Na Bertrand, somos livros — por isso, convidámos Afonso Reis Cabral para uma conversa sobre os livros que fizeram dele o escritor e leitor que é. O autor de Pão de Açúcar, Leva-me Contigo - Portugal a Pé pela Estrada Nacional 2, e do recém-lançado O Último Avô, partilhou connosco os seus hábitos de leitura, as influências literárias que moldaram a sua escrita e os livros que mais o marcaram. Abrimos como sempre a nossa entrevista com as palavras de Afonso Cruz, que afirma que “somos feitos de histórias, não de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias.” Estas são as histórias de que é feito Afonso Reis Cabral.
1. Lembra-se de qual foi o primeiro livro que despertou em si o amor pela leitura?
Os livros que a minha mãe me lia na cama em pequeno. São os mais encantatórios, os mais misteriosos. Marcou-me muito a antologia Um Conto para cada Dia do Ano, em que, perto dos meus anos, durante vários dias, aparecia parafraseada a história do Príncipe Feliz, de Oscar Wilde. Era decerto magia.
2. E pela escrita? Houve algum livro ou autor que o tenha influenciado a dar os primeiros passos como escritor?
Comecei a escrever, querendo ser escritor, pelos nove anos de idade. Em minha casa sempre houve livros, o culto da literatura, a ideia de que nos livros havia uma forma de vida. Este ambiente cultural, e a proximidade com os livros, foi determinante mais do que um determinado escritor. Mas lembro-me, muito novo, de ler fascinado os manuais escolares das minhas irmãs mais velhas e de pensar que macumba seria aquilo da heteronímia...
3. Qual o livro ao qual volta sempre, aquele que levaria consigo para uma ilha deserta?
Volto muito a alguns livros, mas nunca os levaria para uma ilha deserta. Além de serem pesados e de os ter na cabeça, para uma ilha deserta acho mais sensato levar um manual de sobrevivência numa ilha deserta...
4. Um livro que o fez rir, e outro que o levou às lágrimas?
O riso: A Vida em Surdina, de David Lodge. As lágrimas: Carne da Minha Carne, Helen Grace Carlisle.
5. Como leitor, anota os livros ou prefere mantê-los intactos?
Em tempos tinha pudor, agora tenho ganas: rasgo-os, dobro-os, anoto-os, desrespeito-os. É muito mais prazeroso.
6. Qual o cenário de leitura ideal? Em silêncio, no conforto da sua casa, ou num espaço público — com ou sem ruído de fundo?
Por norma, leio bem em qualquer sítio. Mas é sempre melhor de noite na cama.
7. Que livro (ou livros) tem atualmente na sua mesinha de cabeceira?
Tenho sempre uma pilha complicada de gerir, nalguns momentos com um certo pó. Neste momento, estou a ler Vida e Andanças de Alexis Zorbás, de Nikos Kazantzakis, à espera de que seja melhor do que o filme. Mas neste caso é bastante difícil superar Anthony Quinn...
8. Qual foi o último livro que ofereceu ou recomendou a um amigo?
Foi O Último Avô... Diz que a amizade tudo tolera.
9. E a sua última descoberta literária?
Talvez O Quinto Filho, de Doris Lessing. Um livro de terror de uma aterrorizante normalidade.
10. Qual a banda sonora que acompanha ou inspira a escrita dos seus livros?
Neste novo romance ouvi muito a banda sonora do filme animado Em Busca do Vale Encantado, que foi o grande filme da minha infância. Como é absolutamente traumatizante, posso ir buscar imenso combustível à banda sonora de James Horner. Além de ser excelente.
11. E sobre o seu novo livro, O Último Avô, o que gostaria de partilhar com os nossos leitores?
O livro nasce de uma imagem, uma espécie de visão: um velho que incendeia o manuscrito que escreveu em segredo no final da vida. Uma semana depois, morreu. Ora, este homem é simplesmente o maior escritor nacional e toda a vida falou do trauma da Guerra Colonial em que combateu, mas nunca escreveu sobre isso. O que seria o manuscrito queimado? E será que a versão definitiva foi mesmo queimada, ou apenas rascunhos, versões preliminares? Sobretudo, o que significa o gesto para a família, em particular para o neto-narrador? A guerra é apenas o catalisador, o pano de fundo para falar de como o trauma se perpetua por gerações e de como, em último caso, a memória é sempre uma espécie de ficção. E trata-se de uma história familiar em que a geração dos filhos e dos netos dos ex-combatentes se pode rever, já que em tantas famílias esse passado está presente.