Os livros que sou — Álvaro Cúria

Por: Raquel Fonseca a 2025-08-25

Álvaro Curia

Álvaro Curia

Filho de mãe brasileira e pai português, diz-se de nacionalidade atlântica com coração portuense. Autor, jornalista, professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorou-se em História, frequenta o mestrado em Português Língua Estrangeira, com forte componente opcional de estudos literários. Como jornalista, trabalhou na RTP, no JN e na Greenpeace, em Amesterdão. Cofundou, em 2019, o Literacidades, perfil dedicado à promoção de hábitos de leitura e divulgação literária. Tem publicado vários textos literários em manuais de escrita, crónicas, artigos de opinião e de índole científica. Publicou, na Manuscrito, em fevereiro de 2024, o romance Filhos da Chuva.

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Na Bertrand, somos livros — por isso, convidámos o Álvaro Cúria para uma conversa sobre os livros que fizeram dele o escritor e leitor que é. O autor de Os Filhos da Chuva partilhou connosco os seus hábitos de leitura, as influências literárias que moldaram a sua escrita e os livros que mais o marcaram.  Nas palavras de Afonso Cruz em Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, “nós somos feitos de histórias, não de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias.” Estas são as histórias de que é feito Álvaro Cúria. 
 

Lembra-se de qual foi o primeiro livro que despertou em si o amor pela leitura?

Os Cinco e a Ilha do Tesouro, de Enid Blyton, aos dez anos, fez-me sentir que podia viver momentos que não eram reais, mas que se tornavam muito vívidos. Sim, acho que foi a possibilidade dessa vividez, associada ao elemento emoção, pertença, que tanto me fascinou em miúdo nessa série de livros. Percebi que na leitura acedemos a espaços, a imaginação trabalha, e onde há imaginação há construção, que é, no fundo, a base de tudo: da interpretação, do conhecimento, da curiosidade. Lembro-me de ter ficado algo confuso, nessa altura, diria até angustiado, porque depois a realidade não correspondia àquele ambiente que eu encontrava nos livros, como se a realidade fosse um negativo da exuberância dos livros, mais opaca. E daí em diante percebi que só acederia a esse espaço de cor, de construção, através da arte e da literatura em particular.

 

E pela escrita? Houve algum livro ou autor que o tenha influenciado a dar os primeiros passos como escritor?

Por volta dessa idade escrevi os meus primeiros textos, lembro-me de um conto, em particular, em que queria fazer alguma justiça à figura de Constança, mulher legítima de Pedro, traída por ele e por Inês. A vontade de escrever partiu sobretudo de vontades imperativas que eu fui tendo. No caso da Constança, fazer justiça, depois mais tarde, extravasar algumas emoções que não podia, à altura, expressar de outra forma, registar memórias, transformar eventos, dar vida a pessoas e a histórias que imaginava. Ah, escrevi um policial, por volta dos doze, onde uma equipa de antropólogos ia ao Burundi e aí acontecia um crime. Porquê o Burundi, porquê antropólogos… não faço ideia. Mas essa vontade de escrever um policial, que nunca mais senti na vida, partiu com certeza das leituras obsessivas que fazia dos livros de Agatha Christie.

 

Qual o livro ao qual volta sempre, aquele que levaria consigo para uma ilha deserta?

Volto sempre a Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto, mas não o levaria para uma ilha deserta… Volto a esse romance porque é de uma intemporalidade quase vidente. Ler aquela invasão hoje, à luz dos tempos bárbaros que vivemos… estávamos tranquilos, achávamos que a vida ia sempre melhorar, no sentido de nos respeitarmos cada vez mais, e de repente, nos últimos anos, entram-nos invasores monstruosos nas nossas vidas, que só querem o nosso mal, o retrocesso, a barbárie. Além disso, é de uma construção lírica quase impossível, vai a um lugar de despojo esdrúxulo. Mas levaria antes para uma ilha deserta o livro que estou a ler, Dom Quixote de La Mancha. Primeiro porque é enorme, depois porque é divertido e porque a cada capítulo paro e penso na imensa humanidade que há nele. Estamos todos lá. 

 

Um livro que o fez rir, e outro que o levou às lágrimas?

Ri-me muito com Less, de Adrew Sean Greer e mais recentemente com Anarquistas, graças a Deus, de Zélia Gattai. O primeiro porque a personagem principal é muito desastrada e tem um humor muito ácido. O segundo porque me fez lembrar muito o lado ítalo-brasileiro da minha família. É impressionante como há uma italianidade que perpassa incólume pelas gerações. Levar às lágrimas no sentido da tristeza não acontece há muito tempo… penso que desde Paula, de Isabel Allende, que li aos quinze anos.

 

Como leitor, anota os livros ou prefere mantê-los intactos?

Não tenho nada contra quem anota, dobra, sublinha livros. Não o faço porque me interrompe o fluxo de leitura e trá-la para um território da análise, do concreto, que não me interessa enquanto leitor por fruição. Faço-o muito quando preparo um texto para dar numa aula, claro, ou quando sei que depois vou ter de escrever sobre esse livro em algum lado. Mas quando estou a ler por prazer, gosto de estar imerso, e a ideia de pegar num lápis e sublinhar traz-me a experiência de leitura para o lugar onde estou e isso parece cortar aquele embalo, aquele transe. Tenho pena, porque perco muitas citações que poderia partilhar, tatuar! Às vezes ainda tento decorar a página, mas passado um tempo já esqueci.

 

Qual o cenário de leitura ideal? Em silêncio, no conforto da sua casa, ou num espaço público — com ou sem ruído de fundo?

Leio em todo o lado e em qualquer circunstância, se a história me prender. Mas geralmente leio de noite, no quarto, na cama, com tampões de ouvido, quando tudo está sossegado. Precisamente para facilitar esse ambiente de imersão de que falava.

 

Que livro (ou livros) tem atualmente na sua mesinha de cabeceira?

Estou a avançar no Dom Quixote de la Mancha, na edição nova da Bertrand. Esse já ocupa a mesa toda…!

 

Qual foi o último livro que ofereceu ou recomendou a um amigo?

O último livro que recomendei no Literacidades foi A Filha Primitiva, de Vanessa Passos. Uma história ousada, de três gerações de mulheres, que desfaz muitos mitos românticos em torno de maternidade, sobretudo. Ofereci à minha mãe Carta a um jovem decente, de Mafalda Anjos. É uma leitura para fazer em qualquer idade, sobretudo quando se tem filhos ou netos. Recomendo e gostaria de oferecer a todos Memórias de Adriano, que li recentemente e sobre o qual ainda penso em vários momentos do dia.

 

E a sua última descoberta literária?

Este ano tenho lido sobretudo literatura brasileira contemporânea. Estou absolutamente maravilhado com os autores que encontro: Júlia Dantas, Claudinei Sevignani, Pedro Jucá, Fernando Rinaldi, Juliana Leite, Socorro Acioli, Aline Bei, Mariana Salomão Carrara… uma geração cheia de arrojo, sem medo de ir a temas difíceis, com uma prosa literária, carregada de sentidos, rebelde, livros com densidade artística e com enredos originais. Temos muito a aprender com esta faixa híper-contemporânea brasileira. É pena que muitos ainda não estejam publicados cá.

 

Qual a banda sonora perfeita para acompanhar a leitura do seu primeiro livro, Filhos da Chuva?

Filhos da Chuva foi escrito, muitas vezes, ao som de Qué no salga la luna, de Rosalía. Uma espécie de flamenco cheio de sentimento, que penso que poderia acompanhar o livro todo. Mas prefiro falar sobre No Brasil não há leões, porque há de facto uma música, João e Maria, de Chico Buarque, que serviu de inspiração àquela que diria ser a parte mais importante do livro. O jogo do imperfeito lúdico, do faz de conta que essa canção abarca, é muito aquilo que procuro trazer no livro, também, um território de memória entre o transe e a lucidez.

 

E sobre o seu novo livro No Brasil não há leões, o que gostaria de partilhar com os nossos leitores?

Tudo! É um romance muito diferente de Filhos da Chuva, não se relacionam em nenhum ponto, a não ser talvez no estilo, que me é natural. Escrito na primeira pessoa, é uma narração densa, na perspetiva de um homem de vinte e cinco anos, que reflete sobre o que foram os seus dez e onze anos, o terror a que esteve sujeito e como isso o marca no presente. O ambiente pode ser angustiante, quase sempre tenso, entre a recordação e a construção que todos fazemos sobre as memórias que temos e sobretudo a forma como as trazemos adiante. Como tratamos as nossas memórias traumáticas, de que forma as integramos nas pessoas que somos e quais os subterfúgios que arranjamos para sobreviver, quando tudo nos parecia pedir que desaparecêssemos.

 


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