoquentam enquanto humanos. Klara começa, desde muito nova, a estudar a emoção dos homens com uma curiosidade que a distingue de outros Amigos Artificiais. Ao ser escolhida para tomar conta de uma criança chamada Josie, Klara depressa se apercebe da crueldade da vida e dos mecanismos de defesa que se criam para evitar o sofrimento, ao mesmo tempo que aprende sobre a magnitude do amor.


A ficção científica — ou “literatura de ideias”, como foi apelidada pela autora Pamela Sargent — sempre procurou espelhar a realidade humana com a ajuda da tecnologia e da ciência. Mas, talvez, a forma mais poderosa de ficção científica seja a que se aventura no banal do quotidiano humano. No final do livro, percebemos que todos os AA estão sujeitos a um fim, à medida que as suas baterias vão expirando. Tal como um ser humano, também os androides têm uma data de validade, refletindo sobre a sua missão enquanto Amigos Artificiais, até chegar o seu fim. Klara não é exceção, focando-se especialmente em Josie e na sua família. Ishiguro termina, assim, mais uma obra com uma das suas muitas mensagens subliminares: onda a vida é efémera, o amor é infinito.

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?


O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.